5 de junho de 2026

A mística das expectativas e a retomada do investimento privado, por Laura Carvalho

carro na fabrica

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Artigo do Brasil Debate

Por Laura Carvalho*

Para os candidatos da oposição e alguns analistas do mercado financeiro, o baixo crescimento do investimento e do PIB nos últimos anos podem ser atribuídos a uma crise de expectativas do setor privado, que estaria vivendo uma era de fortes incertezas quanto à política econômica do governo e suas repercussões sobre a economia.

Exemplificando, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 26/01/14, Aécio Neves argumentou que o governo “perdeu a capacidade de gerar expectativas positivas” no mercado. Poucos dias antes de sua trágica morte, em declaração ao Estado de S. Paulo, em 05/08/14, o candidato Eduardo Campos havia afirmado que “a economia não é ciência exata, tem a ver com expectativas [que] só têm piorado pela má governança e falta de confiança dos agentes econômicos no futuro do país”.

A fala de Campos é representativa de uma parcela importante da oposição, assim como a de Aécio. A partir de tal diagnóstico, seus partidos e aliados vêm defendendo que uma melhor gestão das contas públicas, quando combinada a uma política monetária orientada exclusivamente para o controle da inflação, seria suficiente para restaurar a confiança dos investidores e o crescimento econômico.

Em bom português, uma política de contração fiscal seria expansionista em última instância, já que ativaria as tais expectativas do setor privado, permitindo, assim, uma volta ao tão desejado cenário de baixa inflação e alto crescimento.

O discurso da “contração fiscal expansionista” pela restauração da confiança dos investidores não é original do Brasil e dos presidenciáveis. Este raciocínio foi promovido, por exemplo, pelo ministro da Fazenda alemão Wolfgang Schäuble, quando da defesa da austeridade como solução para a crise europeia.

Ao contrário do que previu ele, no entanto, as políticas de contração de gastos públicos nesses países apenas acentuaram o problema de falta de demanda, minando qualquer perspectiva de retomada do investimento privado.

O fraco nível de atividade econômica, por sua vez, explica a baixa arrecadação tributária verificada nos períodos seguintes, o que tornou ainda mais difícil o controle das contas públicas e completou o ciclo vicioso que ainda paira sobre a maior parte dos países europeus.

A lição que deve ser tirada de tais evidências é de que no Brasil, assim como no resto do mundo, o investimento privado parece sim responder a expectativas – a expectativas de demanda. Como indicam as frequentes declarações dos empresários da indústria nacional, não há razão para investir e aumentar a capacidade produtiva quando as plantas industriais já existentes estão subutilizadas e os estoques se acumulam.

De fato, os dados brasileiros mostram que mesmo com a alta penetração das importações que caracterizou a última década, que era fruto sobretudo do câmbio sobrevalorizado, o investimento cresceu sempre que o mercado interno se expandiu.

No acumulado entre 2005 e 2013, o investimento cresceu 89% em termos reais, período este em que consumo cresceu 61%. Por outro lado, os anos em que o investimento parou ou retrocedeu foram os mesmos em que o consumo desacelerou, já que este último e a consequente piora no desempenho do varejo sinalizam para os empresários um enfraquecimento da demanda.

Nesse contexto, a inflação mais alta prejudica sim a retomada do investimento, mas não pela existência do que Paul Krugman apelidou da “fadinha da confiança”, ou confidence fairy em inglês, e sim por contribuir para uma piora do poder de compra dos trabalhadores e, assim, para uma desaceleração do consumo e da expansão do mercado interno.

Uma política de contração fiscal e repressão dos salários, por outro lado, poderia nos levar, na melhor das hipóteses, para um cenário de baixa inflação e baixo crescimento. Isto porque o benefício para a demanda de se controlar a inflação seria eliminado, nesse caso, pelo baixo crescimento dos salários nominais e a redução dos investimentos e demais gastos públicos.

Na pior das hipóteses, no entanto, esta opção nos levaria de volta para o baixo crescimento e a inflação ainda mais alta que caracterizaram a segunda metade da década de 1990.

A via para a volta ao equilíbrio da baixa inflação e do alto crescimento felizmente não requer toques de mágica. Passada a pressão – de caráter temporário – que as desvalorizações cambiais desde 2012 exerceram sobre os custos dos importados e que vem sendo repassada aos preços em geral, a retomada do investimento privado passa a depender da volta do dinamismo da demanda nos mercados interno e externo.

No âmbito externo, ao mesmo tempo em que a crise argentina tende a prejudicar no curto prazo as exportações de alguns de nossos produtos industriais, em especial da indústria automobilística, a economia norte-americana apresenta sinais cada vez mais fortes de recuperação.

No âmbito interno, além da inflação mais baixa já mencionada, a volta do dinamismo da demanda exige basicamente: (1) a manutenção das políticas de transferência de renda e da regra que garante o crescimento real do salário mínimo, ambas essenciais para o crescimento do consumo, e (2) a ampliação dos programas de investimento público e de concessões na área de infraestrutura.

Tais melhorias na infraestrutura, além de garantir injeções diretas de demanda, também contribuem para reduzir os custos de produção e restaurar a produtividade da indústria, contornando assim o conflito entre elevar salários e ganhar competitividade.

Por fim, tanto o dinamismo do mercado interno, quanto a recuperação do mercado externo, poderão ser melhor aproveitados pela indústria nacional ao nível atual de taxa de câmbio real, que já está em patamar mais competitivo do que o que vigorou durante a segunda metade da década de 2000.

Crédito da foto: EBC

Laura Carvalho é doutora em economia pela New School for Social Research em Nova York e foi aprovada em concurso para professora doutora do Departamento de Economia da FEA-USP

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3 Comentários
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  1. Francy Lisboa

    25 de agosto de 2014 1:06 pm

    Mesmo nao sendo economista eu

    Mesmo nao sendo economista eu sempre me perguntava, como ter crescimento sem consumo?

    E esse papo de “consumo desenfreado”? Parece coisa de gente que diz que o que nao se deve fazer mais faz o que se proibe. 

     

    A lição que deve ser tirada de tais evidências é de que no Brasil, assim como no resto do mundo, o investimento privado parece sim responder a expectativas – a expectativas de demanda. Como indicam as frequentes declarações dos empresários da indústria nacional, não há razão para investir e aumentar a capacidade produtiva quando as plantas industriais já existentes estão subutilizadas e os estoques se acumulam.

    Como explicar que pessoas que lavaram a burra com o capitalismo calcado no consumo venho ser coordenadores de potenciais governos que prezam pela queda do consumismo?

     

  2. Ivan Arruda

    25 de agosto de 2014 1:32 pm

    Silvio Santos é considerado

    Silvio Santos é considerado um dos grandes empresários do País. Até se assanhou em ser presidente, dada a sua competência e imagem bom e bem sucedido gestor. Demonstrada outra vez ao se pronunciar na saída do fórum onde fora depor sobre fraudes e rombos ocorridos no Banco Panamericano: Não sei de nada… sempre me diziam – os diretores do banco – que tudo estava indo bem. Com seus bens a salvo e o abacaxi empurrado para a CEF, ficou com o poder de mídia para apontar dedos sujos ao governo que desestimula investimentos produtivos. São homens como esse que, no Brasil, com seus próprios exemplos e uma máquina de mídia se encarregam de estimular empreendedores aos investimentos produtivos. Hoje perdemos um outro que, embora tivesse o governo como maior cliente, tinha ambições empresariais verdadeiras e diferentes dos trambiqueiros do Baú. Que o governo é mau gestor, principalmente dos recursos com a grande mídia, infelizmente não se pode contestar. Principalmente à rede golpe, onde o Brasil e as autoridades são mostrados como se subordinados a ela fossem. E até isso fica difícil contestar.

  3. altamiro souza

    25 de agosto de 2014 7:02 pm

    desde 2003 a grande mídia

    desde 2003 a grande mídia critica o governo trabalhista e influencia empresários e parte da sociedade para que percam confiança no mercado.

    falsear expectativas com suas manchetes que nunca batem com a matéria é  a arte maior dos mancheteiros e editores dessa grande grande mídia,

    é só analisar a linguagem usada pela grande mífdia oligospista e perceber as táticas usadas para alcançar os resultados da grande estatégia perseguida pelos  grupos economicosa e políticos representantes dos oligopólios concentradores – retomar o famigerado neoliberalismo que detona a economia de vários países pelo mundo, notadamente os da europa.

    como sempre denuncia o krugman em seus comentário sobre a economia norrte-americana, matriz destes grandes conmglomerados que querem açambarcar o poder no brasil, sem emprego, sem consumo, não é possível fazer girar a economia.

    pelo jeito é a recessão  o que querem os economistas representantes dessses conglomerados imperialistas.

    querem  é (in)justamente diminuir o pleno emprego e os direitos sociais, os quais, para eles, fazem parte do mítico “custo brasil”, certmente uma expressão inventada pelos sonegadores de impostos para desviar a atenção  porque senão estariam todos presos, os mesmos de sempre que criticam a cobrança de impostos mostrando impostomoetros, esquecendo de suas sonegações.

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