
Morávamos então numa casa apertadinha, pequenina mesmo, numa rua que fazia fundos com um imenso terreno baldio. Além deste, que podia ser acessado por uma ruela de terra rua abaixo, havia uma picada larga que margeava o córrego e levava à uma pinguela que dava no campo da Ponte Preta. Era lá a criançada osasquence se esbaldava nos anos 1970, desde que os adultos não estivessem jogando.
Naquele tempo o córrego não era canalizado e margeado por duas avenidas pavimentadas. Ao fundo do campo, em direção a Av. Autonomista, havia um imenso matagal que era cortado por uma picada estreita. Através dela era possível chegar à pilha de lixo industrial da Osran. Era lá que a molecada conseguia pedaços de lampadas para fazer cortante. O vidro incolor e fino era fácil de moer e seu pó cristalino, misturado com caldo fervendo de cola de madeira, foi a única arma que conheci na infância. Os adultos tinham outras armas. As mesmas que ainda tem, suponho.
Certo dia, no finalzinho da tarde, estiquei linha em zigue-e-zague na minúscula lage do quintal para passar cortante. Então, ouvi, um zum-zum-zum do outro lado do córrego. Parei o que estava fazendo, encolhi ao lado do muro e fiquei espiando o que ocorria. Minha visão era privilegiada, pois estava dois metros acima do nível do chão e à uns 80 metros da picada de onde vinha o barulho. O dia findava, mas a escuridão ainda não era grande.
Acima do mato alto vi apenas o tronco de três adultos vestidos de maneira igual. Antes de chegar no lixão da Osran, eles entram no mato. Notei então que eles estavam arrastando alguém que implorava, choramingava e ia sendo chutado para ficar calado. Alguns metros dentro do mato a tropa fez alto. Escutei vários estampidos, os assassinos olharam em volta para se certificar de ninguém os havia visto e se retiraram calmamente do local fechando o mato atras de si até chegar na picada. Coração na boca, fiquei uma eternidade instantânea escondido atraz do muro. Será que fui visto, será que não fui…
No dia seguinte, já no campo da Ponte Preta empinando pipa, comentei com meus amigos o que havia visto. Alguns disseram que tinham ouvido os tiros. Outros nem mesmo se interessaram pela novidade. Isto era comum em Osasco. Vamos ver o morto, não vamos ver morto. Não fomos. Deve ter policial de folga vigiando. Alguns dias depois, com dois amigos, fui inspecionar o local. O corpo já havia sido retirado de lá, mas eu queria me certificar de que não poderia ter sido visto vendo o incidente. Paranóia de moleque amedrontado, entendem?
Em Osasco, a morte continua pedindo passagem. Todavia, evoluímos muito tecnologicamente e involuímos um pouco humanitariamente. Agora os moleques osasquences (e das outras cidades brasileiras também) não precisam mais se esconder para ver os esquadrões da morte em ação. Eles estão na televisão e imitam a Tropa de Elite, filme que fez sucesso nos cinemas locais em 2007 e que pode ser comprado por 3 reais nos revendedores de CDs piratas nas periferias da cidade.
A ousadia dos pistoleiros continua a mesma, mas a performance deles mudou um pouco. Os policiais que vi em ação na década de 1970 não usavam máscaras. Eles não tinham razões para temer testemunhas. Eu mesmo nunca testemunhei o que vi para um adulto. Durante a Ditadura até mesmo a morte virava brincadeira infantil. A infantilidade do novo esquadrão da morte osasquence é evidente. As máscaras nos rostos dos pistoleiros não conseguiram esconder as condutas típicas de homens treinados registradas em vídeo. Eles suspeitavam que estavam sendo filmados ou a existência das câmeras era um requisito essencial ao espetáculo macabro que eles deram? Osasco tem milhares de bares, a maioria deles tem TVs. Equipamentos de gravação apenas alguns tem.
Impossível não suspeitar de alguma intenção política obscura. O incidente ocorreu alguns dias antes das passeatas marcadas para domingo contra o governo petista. Entre os que querem derrubar Dilma Rousseff estão os pistoleiros aposentados que agiam impunemente na década de 1970. O terrorismo político-policial voltou ao seu berço no dia 13 de agosto (número eleitoral do PT) para se espalhar pelo Brasil em 16 de agosto?
Se eu fosse cabalista somaria 13 a 16 para encontrar correlações relevantes. 29 é o número de semanas de gestação, tempo suficiente para a violência parir um novo regime (a extrema direita passou a acreditar que Karl Marx estava certo, que a violência é a parteira da história e que um novo regime precisa de 9 meses de gestação?). 29 de agosto de 1993, dia da chacina de Vigário Geral (os pistoleiros comemoraram uma chacina com outra?). 29 número do Partido Pátria Livre (o PPL, de esquerda, é mais odiado pela direita do que o PT?). 29, 290, 2.900, 29.000 ou 290.000, 2.900.000, 29.000.000, quantos brasileiros os pistoleiros estão dispostos a matar para derrubar Dilma Rousseff? E o governo federal, ficará se fazendo de morto enquanto as autoridades paulistas deixam as serpentes crescer e fazer vítimas inocentes?
Quando eu era criança me encolhi de medo ao ver um esquadrão da morte agir. Os pistoleiros do dia 13 são infantis o bastante para querer amedrontar 200 milhões de brasileiros a fim de construir uma nova Ditadura? Ou será que eles é que estão com medo de uma Democracia que não conseguem mais controlar, arrastar para o mato e assassinar impunemente?
Jair Orichio
15 de agosto de 2015 7:01 pmPPL, de Esquerda?
Meu camarada, você deve ter fumado um preto legal…. No dia que o PPL for de esquerda, Fidel Castro é presidente do DEM.
O PPL apoiou o Aecio neves no Segundo Turno.
Apoiou o Traíra Gorda do Agreste no Primeiro Turno…..
Me ajude ai…..
Fábio de Oliveira Ribeiro
15 de agosto de 2015 8:28 pmCronistas de direita dizem
Cronistas de direita dizem que o referido partido é de esquerda:
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/patria-livre-como-cuba/
Critique-os. Ou será que você veio aqui apenas para me atacar em defesa dos seus amigos pistoleiros de direita?
Nira
16 de agosto de 2015 1:06 amAgora encafifei. Quem era o
Agora encafifei. Quem era o Traíra gorda do agreste no primeiro turno ?
Fábio de Oliveira Ribeiro
15 de agosto de 2015 8:34 pmEis aqui uma leitura
Eis aqui uma leitura obrigatoria para entender o que ocorreu em Osasco num passado recente e distante:
http://sibila.com.br/cultura/o-esquadrao-da-morte-no-rio-e-em-sao-paulo/10643
Fábio de Oliveira Ribeiro
15 de agosto de 2015 8:52 pmUm amigo meu lembrou algo
Um amigo meu lembrou algo importante no Facebook. Em SP, como ocorreu no passado, o comandante em chefe da PM estimula a pistolagem criminosa, mas na periferia. Nos bairros nobres chacinas são proibidas. Tabu garantido por uma promessa de imediata vingança.
https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2012/09/16/alckmin-policia/
Pedro Mundim
15 de agosto de 2015 9:02 pmNão é a mesma coisa
O antigo Esquadrão da Morte executava sumariamente bandidos com o propósito de combater o crime. Os atuais grupos de extermínios estão vinculados a quadrilhas de traficantes ou milícias, e matam conforme as disputas e os ajustes de contas entre essas quadrilhas para as quais os policiais matadores trabalham. Não existe mais o propósito de combater o crime.
Sem dúvida que a forma de agir do antigo esquadrão da morte foi inspirada pela ditadura. Mas a forma de agir dos atuais grupos de extermínio não tem qualquer conotação política. Insistir nisso é uma obsessão dos esquerdistas pós-queda do muro em dar uma leitura de luta de classes ao fenômeno do banditismo. Explica-se: abandonados pelos trabalhadores, que aderiram ao capitalismo, eles sonham que os marginais das periferias vão fazer a revolução que os trabalhadores não quiseram fazer.
Mas como você mesmo comentou, o trabalhador mesmo está mas é comprando DVD pirata do Tropa de Elite por 3 reais. Não é segredo que esse filme fez tanto sucesso nas periferias porque o povão estava seco para ver a bandidagem entrando no cacete. Sempre esteve. Nunca presenciei uma cena como essa que você descreveu. Mas de uma cena, aliás de duas – uma antiga e outra recente – eu me lembro bem.
O episódio antigo foi quando eu estava em um ônibus voltando do colégio. Estava tudo silencioso quando de repente eu escutei uma mulher mulata e gorda gritando: ladrão! Sem-vergonha! Junto a porta eu vi um moleque apanhando de uns homens, a maioria negros como o moleque. A porta se abriu e ele continuou apanhando na rua. O ônibus seguiu viagem.
A cena recente foi essa semana mesmo. Eu estava andando na rua da Carioca quando escutei: paga ladrão! Vi dois ou três moleques correndo pelo meio da rua. Um homem interpôs-se e trombou com um deles, mas o garoto conseguiu fugir. Um instante depois ele comentava com transeuntes, orgulhoso: quase consegui!
A cor do homem? Preta, como a dos moleques.
Fábio de Oliveira Ribeiro
16 de agosto de 2015 10:50 amHomicídio é e sempre foi
Homicídio é e sempre foi crime. Quem tem o dever de julgar é e sempre foi Judiciário, não o pistoleiro.
A sede de sangue do povo é uma desculpa esfarrapada. Se o povo quisesse matar você ou seus amigos você certamente diria que o povo está errado.
Pistoleiros matam porque que gostam de matar, não porque estão fazendo um trabalho socialmente relevante e desejado. Quem apoia pistoleiros certamente não os apoiaria se eles começassem a matar militares criminosos (na Ditadura) ou tucanos corruptos (na Democracia).
Os esquadrões da morte sempre fizeram uma distinção política entre os “bandidos” que podiam ser mortos (pobres, pretos e favelados) e aqueles que deveriam ser preservados (bandidos ricos, brancos e bem nascidos).
A “função social” de um esquadrão da morte é sempre a mesma: aterrorizar a população miserável, mantê-la sob controle e quieta na periferia. Reivindicações políticas são intepretadas como indício de bandidagem. E por isto os “esquadrões da morte” não matavam apenas bandidos, matavam também aqueles que eram considerados inimigos do regime que permitia a existência de “esquadrões da morte”. E também matavam pessoas que ousavam desafiar idiotas como você que apoiavam pistoleiros criminosos.
Sua sede de sangue e seu apoio manifesto ao crime de pistolagem, durante e depois da Ditadura, diz muito sobre você.