Ontem, dia 16 de maio, a imprensa noticiou mais um caso de trabalho escravo em São Paulo. Desta vez foram, foram libertados seis trabalhadores bolivianos – cinco homens e uma mulher – produzindo peças para a griffe M.Officer e trabalhando em condições degradantes e em jornadas exaustivas numa oficina da Vila Santa Inês, no extremo leste de São Paulo. É a segunda vez que a grife vê-se envolvida em denúncias de trabalho escravo. Da primeira vez, em novembro do ano passado, a justiça chegou a decretar, a pedido do Ministério Público do Trabalho, o bloqueio dos bens da empresa para garantir o pagamento das indenizações. A empresa, no entanto, conseguiu reverter a decisão na justiça.
A primeira vez que tive contato com trabalho escravo foi em 1980, em São Luis do Maranhão. Na ocasião eu trabalhava para uma multinacional que construía uma fábrica de alumínio na cidade. Ainda estávamos nos aclimatando na cidade e a minha mulher Eva, uma argentina “sangre caliente”, foi convidada para um chá de boas vindas organizado por um grupo de senhoras da sociedade maranhense. A Eva voltou para casa horrorizada, disposta a fazer as malas e voltar para Buenos Aires imediatamente. Segundo ela, as senhoras maranhenses estavam estarrecidas com o comportamento dos recém-chegados à cidade, ainda não afeitos aos hábitos locais. Nós estávamos pagando salários às empregadas domésticas e – mais do que isso – chegávamos a assinar as carteiras de trabalhos como se fossem empregadas do comércio. Enfim, estávamos dando um péssimo exemplo para as empregadas domésticas locais.
Naquela mesma semana, no sábado, fomos convidados para um almoço na casa de um médico local, nosso vizinho na praia do Olho D`Água, Dr. Estrela, se não me falha a memória. Lá pude ver com meus próprios olhos o que a Eva me contara. O Dr. Estrela tinha pelo menos uns 10 serviçais em sua bela casa. Segundo ele, eram todos agregados, “crias da casa”. Tinham moradia – na verdade, um galpão com ganchos para redes – comida e duas mudas de roupa. Não recebiam nenhuma remuneração e ninguém sabia ler e escrever porque, afinal, por que precisariam desse luxo. Dr. Estrela os tratava como se fossem sua “propriedade” e ele decidia o que era melhor pra cada um.
Depois disso, nunca mais me deparei com situações de trabalho escravo até que, em 1977 fui trabalhar numa consultoria voltada a garantir o cumprimento dos direitos fundamentais no ambiente de trabalho. Nossa consultoria era, na verdade, contratada por grandes corporações para garantir que os chamados direitos fundamentais do trabalhador, no formato definido pela Organização Internacional do Trabalho, estavam sendo observados em todas suas operações. O trabalho forçado ou escravo, de acordo co os conceitos estabelecidos através pela OIT através das convenções 29 e 105 é aquele feito sob qualquer forma de ameaça ou coação e para o qual o trabalhador não se apresentou espontaneamente. Ao subscrever essas convenções, os países obrigam-se a cumpri-las integralmente e passam a ter força de lei.
Na consultoria então tomei conhecimento que o trabalho escravo ou forçado ainda era uma prática cada vez mais corriqueira no Brasil. Inicialmente, restringia-se à zona rural: levas de trabalhadores eram transportados em “paus-de-arara” em épocas de colheita e viviam literalmente como animais, improvisando cabanas sem um mínimo de higiene, comprando mantimentos no armazém da fazenda a preços exorbitantes. Suas compras eram registradas em uma caderneta que, por mais que trabalhassem, nunca conseguiam zerar. E eram permanentemente vigiados por guardas armados que impediam que eles fugissem sem resgatar suas dívidas.
O Ministério do Trabalho e a Secretaria de Direitos Humanos criaram uma “lista suja da escravidão” onde foram arrolados todos os empregadores flagrados com empregados vivendo em situação similar à de escravos. Os bancos oficiais e um grupo de empresas signatárias de um Pacto Nacional para erradicação do Trabalho Escravo estavam impedidos de negociar com os empresários da “lista suja”. A Senadora Katia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária – e ela própria envolvida com trabalho escravo – entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade da “Lista Suja” no STF. A ministra Carmen Lúcia é a relatora da ação e está sob severa observação dos organismos sociais envolvidos na erradicação do trabalho escravo no país.
Do campo, o trabalho escravo migrou – ou contaminou – a cidade e vira e mexe vemos, nos noticiários, a Polícia Federal libertando trabalhadores escravos, normalmente em oficinas de costuras na Mooca, no Brás ou em cidades do interior de São Paulo. São famílias inteiras de bolivianos, sobretudo, atraídos pela promessa de ganhos financeiros compensadores e que, uma vez aqui, são submetidos a condições desumanas de trabalho, geralmente em oficinas de costura, que não podem denunciar por estarem ilegais no país.
São inúmeras as formas contemporâneas de escravidão. Na região de Londrina, no interior do Paraná, condomínios de luxo eram permanentemente abastecidos por uma agência de “diaristas” paraguaias que viviam em um sítio da região em condições análogas à da escravidão, até serem libertadas pelo Ministério do Trabalho. O eu dizer das jovens que são aliciadas para trabalharem como modelo ou garçonetes e acabam integrando redes de prostituição na Europa.
No caso das confecções clandestinas, as roupas costuradas nessas condições abastecem o mercado de confecções de forma geral e, frequentemente, grifes conhecidas como a M.Officer e a Zara ou grande revendedores, como a C&A e as Lojas Marisa. Todas já foram envolvidas e denunciadas. Nenhuma delas foi penalizada pois estão amparadas por um contrato comercial que foi terceirizado ou quarteirizado. O entendimento o Ministério Público que também é o da OIT e de diversos outros países, grifes e lojas devem garantir que não exista trabalho escravo em nenhum ponto da cadeia de produção, sob pena de se tornarem cúmplices.
Se não for assim, estaremos utilizando a lógica do histórico traficante Francisco Escobar: enquanto o cidadão norte-americano consumir cocaína, sempre haverá quem o abasteça.
Caiubi Miranda
jns
18 de maio de 2014 2:03 amEx-escravo conta sua história
Em novembro de 2003, terminou com um acordo histórico o processo de José Pereira Ferreira, o peão que foi baleado e quase morto por fugir de uma fazenda no Pará, onde trabalhava como escravo.
O caso do ex-escravo foi denunciado por organizações não governamentais e pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil) à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA).
No decorrer do processo, em 1995, o Brasil reconheceu pela primeira vez sua responsabilidade pela existência de trabalho escravo no país e se comprometeu a julgar e punir os responsáveis e a adotar medidas para prevenir outros casos.
Nascido em São Miguel do Araguaia (GO), Zé Pereira foi para o Pará aos 8 anos, na companhia do pai, que também trabalhava em fazendas.
Ele chegou à Fazenda Espírito Santo, em Sapucaia, no Pará, onde trabalhou em condições semelhantes às de escravidão. Em setembro de 1989, com 17 anos, fugiu dos maus-tratos e caiu em uma emboscada preparada pelo “gato” e outros três funcionários da fazenda, que lhe deram um tiro na cabeça pelas costas.
Sangrando, Pereira fingiu-se de morto e foi jogado em uma fazenda vizinha junto com seu companheiro de fuga, o Paraná, morto na mesma emboscada pelos jagunços. Atingido em um dos olhos, caminhou até a sede da propriedade e pediu socorro. Em Belém, capital do estado, o ex-escravo denunciou as condições de trabalho na fazenda à Polícia Federal. Sem resposta efetiva das autoridades, levou o caso às ONGs, que decidiram apresentar a denúncia à OEA.
No acordo que pôs fim ao processo, o Brasil também prometeu reparar financeiramente os danos causados a Zé Pereira, que, 14 anos depois de fugir, recebeu a primeira indenização paga pelo Estado brasileiro a um cidadão por ter trabalhado em regime de escravidão, no valor de R$ 52 mil. A indenização foi aprovada pelo Congresso (no Senado, PLC 23/03).
http://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/trabalho-escravo/casos-atuais-de-escravidao/ex-escravo-conta-sua-historia.aspx
jns
18 de maio de 2014 2:20 amPara o meu velho mestre
As confissões de um ex-escravo
A resposta ao convite para voltar a trabalhar para o ex-dono.
Em agosto de 1865, o coronel PH Anderson, de Big Spring, no Tennessee, escreveu para o seu ex-escravo, Jourdon Anderson, e pediu que ele voltasse a trabalhar em sua fazenda.
Jourdon, que passou a ser remunerado pelo seu trabalho em Ohio desde a emancipação, respondeu espetacularmente por meio de uma carta que, de acordo com jornais da época, foi ditada por ele.
Um grupo de escravos fugidos na Virgínia em 1862 – Imagem: Library of Congress
Dayton, Ohio,
7 agosto de 1865
Para o meu velho mestre,
Coronel PH Anderson, Big Spring, Tennessee
Sir:
Recebi a sua carta, e fiquei feliz ao descobrir que você não tinha esquecido do Jourdon e que você queria que eu voltasse a viver com você de novo, prometendo fazer o melhor para mim, mais do que qualquer outra pessoa poderia.
Muitas vezes me senti desconfortável com você.
Pensei que os Yankees o teriam pendurado há muito tempo antes disso, por abrigar os Rebs que eles encontraram em sua casa.
Suponho que o coronel Martin nunca tenha ouvido falar sobre o seu concurso para matar o soldado da União que foi deixado pela sua companhia no seu estábulo.
Embora você tenha atirado em mim duas vezes, antes de que eu saísse, eu não queria falar de dor para você: estou feliz que você ainda esteja vivo.
Iria me fazer bem voltar à esta querida e antiga casa de novo e ver Miss Mary, Miss Martha, Allen, Esther, Green e Lee.
Queria dar o meu amor a todos eles e dizer-lhes que eu espero que se reúnam em um mundo melhor, se não for neste.
Eu quase voltei para ver todos vocês, quando estive trabalhando no Hospital Nashville, mas um dos vizinhos disse-me que Henry pretendia atirar em mim se ele tivesse outra chance.
Eu gostaria, particularmente, de saber qual é a grande oportunidade que você propõe para me dar.
Estou vivendo razoavelmente bem aqui.
Recebo vinte e cinco dólares por mês, mais alimentação e roupas.
Tenho uma casa confortável para Mandy- as pessoas chamam-na de Sra. Anderson – e os filhos (Milly, Jane e Grundy) vão à escola e estão aprendendo a ler.
O professor diz que Grundy tem vocação para ser um orador.
Eles vão para a escola dominical e Mandy frequenta a igreja regularmente.
Somos bem tratados.
Às vezes, ouço os outros, dizendo: “Aquelas pessoas de cor eram escravas no Tennessee”.
As crianças sentem-se magoadas quando ouvem tais observações; mas eu comento que não era uma desgraça pertencer ao Coronel Anderson, no Tennessee.
Muitos darkeys teriam ficado orgulhosos, como eu costumava ser, ao chamá-lo de Mestre.
Agora, se você vai escrever e dizer qual o salário que você vai me dar, eu serei capaz de decidir se é vantagem voltar novamente.
Quanto à minha liberdade, que você diz que eu posso ter, não há nada a ser ganho a esse respeito, como eu tenho observado, desde 1864, pelos jornais do Reitor e Marechal do Departamento Geral de Nashville.
Mandy diz que ela teria medo de voltar sem alguma prova de que estavam dispostos a nos tratar com justiça e bondade; e concluímos, para testar sua sinceridade, que pediríamos para enviar a informação sobre os nossos salários que não forma pagos no tempo que servimos.
Isso vai nos fazer esquecer e perdoar as mágoas antigas e confiar na sua justiça e amizade no futuro.
Eu servi, fielmente, durante 32 anos e Mandy vinte anos.
Por vinte e cinco dólares por mês, para mim, e dois dólares por semana para Mandy, nossa economia seria equivalente a 11.680 dólares.
Adicione a isso o agravante pelo tempo que nossos salários foram congelados e deduza o que você pagou para o nosso vestuário, incluindo as visitas de três médicos para mim e a extração de um dente de Mandy – o saldo vai mostrar o que nós temos direito por justiça.
Por favor, envie o dinheiro pela Adams’s Express, aos cuidados de V. Winters, Esq., Dayton, Ohio.
Se você deixar de nos pagar pelos trabalhos fiéis no passado, podemos ter pouca fé em suas promessas para o futuro.
Nós confiamos que o bom Criador abriu os olhos para as coisas erradas que você e seus pais fizeram para mim e meus pais, em fazer-nos trabalhar para você e a sua família sem nenhuma recompensa.
Aquí, eu retiro o meu salário todo sábado à noite, mas no Tennessee, mais do que para os cavalos e vacas, nunca houve pagamento para qualquer negro em qualquer dia.
Certamente haverá um dia do julgamento para aqueles que defraudam o salário do seu trabalhador.
Na resposta a esta carta, por favor indique se haveria qualquer segurança para as minhas Milly e Jane, que agora estão crescidas, e ambas são garotas bonitas.
Você sabe como foi com Má Matilda e Catherine.
Eu prefiro ficar aqui, passar fome e morrer, do que chegar a esse ponto de ter as minhas meninas envergonhadas pela violência e a maldade de seus jovens mestres.
Você também vai indicar se há alguma escola aberta para as crianças de cor em sua vizinhança.
O grande desejo da minha vida, agora, é dar aos meus filhos uma educação e tê-los formados com hábitos virtuosos.
Diga Olá para George Carter e agradeça por ter tomado a pistola de você quando você estava atirando em mim.
Da seu velho criado,
Jourdon Anderson.
Fonte: The Freedmen’s Book
A trancrição da carta de Jourdon foi publicada pelo New York Daily Tribune, no dia 22 de agosto de 1865.
Fonte: http://farm8.staticflickr.com/7035/6790780585_466117fe88_o.jpg
Esta carta circula na Net e provoca reações de espanto de errantes navegantes em todos os cantos da Terra.
James
18 de maio de 2014 6:43 amTrabalho escravo na OIT “é
Trabalho escravo na OIT “é aquele feito sob qualquer forma de ameaça ou coação e para o qual o trabalhador não se apresentou espontaneamente.”
Mas parece que o Brasil inovou, inventando o “trabalho análogo à escravidão” e inseriu condições degradantes, jornada excessiva, ao conceito internacional da OIT. Novamente caímos naquela cantinela de sempre: o Brasil está certo e o mundo está errado.
A justiça do Brasil prima pelo: já que não tem tú, vai tu mesmo, procurando sempre encontrar alguém, culpado ou não, para pagar o pato. Todos aqui chegaram ás lagrimas com a condenação de Dirceu, genoíno, etc, caíram vítimas dessa ignonímia verde amarela, vermelha e branca, mas ninguém dá a mínima quando essa mesma máquina do “procurem alguém pra pagar o pato” atinge um comerciante, microempresário, produtor rural, pessoas que trabalham.
Não concordo com condições aviltantes, nem excesso de jornada, mas vamos dar os nomes certos e punir de acordo com o que merecem. É extremamente errado equiparar um dono de confecção cujos funcionários cumprem jornada excessiva, mas tem plena liberdade de “pedir a conta e sair sem ser admoestado” do que uma pessoa que mantem “empregados mediante coação ou ameaça.
Essa até pode ser a escravidão do século 21, mas não dá pra comparar com a escravidão dos séculos passados. Pelo bem da verdade e da justiça, o brasil tem de se adequar ao acordado na OIT e parar de inovar, tratando jornada excessiva e condições degradantes sob a mesma tipificação e pena de manter alguém á força e sob ameaça trabalhando.