13 de junho de 2026

Um burro em Davos, por Fernando Horta

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Um burro em Davos, por Fernando Horta

Num dos esforços de melhorar as relações entre os países da América do Sul, durante ainda a segunda guerra mundial, os EUA por meio de Walt Disney, criou um personagem para dialogar com o rato mais famoso do estúdio. Zé Carioca (Joe Carioca em inglês) aparece em 1942 num filme ao lado do Pato Donald, chamado “Saludos Amigos”. O Brasil de Zé Carioca é um Brasil com “belezas naturais”, “florestas”, “praias” e com um “povo hospitaleiro” disposto a “receber” outros povos da América numa desesperada busca por modernização econômica. O Brasil de Zé Carioca oferecia apenas entretenimento e oportunidades econômicas. Era “faceiro”, “falastrão” e “boa gente”, mas carecia de qualquer capacidade civilizatória que tivesse valor na metade do século XX. O Brasil vivia o processo de urbanização e Zé Carioca mostrava o estereótipo do “malandro carioca”, num modo de vida em franco mal-estar com trabalho ou produção econômica. Enquanto Donald é um determinado e turrão pato, Zé Carioca mostrava-se ao avesso de qualquer noção de “hard working”, vivendo da barganha individual e do extrativismo urbano de vantagens que o “malandro” podia obter.

É a noção mais eloquente do Brasil à venda; do Brasil como terra de “oportunidades” ao dinheiro estrangeiro. Oportunidades normalmente não industriais, mas voltadas ao entendimento que até então se tinha do país: o local do exótico e do selvagem.

Zé Carioca era o modelo mais bem acabado do Brasil do “baticundum”. Até o burro Jair, em Davos.

Muito menos falante que Zé Carioca, sem qualquer carisma ou capacidade de comunicação, Jair retomou o estereótipo do Brasil opulento por suas “belezas naturais”, e carente de valores civilizados. Sem a capacidade de formular quaisquer pensamentos mais profundos, ou mesmo de dar indicações precisas de suas ideias, Jair Bolsonaro falou menos do que o entrevistador que tinha a triste missão de arrancar algo inteligente do presidente brasileiro. Em pouco mais de seis minutos de fala titubeante, desconexa, empiricamente mal formulada e totalmente frustrante, Bolsonaro falou mal do “bolivarianismo”, dos “governos anteriores”, do “viés ideológico” e hipotecou o Brasil de mais formas do que QUALQUER governo anterior.

Na fala de Bolsonaro, o Brasil é uma terra-arrasada precisando de ajuda. E para isto não apenas ele oferece nossa “opulência”, como promete “privatizar” e oferecer “oportunidades de negócios”. Nem a Cuba de Fulgêncio Batista, antes da revolução, era pintada de uma forma tão subalterna, insossa e desesperada por capital estrangeiro. Bolsonaro precisou ser lembrado, diversas vezes, pelo entrevistador de que o Brasil é a oitava economia do mundo (já foi a sexta, nos tempos de Lula), e que deveria ter algo a mais a oferecer do que “diminuir o Estado”. O sonho de Bolsonaro, contudo, é que o Brasil se torne “um dos 50 melhores países do mundo para fazer negócios”.

A revista Forbes organiza uma lista de “best countries to do business”, anualmente, baseados em entrevistas com empresários e alguns indicadores capitalistas (como inflação, renda per capita, PIB e etc.). Entre os cincoenta primeiros na lista estão a Lituânia, a Estônia, o Chipre, a Mauritânia e a Costa Rica, por exemplo. O Brasil figura na posição 73 da lista, e o sonho do atual mandatário do país é subir 23 posições na lista da revista americana.

Bolsonaro aceitou, sem qualquer reserva ou questionamento, o rótulo para o Brasil de “país corrupto”. Aceitou a ideia de que precisamos dar algo para a comunidade internacional (reformas) para dela obter “confiança” e “investimento”. Bolsonaro só não aceitou o termo “direitos humanos”, transformados na fala dele em “verdadeiros direitos humanos”. Também não aceitou a noção de que precisamos preservar nosso meio ambiente e nossa diversidade. Para Bolsonaro, agrobusiness e meio ambiente “precisam andar juntos”. “Nem pra lá, nem pra cá”, disse o empossado, num luminar momento de concatenação de duas ideias ao mesmo tempo. Foi o máximo que o entrevistador conseguiu tirar do burro que hoje ocupa o Palácio do Planalto.

Bolsonaro não falou da Embraer e nossa tecnologia de ponta em indústria aeronáutica, não falou da Petrobrás e nossas tecnologias para descoberta e extração de petróleo, não falou das nossas pesquisas sobre revitalização de biomas (como o Cerrado), não falou do esforço para fazer crescer o valor agregado de nossas mercadorias. Bolsonaro falou do Brasil já sem as áreas que ele pretende vender. E isto significa voltar ao Brasil do Zé Carioca. Um país suplicante, mendigo e submisso, culpando-se por não poder ser mais espoliado pelo capital estrangeiro. Um país que tem vergonha de si, vergonha de não ser uma potência urbana, quem sabe branca e rica.

O discurso de Bolsonaro teria envergonhado TODOS os ditadores militares de Castelo Branco a Médici. Falando em um tom monocórdico de aluno recém alfabetizado, o burrito Jair repetia os nomes dos ministros Guedes, Moro e “Ernesto” como se aos olhos do mundo eles fossem fiadores da capacidade que Bolsonaro não tem. O entrevistador envergonhado termina o suplício da fala de Bolsonaro, e quem assistiu fica com saudade do Zé Carioca. O papagaio da Disney nos vendia por um preço melhor, com maior conhecimento e eloquência do que o burrito Jair. E ainda ouvíamos Aquarela do Brasil sem bater continência para bandeira norte-americana …

Fernando Horta

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

20 Comentários
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  1. Maria Luisa

    22 de janeiro de 2019 6:07 pm

    Um discurso à altura!

    Fernando Horta, você sintetizou o sentimento que imagino a maioria dentre nos aqui sentiu ao ver o discurso de Bolsonaro. Outro dia, o Alfredo dizia da vergonha que seria ver o Bolsonaro discursando em Davos. Eu comentei que deveria ter uma equipe no minimo competente para tal. Esqueci de que barnabés – pessoas sem visão e entedimento – não são capazes de entender um belo discurso e estão distante de qualquer leitura mais fina sobre o mundo que o cerca. O que o Brasil tem para oferecer hoje através do palhaço que o representa é isso: mal estar e sorrisos amarelos entre a plateia. 

  2. pedro lorencon

    22 de janeiro de 2019 6:32 pm

    Um caipira em Bariloche

    Há um outro paradigma para bolsonaro. Nos tempos em que Bariloche era chic, o famoso Amacio mazzaropi, nosso querido comediante que personificava o Jeca. Se ele nos trazia alegria , esse jeca de hoje só nos tráz angústia e apreensão

    1. L@!r M@r+3$

      22 de janeiro de 2019 7:00 pm

      Esse titulo…

      … ja pertence a Sejumoro.  Ele conquistou com louvor quando foi posar de gatao lah em Monaco.

  3. Jorge Fernandes

    22 de janeiro de 2019 6:33 pm

    Ufa

    eu tive alivio !!!

     

    estava esperando ele elogiar o Ulstra e dizer que ia matar o Maduro

  4. WG

    22 de janeiro de 2019 7:19 pm

    Não é justo com o burro ( o

    Não é justo com o burro ( o animal). Os burros não são portadores de maldade. Seria mais justo qualificá-lo de humano com menos de dois neurônios. Ainda sou otimista: o Brasil jamais elegerá outro presidente tão estúpido quanto Bolsonaro.

  5. Álvaro Noites

    22 de janeiro de 2019 7:36 pm

    Um discurso e um presidente a

    Um discurso e um presidente a altura de seus eleitores, esses uma cambada de asnos.

    É bom tirar print screens da militância de seus eleitores para breve futuro de tripudiação e escárnio.

  6. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de janeiro de 2019 7:58 pm

    Discordo. Antes de ir a

    Discordo. Antes de ir a Suíça, sire Bolsonaro era apenas um imenso monte de bosta vulgarmente conhecido como Bozo. Depois de seu discurso em Davos ele virou um Bóson de Higgs. Ninguém consegue ve-lo a olho nu, sua existência é elusiva e depende de uma colisão de prótons no CERN. Portanto, Bolsonaro pode ser considerando um gênio da física de partículas.

     

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      22 de janeiro de 2019 8:01 pm

      Além disso, o Bóson de Higgs

      Além disso, o Bóson de Higgs conseguiu provar uma tese antiga:

      “… qualquer governo, por pior que tenha sido constituído, pode durar um, dois ou três dias; um desafio muito maior do que criar um determinado governo é preservá-lo.” (Política, Aristóteles, Martin Claret, São Paulo, 2018, p. 226)

  7. republicano arrependido

    22 de janeiro de 2019 10:46 pm

    ainda bem que terminou logo
    o

    ainda bem que terminou logo

    o cara escoiceia a palavra

  8. Rafael, BHte

    22 de janeiro de 2019 11:17 pm

    tsc tsc

    oi constrangedor até para ele que teve que fazer aquele papel medíocre, imagina então para mim que sou o representado (embora não quisesse)?!!

  9. José B Queiroz

    22 de janeiro de 2019 11:58 pm

    ONU.

    Caso o Bozo consiga chegar o fim de 2019 como presidente, vcs já pensaram como vai ser o discurso dele na abertura da Assembleia Geral da ONU? Já imaginava que seria dose, mas, a partir do que aconteceu em Davos, acho que será catastrófico!

  10. Sidnei

    23 de janeiro de 2019 12:12 am

    Brasil, o paraíso sexual
    Para os estrangeiros.
    A visão dele é futurista, traduzindo suas palavras:
    – transformarei este país em terra arrasada de tal forma que, com o câmbio depreciado e sem nenhum porvir ao povo, ele se tornará o paraíso sexual dos estrangeiros! Glória a Deus! Ô Glória!
    Para os brasileiros será cada vez mais um inferno.

  11. jcordeiro

    23 de janeiro de 2019 4:38 am

    Ninguém É de Ferro

    Nassif: qual será o ParaisoFiscal do Grupo daBala? A ministra da Inglaterra quer já depositar o combinado “sinal”, prá não perder essa VacaMole. O problema é o quanto se destinará aos quartéis.

  12. Rogério Bezerra

    23 de janeiro de 2019 5:46 am

    E ele se esforçou muito,

    E ele se esforçou muito, muitíssimo, para dizer aquelas palavras.

    Mas reconheçamos, é esse o nível dos militares, empresários, muitos e muitos juízes e letrados em geral, no Brasil.

    Assisto, já enraivecido, a mesma obtusidade de parentes, aparentados e vizinhança.

    Vou prá Cuba, e desta vez, não volto…

  13. Gordo

    23 de janeiro de 2019 10:52 am

    Davos

    As vezes me pego perguntando se não seria redundância observar o tanto que o Bolsonaro inferiorizou o Brasil em seu discurso, pois isso é sua praxis. No entanto talvez  o resultado das eleições estejam demonstrando exatamente isso, que por acharmos que ta tudo tão na cara, deixamos de nos indignar, daí nao estava e….

  14. NELSON VIANA DOS SANTOS

    23 de janeiro de 2019 11:12 am

    BOLSONARO EM DAVOS

    Bom dia a todos e todas

    Gostaria de assinar os comentários que me antecederam e o artigo do Fernando.

    Essa figura grotesca, que talvez jamais tenha lido um livro na vida, é uma vergonha para o país, ou não, ao menos para parte da população que o elegeu. Para boa parte da classe média “escolarizada” que foi o chama de MITO, ele está entregando aquilo que prometeu: a estupidez, a falta total de cultura, a incapacidade de se expressar, a subservivência … É isso.

    Começa a ficar claro que 57 milhões de eleitores votaram num escroque que não consegue sequer formular uma pergunta num debate (precisou escrever na mão).

    Quando as investigações sobre o seu filho ligado às milícias ficaram mais claras, gostaria de ver a classe média vestida com a camisa da seleção da cbf sair às ruas cantando o hino nacional e gritando que tudo é culpa do Lula.

     

    Um abraço e vamos à luta

     

    LUALA LIVRE !

  15. serralheiro 70

    23 de janeiro de 2019 1:59 pm

    2019, Brasil em Davos

    Gosto dos textos assinados por Fernando Horta. Este sobre Bolsonaro em Davos traz o descoforto por reconhecer como infeliz tal representação brasileira no ambiente internacional dos negócios. Tal desconforto parece também presente na imprensa mundial. Discordo de qualquer figuração ligada a burros, pelo grande valor que dou a estes animais tão úteis.Este Brasil visto em Davos é o resultado de campanha detrutiva instaurada entre no´s a partir de comportanto viralata disseminado pela nossa imprensa PIG.Também merecem citaçóe: nossa “justiça”, nossas elites economicas, nossas FFAA e todo o mais que levou Bolsonaro a presidência do Brasil.

  16. Dilton Campos Filho

    24 de janeiro de 2019 4:05 pm

    Um Burro em Davos, por FH

    Assistir, li, ouvi varias análises sobre a “aparição de Bozo” em Davos, porém nenhuma tão pertinente, detalhada e clara quanto a de Fernando Horta. Os competentes defensores da direita buscaram justificar o curto, vazio e seco discurso uma excelente assessoria que o orientou a falar, pausadamente, só o que os capitalistas exploradores queriam ouvir. É uma visão correta, mas nós somos um povo, não somos uma reserva de riquesas naturais à espera dos exploradores sem qualquer dignidade como o Bozo nos descreveu (talvez, Bozo estivesse vendo um espelho à frente)!

  17. Joécio

    25 de janeiro de 2019 11:02 pm

    Davos
    Houve uma coisa boa no discurso em Davos, só não direi porque me emocionei tanto com o discurso que esqueci.

    1. Almir G. Pereira

      27 de janeiro de 2019 3:36 am

      Davos

      A única coisa boa no discurso de Bolsonaro é que foi curto! Ninguem, nem ele, aguentaria um discurso maior!

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