5 de junho de 2026

O poeta analfabeto e a elite tupiniquim falso-letrada

Mouse de 1 milhão de anos e o nosso

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Comentário ao post Sobre o livro Oswaldo Aranha – A Estrela da Revolução.

Alan da Rosa, no programa À Beira da Palavra (*), na entrevista com o cantador e trovador, José Paes Lira (Lirinha), conta a história entre o jornalista do sul e o poeta nordestino Severino Pinto de Monteiro:

O jornalista ao iniciar a entrevista com o poeta Severino Pinto de Monteiro (já com idade centenária), diz:

– Estou aqui com o poeta nordestino Severino Pinto de Monteiro, semi-analfabeto,…

– O poeta interrompe o jornalista e diz: “semi-analfabeto é você, eu sou analfabeto”!.

Esse poeta analfabeto, tem entre sua pérolas de poesias, essa dita por Lirinha:


Essa nossa triste vida

Eu só comparo a um  S

Tem um a hora que sobe,

Tem outra hora que desce,

E a curva que da no meio,

Nem todo mundo do conhece

 

A chaga do poeta nordestino analfabeto, remete-nos a história da oralidade humana, assim como Ulisses de Homero, ele sabia quem era e o que queria, era analfabeto, mas faz poesia com a letra S.

A questão entre o ser analfabeto ou ser alfabetizado, tem uma outra relevância, uma outra dimensão aqui, pois no Brasil temos a elite alfabetizada, mas boa parte ainda é falso letrada.

O pensador que é referência da civilização ocidental, o sapateiro, o guerreiro e o filósofo grego, Sócrates, também era analfabeto, mais que isso, ele era contra a escrita, pois, acreditava que ela iria destruir a cultura da história oral  (Maryanne Wolf: Prost and the Squid, 2007). A novidade da escrita, era para Sócrates, o que é para nós hoje os iPhone e Ipads, e a febre da tecnologia desde que o homem conquistou a lua. Sou cético, a universidade e a ciência não vão nos salvar, pode e devem nos ajudar, a nossa salvação é pela cultura dos povos, oral,   escrita, mitológicas,…. (**)

O livro de Oswaldo Aranha é para ser degustado por uns e digerido por outros, mas olhar, ver e reparar, pode mudar de perspectiva de pessoa para pessoa, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Oswaldo Aranha certamente não era da elite falso-letrado, mas Raymundo Faoro lembra-nos a linha tênue que separava (ainda separa) povo e elite no Brasil, Aranha dizia, “de nós para baixo é povo“.

Ele não era falso-letrado, mas sim da elite derivada da aristocracia do império, que como dizia Joaquim Nabuco (outro não falso letrado), “em mim só o sentimento é brasileiro, a minha imaginação é europeia“, assim como uma outra frase derivada da reflexão também de Joaquim Nabuco, comparando a elite e o povo da Europa com a elite e o povo do Brasil, e sua conclusão virou uma crença na boca e na cultura do povo: “no Brasil, o povo é melhor que sua elite“.

O tempo passa, o tempo voa, mas o patrimonialismo secular tupiniquim, pouco muda, ainda somos uma “elite marginal“, falso-letrada ou não, para citar outro poeta nordestino analfabeto, Patativa do Assaré, na qual no Brasil persiste a separação entre o andar de baixo e o andar de cima, não temos um denominador comum com a história da nação, o “Encontro Marcado” (1956), de Fernando Sabino ainda é sonho e obra de ficção.

A sim sinais no horizonte, vejo o futuro com certo otimismo, temos que acreditar em algo, eu também tenho as minhas crenças, mas “O Brasil nação hoje é a Alemanha de Friedrich List de 1841” (04-04-13).    

Alea jacta est”, quem viver verá!

 

 

(*) Programa da rádio USP e disponível para download no site Edições Toró: À Beira da Palavra.

(**): Matt Ridley: Quando as idéias fazem sexo

FILMED JUL 2010 • POSTED JUL 2010 • TEDGlobal 2010

No TEDGlobal 2010, o autor Matt Ridley mostra como, através da história, o motor do progresso humano tem sido o encontro e acasalamento de idéias para criar novas idéias. Não é importante quão inteligentes os indivíduos são, ele diz; o que realmente importa é quão esperto é o cérebro coletivo.

http://www.ted.com/talks/matt_ridley_when_ideas_have_sex.html

Foto: Mouse de 1 milhão de anos e o nosso hoje

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. Oswaldo Conti-Bosso

    19 de outubro de 2013 2:41 pm

    Re: O poeta analfabeto e a elite tupiniquim falso-letrada

     

     Prezados geonautas, as atualizações dos comentários do blog do Nassif, pelo visto não estão ainda atualizados, achei um por acaso numa busca sobre o meu post de junho, elevado a post no blog do Nassif.

    Sds, 

    http://advivo.com.br/comentario/re-o-poeta-analfabeto-e-a-elite-tupiniquim-falso-letrada-0Posts recentes Vídeos do Blog  

    Re: O poeta analfabeto e a elite tupiniquim falso-letrada

    imagem de Jose de Almeida BispoRe: O poeta analfabeto e a elite tupiniquim falso-letradadom, 02/06/2013 – 20:41Jose de Almeida Bispo

    É inquestionável, sob qualquer ótica, que a intelectualização nos dá chances de anos-luz de diferença entre o letrado e o analfabeto. Chances; não se trata de condicionante pétrea. A maioria das pessoas que conheço que muito leram desaprenderam ou nunca aprenderam a realmente pensar. São os seres mais perigosos que há, porque, em geral detentores de estratégicos posicionamentos na sociedade, são capazes de acharem justificativas pra tocarem fogo no mundo se a “bíblia” que segue assim o sugerir, ou quem a hipoteticamente interprete. Não foram analfabetos que queimaram livros na Alemanha nazista; foram os letrados. E, onde se queima livros, logo, logo se queimarão pessoas bem o disse profeticamente o poeta judaico alemão, Heine.

    A questão do superdimensionamento da intelectualização no Brasil é por conta do velho ranço do sinecurismo; o mundo dos eleitos, onde, estes se diferenciavam e ainda se diferenciam pelos diplomas – e não pelo conhecimento – que os habilitam a pegar os melhores empregos, mesmo que depois nada produzam. Uma espécie de “destino manifesto”; uma nova nobreza, como toda nobreza, parasitária. Os arcontes. Aí nos enchemos de faculdades a emitir diplomas enquanto a pauperidade em cientistas é vergonhosa.

     

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