19 de junho de 2026

Comentando o discurso de Aécio – 2

José Serra faz uma oposição antiga, que demoniza o adversário e destroi as pontes para o diálogo. Foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que Aécio Neves disse nas entrelinhas de seu discurso. É de Serra – e de sua diferença em relação a Serra – que ele estava falando o tempo todo. A leitura que oferece dos governos FHC e Lula – enfatizando continuidades, dando destaque aos grandes avanços feitos por FHC, mas reconhecendo o êxito das políticas sociais petistas – é um convite ao diálogo civilizado, como já fora, aliás, o discurso de Dilma Rousseff durante a visita de Obama ao Brasil. Suas críticas mais pesadas ao PT concentram-se no passado – sua oposição ao Plano Real, às privatizações, à lei de responsabilidade fiscal. No presente, aponta para ajustes de sintonia fina, e não para uma mudança completa de rumos. É esse o tom que o eleitor espera. Estamos todos fartos de truculência.

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Esse tom conciliador, que é a grande força do discurso de Aécio, é também sua grande fraqueza. Aplainando as diferenças (que foram artificialmente infladas pelos radicalismos de petistas e tucanos), ele não se apresenta como alternativa a nada. Aécio está nos convidando a aderir a um estilo, a uma marca, mais do que a um programa alternativo de governo. “Por que mudar o comando?” – essa é a pergunta que uma campanha presidencial teria que responder. É difícil encontrar no discurso de Aécio qualquer ponto de apoio para a articulação de um programa oposicionista. O discurso da senadora Kátia Abreu, por exemplo, é muito mais claro em relação ao tipo de MUDANÇA que ela representa.

No entanto, isso não tem que constituir uma preocupação agora. As eleições estão longe. Muitas águas vão rolar até lá. Aécio não teria motivos para, neste momento, articular um ataque. Está fazendo os primeiros lances do meio-jogo, consolidando uma posição sustentável, cobrindo as falhas de sua defesa e abrindo espaço para movimentos futuros. O momento é de somar, de criar um discurso no qual pessoas, interesses e correntes muito diversas possam se sentir à vontade. Nisso, ele é mestre. Ao contrário de José Serra, que só convence os convertidos, Aécio consegue provocar simpatia até mesmo nos adversários. Tem muito talento. Vai dar um trabalhão ao PT. 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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