Tarô conjuntural e fascismo estrutural, por Ion de Andrade

Parece que esperamos por um milagre, um grande líder, um movimento social que vá galvanizar a indignação nacional. Vemos as ruas como único remédio para nossas desesperanças.

Visconti Forza Tarot

Tarô conjuntural e fascismo estrutural, por Ion de Andrade

Com apenas quatro meses de governo o Bolsonarismo perdeu boa parte da sua base de apoio. As autoridades têm dificuldades de sair às ruas, as combativas redes sociais foram reduzidas ao silêncio e as intrigas internas atestam uma avançada decomposição do governo. Externamente a imagem do Brasil nunca foi tão ruim. Em breve as autoridades públicas do país não terão coragem de deixar o solo pátrio para nada.

No longo prazo é cada vez mais clara a certeza de que o que virá depois desse governo lhe será o oposto. Como ocorreu com as sociedades europeias saídas do nazifascismo que combinaram o Estado de direito com o consumo de massas.

Mas os processos são longos e no Brasil institucionais. Nos angustia a demolição de conquistas históricas da nação, a Embraer, as Universidades Federais, os gigantes da engenharia, a imagem internacional…temos pressa. A memória muito recente da dignidade e da legalidade nos faz sonhar com um retorno rápido à normalidade. Virá tão rápido ou teremos muita poeira a engolir e muito o que aprender para devolver essa direita degenerada à História?

Acredito, como sempre foi o caso no Brasil que as saídas nesse país continental serão institucionais, sempre foi assim após 64. As manifestações de rua são apenas um começo da expressão de um descontentamento profundo.  Mas nada há em comum entre elas e a campanha das Diretas Já que propunham um itinerário de saída institucional da ditadura pela via eleitoral. Essa grande campanha, a maior que já tivemos, com milhões nas ruas, é importante lembrar, sob lágrimas de todos nós que participamos, foi derrotada. De fato, peça no tabuleiro de outrem, não fez mais do que pavimentar a escolha de um moderado para comandar o que se pretendia que fosse uma transição pelo alto.

E agora? Qual é o itinerário de saída? Parece que esperamos por um milagre, um grande líder, um movimento social que vá galvanizar a indignação nacional. Vemos as ruas como único remédio para nossas desesperanças.

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Não há esperanças para o médio e longo prazos para o bolsonarismo, como nunca houve para outros autoritarismos. E tudo leva a crer que em tempos de redes sociais a decomposição seja anda mais rápida. Mas esse é apenas o quinto mês de governo, num país onde a história vai devagar como um paquiderme.

Têm razão os que dizem que cada dia que passa demorará anos para ser reparado e que há perdas definitivas e que o momento histórico de nova revolução tecnológica que estamos perdendo e desperdiçando talvez nos projete por muito, muito tempo na condição de estarmos entre os países mais atrasados do globo. A Colômbia e o Perú já estão prestes a nos ultrapassar em renda per capita.

Mais do que nunca é necessário cingir os rins e pensar em itinerários de saída e construí-los, é preciso planejar que país queremos para depois e consolidar alianças e compromissos para a governabilidade futura. É preciso sim encher as ruas, mas sem cultivar a ilusão de que produzirão saídas de curto prazo pois são improváveis. É preciso cultivar a resiliência e a esperança e entrar no clima que uma vez tivemos quando enfrentávamos a ditadura sem saber como ou quando acabaria, convencidos porém que estávamos de que tinha os dias contados.

E não cultivemos a ilusão de que o que aí está é o resultado apenas de um espasmo golpista. Não é. Esse fascismo sempre se exprimiu nas mesas de almoço e jantar. É estrutural e nos espreitará por gerações. Que remédio de longo prazo temos para ele? Devemos pensar porque ainda que saia do Poder continuará em cada ínfimo detalhe da vida nacional e da vida institucional.

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Na Itália o PCI entendeu que o fascismo era estrutural e elegeu a consolidação da democracia como bandeira de longo prazo. E nós? O que faremos com dois terços dos nossos compatriotas pobres ou miseráveis? O que elegeremos como  tarefa histórica para suplantar, ainda que em 200 anos, o mal que nos agride hoje? Apenas a democracia como na Itália? É possível sustentar o Estado de Direito com a sobrevivência histórica da escravidão e do racismo estrutural? Que compromissos há entre o fascismo de Brasília e o nosso Estado escravocrata que permite que o governador do segundo mais importante estado do Brasil se dê um safari para matar negros? É só com o povo na rua que vamos reverter isso?

Se não despertarmos para as tarefas que desde já devemos planejar e que tocam a grandes trabalhos de transformação social que nos custarão gerações, se continuarmos concentrados no tarô dos estudos conjunturais não haverá remédio. Se não entendermos que devemos apresentar uma proposta civilizatória abrangente e corajosa nas eleições municipais que vêm teremos perdido mais uma oportunidade. Se não colocarmos as maiorias no centro do tabuleiro, não como alvo de políticas, mas como protagonistas que devem ser da sua história, não haverá futuro para nós.

Muitas civilizações deixaram de existir e entraram em colapso civilizatório porque não conseguiram se renovar, de certa forma “preferiram” perecer a evoluir, o que pode ser ilustrado pelo que dizia um Salazar que Portugal soube derrotar: “Prefiro um Portugal pobre do que um Portugal diferente”.

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Nossa crise é civilizatória. Vivemos um “decifra-me ou te devoro”. Mas as bestas do apocalipse que vieram nos devorar, já estão aí às soltas.

É enfrentando essas bestas que deveremos tecer uma proposta visionária onde a democracia que construiremos no curto, no médio e no longo prazo possa se encontrar com a sociedade que escolheu romper com a Casa Grande & Senzala e que não poupará esforços para trazer à contemporaneidade, à nacionalidade e à cidadania os pobres e miseráveis que fazem o Brasil dos esquecidos, caçados com pompa e circunstância em tempos de inverno político como agora, ou massacrados cotidianamente pelo Estado ao voltar para casa à noite, em tempos de normalidade.

Antes de derrotar a direita fascista, talvez o Cosmos esteja a esperar de nós o Juramento em nome do que possa haver de mais sagrado de que não consentiremos sob qualquer hipótese que a ordem escravocrata prospere. É fazendo isso que venceremos o fascismo estrutural do Brasil.

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