Um Oxóssi guerreiro [Diálogos com a dança], por Daniel Gorte-Dalmoro

Um Oxóssi guerreiro [Diálogos com a dança]

por Daniel Gorte-Dalmoro

Tempos como os atuais exigem saídas do script. Atacada por todos os lados, a cultura que ousa se afirmar cultura, na medida em que se recusa enquanto publicidade oficial, precisou começar a trazer explícito o discurso político. Entretanto, não é todo artista, todo grupo que utiliza a política institucional como material criativo, para daí sair algo para ser posto em cena artisticamente. Assim, cabe ao menos, junto com os agradecimento aos patrocinadores, no fim da apresentação, o jargão “Fora Temer”, nem que seja para marcar uma posição de defesa da democracia. Isso para grupos menores. Grupos maiores, consagrados internacionalmente e dependentes de financiamento público (uma vez que o privado se recusa a patrocinar o que não traz bons lucros), se não explicitam o discurso político, acabam por trazê-lo indiretamente, como é o caso do Grupo Corpo, um dos principais (se não o principal) grupo de dança contemporânea do Brasil, reconhecido internacionalmente, que desde 2015 passa o pires atrás de dinheiro, por ter parte do patrocínio da Petrobrás cortado (afinal, diziam que a petroleira estava à beira da falência, com reservas enormes de petróleo a baixo custo de extração).

Em São Paulo, em 2017, a ascensão de um político de extrema-direita, sem qualquer apreço pela convivência democrática e republicana, com um secretário de cultura com iguais valores (e que gosta de brincar de machão (protegido por meia dúzia de guarda-civis, sempre) chamando para o braço quem o critica), pôs poder público e artistas em guerra aberta. E a dança foi um dos grupos mais articulados nessa resistência contra o desmonte da cultura em São Paulo.

Uma das mais recentes cartadas democráticas da gestão Doria-Sturm foi a substituição da curadora de dança do CCSP, sob o argumento de “porque sim, porque eu quis”. E o primeiro gesto da nova curadora, Lara Pinheiro, foi boicotar o artista Eduardo Fukushima da programação – já que o dinheiro pago para construir seu espetáculo já havia sido pago e ficaria feio mandar ele para casa sem apresentar o resultado do investimento público. Fukushima é uma das (muitas) vozes que se levantam contra Doria-Sturm-Lara, dando a cara a tapa, levando o tapa, e devolvendo o tapa à altura.

O espetáculo de Fukushima apresentado dias 1, 2 e 3 no CCSP, Da percepção à memória: Oxóssi com/para Denilto Gomes, possui uma série de discursos, nem todos identificáveis logo de cara. O primeiro deles, por escolha do artista e evidente, é o político. Invertendo a ordem habitual, antes de entrar o palco para dançar, Fukushima subiu à ribalta para falar sua situação, o boicote à sua obra na programação da Semanas de dança do CCSP – pode ter sido uma falha técnica, mas é surpreendente como há demasiadas e sempre pertinentes falhas técnicas quando políticos antidemocráticos tomam o poder -, e da situação calamitosa para a qual a cultura tem sido impelida pela prefeitura de São Paulo, em parceria com o governo do Estado e o governo federal. Preferiu pôr a política à frente de sua obra, um ato ousado numa época em que artistas costumam ter como grande preocupação estar sempre de bem – ousado e marcante, dado sua dificuldade óbvia com a fala. A seguir explicou os pontos de intersecção que via dele com Denilto Gomes – grande expoente da dança contemporânea brasileira nas décadas de 1980 e 90, morto em 94, em decorrência da Aids -, o interesse de ambos pelo inexplicável, pelo oculto. Só então veio a dança, já completamente contaminada pelas palavras – para o bem e para o mal.

Acompanhado de um tsuru em negativo – um tsuru preto -, Oxóssi-Fukushima vem armado de lanças para fazer da caça poesia; do movimento, pausa – e novamente movimento -; do agônico, agonístico. Seu discurso inicial, contudo, transforma o caçador em guerreiro e todo seu solo – que não soa tão solo – um embate, carregado de uma tensão nos gestos e nos tempos – como trazer para o presente um passado não assistido diretamente pelo artista, mas que ainda assim o marca?

É uma dança contida, destoa dos solos a que assisti de Fukushima – talvez porque seja um solo apenas em aparência. A fala inicial de Fukushima contamina os gestos, sua expressão é séria – seja no combate com as lanças, seja na contemplação sob o leque. A homenagem dele a Denilto apresenta a arte como poesia e política, como confronto e beleza. Como Brasil e Japão, e não é nenhum dos dois – Denilto foi um dos primeiros a trazer o butoh para a dança contemporânea, Fukushima tem forte influência oriental (para além de sua ascendência), com estágio no outro ponto do globo.

Fukushima sai, o público aplaude, Fukushima retorna e continua a dança – é agradecimento, mas ainda é parte do espetáculo. Sua expressão agora é leve, seus gestos soam mais soltos e fluidos – mais a cara do que estou acostumado dele. Associo ao título da obra esses dois “atos”: no primeiro, seu solo é, na verdade, um duo, de alguma outra dimensão, Denilto dança com ele; no segundo, um solo seu, sua homenagem particular para Denilto. Em todo o espetáculo, o trazer o invisível para a ribalta, o passado para o presente; a dança em suas muitas possibilidades, o corpo em suas dificuldades – como no discurso inicial – e em toda sua expressividade – inclusive, dançar com os ausentes.

06 de setembro de 2017.

Redação

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