4 de junho de 2026

Hoje o samba saiu

Taxista carioca tem má fama não é de hoje. A última moda no Rio de Janeiro agora é, terminada a corrida, o taxista ignorar o taxímetro e perguntar: “Posso tirar quanto?” A vontade é responder: “Ora, quanto está marcado no taxímetro!” No Rio é assim. Você pega um táxi no início da Avenida Atlântica e diz que quer ir até o final dela e o taxista vai sempre perguntar: “Que caminho o senhor quer fazer?”

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Marquinhos do Pandeiro, da Velha Guarda da Portela. Foto: Arquivo Pessoal

Marquinhos do Pandeiro, da Velha Guarda da Portela. Foto: Arquivo Pessoal

Mas nem tudo está perdido. Outro dia entrei num táxi na Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, e assim que me acomodei no banco de trás, o motorista virou e se apresentou: “Muito prazer, meu nome é Marquinhos! Em que posso servir-lhe?”

Marquinhos vestia azul dos pés à cabeça. Com uma voz de locutor de rádio, foi logo puxando papo. “O senhor trabalha na área da saúde?” Não sei por que ele me achou com cara de funcionário da área de saúde. Quando disse que era jornalista, Marquinhos se sentiu em casa.

– Então o senhor deve me conhecer.

E se apresentou de corpo e alma.

– Sou o Marquinhos do Pandeiro, da Velha Guarda da Portela.

E era mesmo. Quando cheguei ao aeroporto a primeira coisa que fiz foi dar um Google e lá estava ele com 829 citações.

Durante o trajeto, Marquinhos contou um pouco da sua vida. Contou histórias de pelo menos uma dezena de bambas do samba. De Paulinho da Viola a Silas de Oliveira, de Geraldo Pereira a Cartola, de Sinhô a Donga, de Elton Medeiros a Ismael Silva.

Marquinhos do Pandeiro rasgou elogios a Marisa Monte e sua luta para preservar a memória da Velha Guarda da Portela. Contou que ela anda sem tempo ultimamente, cuidando da pequena Helena. Ele prometeu fazer uma cópia de um disco gravado pelos craques da Portela em 1966 e deixar na portaria do hotel. Colocou o vinil que virou cd no som do seu carro e começou a aula.

– Esse que está ouvindo é o Paulinho, ainda menino.

– Agora é o Elton!

– Casquinha.

– Sete Cordas.

– Agora entrou o Jair do Pandeiro.

E contou mais. Disse que na última viagem que fez a Brasília compôs uma música com Monarco, ainda inédita. “Não sei quem vai gravá-la, se Roberta Sá ou Tereza Cristina, quem sabe?” Ele abriu o porta-luvas e tirou lá de dentro um cd com a capinha inteiramente branca e colocou pra tocar quando já estávamos chegando no Aterro do Flamengo, altura do MAM. “Chama-se A Grande Conquista”, disse ele. Linda música.

De repente o aeroporto Santos Dumont chegou e eu tive que me despedir de Marquinhos do Pandeiro. Sai com a certeza de ter ganho o dia, uma dia que estava apenas começando. Sai com a certeza de ter conhecido um daqueles tipos inesquecíveis. O resto é passageiro.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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