Ontem à noite me ligou uma tal de Marta não sei de quê.
Veio com um papo de que eu era uma pessoa culta, preparada e blá, blá, blá e blá, blá, blá.
Isso não vai prestar, vem merda por aí – pensei com meus botões.
Dito e feito. Rodeou, rodeou e pimba!
– Senhor Jandui, querido, o senhor não aceitaria ser ministro da cultura do governo Temer?
Achei estranho aquilo. Só pode ser trote. Todavia…
– Mas senhora, este ministério nem existe mais. Isto não seria um trote? – perguntei educadamente.
Vai ver é verdade e perco a boquinha, não é mesmo?
– Não, senhor Jandui. Temer e Cunha Já decidiram. MEC vai não existir novamente. O MinC voltou.
Ela disse com firmeza e propriedade. Percebi que não era trote. E disse com toda modéstia típica dos atuais ministros deste novo e promissor governo:
– Não creio que eu esteje preparado para tal desafio. E nem mulher eu sou!
– Esquece as mulheres, Sr Ministro. Já desistimos delas. Não são confiáveis e muito rebeldes. E não seja modesto. Fiquei sabendo pela minha assessoria que o senhor até já escreveu um belo livro! Parabéns!
– Eu? Que livro?
– Meus assessores me passaram o nome. Deixa achar aqui. Aguarde um momento na linha….
– Achei! “Manipulação de Arquivos em Cobol – 1986” de sua autoria. Não se lembra de própria obra tão afamada? Um belo romance, diga-se de passagem.
Quem diria… minha pequena apostila de 31 páginas que fiz para meus alunos do curso de Programação Estruturada Portugol/Cobol editada e impressa no velho WordStar!
Será que realmente sou digno do cargo? – pensou comigo minha vaidade.
Mas lembrei de um erro na apostila percebido por uma aluna atenta e boa de português que me deixou muito envergonhado. Em uma frase à pag. 13 ao invés de escrever “lidar” escrevi “lhe dar”. E aí, já me imaginei na capa da revista Veja com o título: Ministro da Cultura não sabe a diferença entre “Lidar” e “Lhe dar”.
Minha reputação seria destruída…
Fiquei com medo e disse:
– Senhora…
– Não querido, pode me chamar de Senhorita.
– Desculpe, senhorita Marta Tiburcy – repliquei.
– Não querido, meu nome é Marta Suplicy.
– Ah sim. Senhorita Suplicy, creio que não posso aceitar, mas muito obrigado assim mesmo.
– Senhor Jandui, o salário é excelente e o ticket refeição é de R$5.000,00 por mês!
Confesso que fiquei atentado com aquela proposta mas continuei firme me imaginando na capa da Veja com a palavra “Lidar” na frente da foto do novo ministro.
– Que pena, senhor Jandui. Por acaso o senhor não conhece ninguém da sua confiança que poderia aceitar o cargo?
– Senhora, ou melhor, senhorita, conhecer até conheço, mas todos estão empregados, entende?
Pelo empenho demonstrado, fiquei com pena da moça e dei uma ideia para ela:
– A Senhorita já escreveu algum livro?
– É claro: Papai, mamãe e eu – o desenvolvimento sexual da criança de zero a 10 anos! Já leu?
Ixi… Mudei de ideia rápido:
– Vamos fazer o seguinte, então: vou ver se encontro alguém aqui. Afinal, R$5000,00 de vale refeição é um belo atrativo. Semana que vem a senhora me lig…
E desligou na minha cara.
Fui dormir com a palavra “lidar” na cabeça e imaginando como o mundo é estranho: deixei de ser ministro da república por um erro ortográfico cometido há 25 atrás. Vou ter que aprender a lhe dar com esta frustação.
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