Um exemplo do Nordeste: Não ao negacionismo da Ciência, por Sergio M. Rezende

No final de 2020 o mundo tomou conhecimento de outra vitória da ciência, o desenvolvimento em tempo record de vacinas contra a covid-19.

Um exemplo do Nordeste: Não ao negacionismo da Ciência

por Sergio M. Rezende

Nos primeiros dias de 2020 o mundo tomou conhecimento de uma informação preocupante vinda da cidade de Wuhan, na China. Uma doença até então desconhecida, transmitida por um novo coronavírus, em pouco tempo debilitava as pessoas e podia levar a óbito. A doença, que recebeu o nome de Covid-19, causou uma epidemia que fez o governo local decretar “lockdown” e construir um hospital de campanha para a internação dos doentes que se multiplicavam. E as atenções do mundo voltaram-se para a China.

Muitos acreditavam que a nova doença ficaria confinada à China, mas logo os primeiros casos da covid-19 foram anunciados na Itália e na Alemanha, em pessoas infectadas por viajantes que chegavam da China. Em algumas semanas a epidemia se espalhava na Itália, Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, e chegava aos Estados Unidos. No início de março a Organização Mundial da Saúde reconhecia a situação de pandemia, quando 114 países anunciavam a infecção de mais de 118 mil pessoas.  

Logo a ciência entrou em cena, identificando os efeitos da covid-19, como danos permanentes aos pulmões, por síndrome respiratória aguda, e ao coração, deixando sequelas graves e até levando a óbito. Também houve grande avanço nos métodos de testagem, mas nenhum medicamento específico para o tratamento da doença foi identificado, e nenhum tratamento precoce teve sua eficácia comprovada cientificamente. A ciência também demonstrou que o novo coronavírus, denominado sars-cov-2, era transmitido no contato entre as pessoas, ou por meio de gotículas expelidas por tosse, espirro, etc. Então, a única maneira de controlar a epidemia era o isolamento social, uso de máscaras, higienização sistemática, etc.

Ainda em março foram identificados os primeiros casos da covid-19 no Brasil, em turistas que chegavam da Europa. A reação imediata do presidente da república foi a negação da gravidade da doença, dizendo que em pessoas saudáveis ela causaria no máximo uma gripezinha, e aconselhando a população a continuar a vida normal. Foi então que os governadores dos nove estados do Nordeste, reunidos no Consórcio Nordeste (CNE), criaram o Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4), formado por cientistas especializados nos vários temas relacionados à doença. Logo o C4 passou a emitir boletins com recomendações de ações para a contenção do espalhamento do coronavírus, informações para as equipes de saúde, análises de cenários e riscos, entre outros, com base no melhor conhecimento científico existente.

A primeira recomendação do Boletim 1 era enfática, os estados e municípios deveriam impor medidas restritivas de distanciamento social, que eram essenciais para conter o avanço da epidemia. Ela foi acatada pelos governos do Nordeste, porém a epidemia expandiu na região, facilitada por ser uma mais pobres do País, com enormes desigualdades sociais, com aglomeração de pessoas nas moradias e trabalhando em setores comerciais informais ou desestruturados.

Seis meses após o início da epidemia no Brasil os números diários de casos e óbitos pela covid-19 começavam a diminuir, indicando o final de uma “onda epidêmica” muito mais longa que nos países europeus, onde a queda se verificou dois a três meses após o início, em razão das medidas restritivas logo implantadas. Entretanto, as aglomerações causadas pelas eleições municipais e pelas festas de final de ano levaram ao início da segunda onda.

No final de 2020 o mundo tomou conhecimento de outra vitória da ciência, o desenvolvimento em tempo record de vacinas contra a covid-19. Graças aos avanços na biotecnologia, pesquisadores em universidades e centros de pesquisa, em articulação com empresas farmacêuticas, ainda no meio do ano já anunciavam o início de testes em humanos de várias vacinas candidatas. Nesta época, empresas estrangeiras procuraram o governo brasileiro para oferecer suas futuras vacinas. O governo rejeitou todas elas, pois o presidente da república afirmava que não seriam necessárias.

Nos primeiros meses do ano a segunda onda da pandemia ganhou corpo no Brasil, e como em outros países foi mais intensa que a primeira. No início de abril a média móvel de sete dias de casos de covid-19 atingiu 100 mil, enquanto a média de óbitos atingiu 3,1 mil. Em dias de pico houve cerca de 4,5 óbitos. Desde então os números têm caido lentamente, mas nos próximos dias o número total de mortes pela covid-19 alcançará a terrível marca de meio milhão de pessoas. Uma verdadeira tragédia! Resultado, em grande parte, da inépcia do governo federal, da permanente atitude negacionista do presidente da república e suas campanhas contra o isolamento social, o uso de máscaras de proteção, e até contra a vacina, influenciando diretamente seus seguidores mais fanáticos.

No balanço geral da crise da covid-19 no Brasil, a distribuição geográfica tem implicações significativas. No início da epidemia alguns estados do Nordeste apresentavam os piores desempenhos, e os prognósticos de especialistas para a região eram muito sombrios. Porém, após um ano, em 16 de junho de 2021, enquanto a média de óbitos pela doença no País era de 232 por 100 mil habitantes, todos estados nordestinos tinham menos óbitos que a média nacional. A menor taxa do País era do Maranhão, com 121/100 mil, a segunda menor de Alagoas, 150/100 mil, depois Bahia, 152/100 mil, depois Pernambuco com 176/100 mil, etc. Há duas razões para este cenário. Uma é que em todos estados do Nordeste, o presidente da república foi derrotado nas eleições de 2018. Portanto, no Nordeste ele tem menos seguidores para suas macabras recomendações. A outra, sem dúvida, é que os governadores e prefeitos da região rejeitaram o comportamento negacionista do presidente e seu governo e decidiram ouvir a ciência para tomar as decisões no enfrentamento da maior crise sanitária já vivida pelo Brasil.

Sergio M. Rezende, Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco, foi ministro da Ciência e Tecnologia (2005-2010) no Governo Lula, é um dos coordenadores do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste.

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