Um caminho para derrotar Bolsonaro: o foco do discurso Lula-2022, por Sidnei R. Priolo Filho

Um caminho para derrotar Bolsonaro: o foco do discurso Lula-2022

por Sidnei R. Priolo Filho

A partir da decisão do ministro do STF Edson Fachin tornando Lula elegível para 2022 e , a discussão do Habeas Corpus de suspeição do ex-juiz e ex-ministro de Bolsonaro Sérgio Moro, bem como o pedido de vistas do ministro Nunes Marques, me propus a  apresentar alguns pensamentos, fundados em estudos da Psicologia, de quais caminhos seriam possíveis para enfrentar o crescente golpismo e ideias autoritários de Bolsonaro.

Nesta análise, partirei  das ações da campanha bem-sucedida de Bolsonaro em 2018 e nos trabalhos de Jason Weeden e Robert Kurzban do livro “The hidden agenda of the political mind”. Esses autores argumentam, a partir da análise de dados de pesquisas realizadas nos Estados Unidos, que as decisões políticas das pessoas são baseadas no interesse próprio e da sua rede social (por exemplo, família, amigos, pessoas próximas). Decorreria daí, de maneira simplificada que, diante das características competitivas da vida, não somente para indivíduos e suas famílias, que os indivíduos buscam apoiar políticos que tragam benefícios para os grupos em que o indivíduo faz parte.

Vamos analisar uma das peças de propaganda de Bolsonaro durante a campanha de 2018 que foi amplamente divulgada e difundida via WhatsApp, Facebook e outras redes sociais durante a campanha, que aponta para três elementos fundamentais para muitos grupos brasileiros: preço da gasolina e do gás e 13º para os beneficiários do Bolsa Família.

Retornando ao período da campanha da eleição presidencial de 2018, sob o descalabro promovido por Michel Temer, o Brasil tinha uma taxa de desemprego de 12,4 milhões de pessoas[1], o preço médio do litro da gasolina em R$ 4,39[2] e 4,5 milhões de brasileiros desceram para abaixo da linha de extrema pobreza entre 2014 e 2018[3]. Ou seja, um cenário complexo e com perdas para amplos grupos da população, em especial, as classes mais baixas, mais sensíveis aos aumentos de preços de itens básicos, como o gás de cozinha. Nesse cenário, as promessas demonstradas no santinho eram extremamente sedutoras para a maior parte do eleitorado brasileiro. Ou como os autores do referido livro dizem “Money Matters”, em especial, para membros que estão na base da pirâmide financeira de uma sociedade e dependem de programas de assistência ou auxílio governamental. Esse é o mosaico que envolve pessoas dos mais diversos grupos sociais e religiosos do país. Não é difícil observar um interesse próprio de grande parte da população brasileira para a proposta do, então candidato, Jair Bolsonaro que supostamente traria consequências benéficas e de interesse desses eleitores. A estratégia de Haddad no segundo turno demorou a apresentar elementos que poderiam ser de interesse próprio para os eleitores, somente uma semana antes da eleição discursou sobre um aumento do valor no Bolsa família[4], no dia 24 de outubro, 4 dias antes do segundo turno, falou do botijão de gás a R$ 49,00[5].  A partir dessa fala, a distância de Haddad para Bolsonaro caiu 4 pontos percentuais para o resultado da eleição[6].

Esses aspectos nos levam a pensar na formulação da estratégia que poderá levar um candidato de esquerda para a vitória na eleição do ano de 2022. Um aspecto que parece claro é não dispender energia e tempo de campanha para discussões consideradas abstratas para boa parte do eleitorado. Temas como democracia, justiça e liberdade podem atrair a atenção de uma pequena parte do eleitorado, mas tudo indica que essa parcela não depositaria seu voto em Bolsonaro. O contexto atual envolve duas crises graves para a população brasileira, uma crise sanitária e outra econômica. Weeden e Kurzban apontam para os achados de pesquisa que ao enfrentar situações de desemprego ou perda de rendimentos, as posições políticas das pessoas são afetadas, isto é, há uma relação causal entre as circunstâncias econômicas das pessoas e suas visões sobre quais políticas seriam mais benéficas e mereceriam seu voto. Dessa forma, compreender quais interesses da população são relevantes para aumentar as chances de voto é fundamental para qualquer candidato de oposição ao governo atual.

Passemos para a situação atual do país. Se em 2018 ela parecia grave, em 2021 ela é dramática. O Brasil é um dos países com maior número de casos e mortes pela COVID-19[7], o desemprego e o desalento estão em alta[8] e o número de pessoas em situação de pobreza não para de crescer[9]. Ou seja, a situação para a maioria dos brasileiros é de dificuldade financeira e de saúde. O colapso eminente do sistema de saúde e o aumento de casos de coronavírus também causam uma série de impactos na discussão sobre acesso às vacinas e aos tratamentos não científicos propostos por Jair Bolsonaro e seu governo.

Com isso, as preocupações com renda, emprego e o coronavírus devem dominar as pautas até a eleição de 2022[10]. O panfleto de Bolsonaro apresentado anteriormente não deve fazer eco como ocorreu em 2018 por uma razão simples: a avaliação do governo é ruim e sua ligação com a atual crise é visível para a maior parte da população. Qualquer candidato que queira ser competitivo nas eleições deve trazer essas dificuldades e formas de resolução como centrais no seu discurso. Entre o “cardápio” de candidatos e possíveis candidatos apenas um se destaca nessas temáticas: o ex-presidente Lula. Ou nas palavras de Delfim Netto, Lula “é o único sujeito no Brasil que quando fala em pobre está falando seriamente[11].) O período Lula, em especial, ao final do seu mandato apresentava uma condição econômica favorável e otimismo generalizado com o futuro em todas as classes sociais, inclusive as que abandonaram e foram abandonadas pelo governo Bolsonaro[12]. O foco da campanha que se inicia agora deve ser retirar o campo ativo de Bolsonaro e seus asseclas da visão de resolução da economia (que não veio e não tem sinal nenhum que aconteça) e assumir o protagonismo da resolução da questão sanitária e econômica.

O aprendizado das eleições de 2018 para a oposição é claro: discussões abstratas como o conceito de democracia e justiça são importantes, mas as questões de sobrevivência e interesse imediato avançam e definem o voto do eleitorado, em especial, daqueles mais afetados pela crise atual, como postulado por Weeden e Kurzban. O aprendizado e a experiência em identificar e apontar os caminhos que conversem e importam para a maior parte da população parecem ser um fenômeno natural para Lula. Com isso, o plano aberto da eleição do ano que vem passa por Lula e pelo discurso feito em São Bernardo do Campo em 10 de março. Bolsonaro pode começar a colocar as barbas de molho que Lula está de volta e com o foco e a experiência para fazer a diferença.  

Sidnei R. Priolo Filho – Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Forense da Universidade Tuiuti do Paraná


[1] https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/11/29/desemprego-recua-para-117-em-outubro-mas-ainda-atinge-124-milhoes-de-pessoas-diz-ibge.ghtml

[2] https://agora.folha.uol.com.br/grana/2018/10/1982806-litro-do-alcool-sobe-7-e-alta-da-gasolina-chega-a-5.shtml

[3] https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/11/06/crise-levou-45-milhoes-a-mais-a-extrema-pobreza-e-fez-desigualdade-atingir-nivel-recorde-no-brasil-diz-ibge.ghtml

[4] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/na-reta-final-promessas-mudam-e-plano-de-governo-e-deixado-de-lado-por-campanhas.shtml

[5] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,haddad-promete-botijao-de-gas-de-cozinha-a-r-49-mas-sem-interferir-em-outros-derivados,70002561468

[6] https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/pesquisas-eleitorais/todos/pesquisas-de-ibope-datafolha-presidente-no-2o-turno/

[7] https://coronavirus.jhu.edu/map.html

[8] https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2021/01/28/pnad-continua—desemprego—novembro.htm

[9] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/11/12/ibge-brasil-tem-quase-52-milhoes-de-pessoas-na-pobreza-e-13-milhoes-na-extrema-pobreza.ghtml

[10] https://www.poder360.com.br/poderdata/preocupacao-com-a-pandemia-aumentou-para-mais-da-metade-dos-brasileiros/

[11] https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1349:entrevistas-materias&Itemid=41

[12] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2010/01/673451-cresce-otimismo-do-brasileiro-com-economia-diz-pesquisa.shtml

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