5 de junho de 2026

Dinheiro e a vida social no capitalismo das Big Techs, por Nathan Caixeta

Enquanto escasseiam as subjetividades a serem destruídas, formas admitidas de vida social se afunilam entre possuidores e despossuídos.
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Dinheiro e a vida social no capitalismo das Big Techs

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por Nathan Caixeta

O tema que trago ao gentil leitor é tão árido, quanto contemporâneo. O interesse por ele é crescente entre intelectuais, jornalistas, homens de negócios e, porque não entre os cidadãos que não habitam estes ambientes.

O motivo é simples. É raro e cada vez mais raro, alguém que permaneça um dia sequer sem a presença de dois elementos em seu cotidiano: o dinheiro, como meio de existência social, e as formas digitais de socialização, trabalho e consumo.

Dos raros e felizes que não estão submetidos a estas formas, talvez apenas uma parcela mínima tenha nascido depois da virada do milênio. Destes últimos, aqueles que nasceram já com a presença ainda na infância de Smartphones, Redes Sociais, consumo digital, etc., já não escapam deste cotidiano. São filhos do mundo governado pelas Big techs.

A sociabilidade digital, ensina a competente Shoshana Zuboff, é marcada pelo desaparecimento das formas coletivas e verdadeiramente sociais de realização da autonomia individual. Restam o eu e sua contraparte espelhada em uma tela. Ao mesmo tempo, o fluxo informacional e monetário ao qual estamos submetidos, provoca este individuo à socialização concreta, isto é, provoca o eu a conectar-se com o outro. É neste movimento de retração e atração do eu em relação à sociabilidade concreta que se remodelam todos os espaços e mecanismos da vida social e individual. Zuboff explica:

“O novo senso de soberania psicológica irrompeu pelo mundo muito antes de a internet aparecer para intensificar suas reivindicações. Nós aprendemos por meio de tentativa e erro como costurar nossa vida para mantê-la unida. Nada é de graça. Tudo precisa ser revisto, renegociado e reconstruído em termos que façam sentido para nós: família, religião, sexo, gênero, moralidade, casamento, comunidade, amor, natureza, relações sociais, participação política, carreira, alimentação…”

Invocados a tomar o papel principal nas relações sociais, os egos digitais reivindicam os poderes do individualismo competitivo: “eu faço, eu sou, eu apareço, eu quero, eu mando, eu me frusto, eu venço, eu me destruo”. O mundo já separado entre vencedores e perdedores recepcionou os meios digitais como forma de realizar seus desígnios de selecionar objetivamente competidores.

Neste game cotidiano pela autossatisfação e pelo sentimento de vitória em relação ao outro, os indivíduos perderam a fina camada que ainda os protegia dos feitiços da mercadoria e do dinheiro.

Karl Marx, que desconfiava dos solenes apetrechos explicativos da Economia Política, verificou que o processo de alienação movido pelo dinheiro e suas formas de aparecer reitera a todo momento o confronto entre a possibilidade da autonomia e os mecanismos de subordinação do sujeito social às estruturas da troca, do trabalho e do valor. John Maynard Keynes chamou isso de Amor ao Dinheiro.

Este poder inevitável do dinheiro sobre o sujeito ávido por autonomia se fazia sentir no esguio movimento de concretização das formas sociais dominadas pelo dinheiro. A troca, o trabalho, os valores necessitavam, cedo ou tarde, da explicitação de sua existência social.

Os avanços do ser social para o interior das formas modernas de vida permitiu à realização da Filosofia do Dinheiro, de George Simmel: o impulso ao poder de equalização do dinheiro na destruição das subjetividades e à diferenciação das possibilidades de vida concreta através objetividade do dinheiro.

Na medida que escasseiam as subjetividades a serem destruídas, as formas objetivamente admitidas de vida social se afunilam entre possuidores e despossuídos. Não por acaso, os últimos são os primeiros a acusar o golpe.

É inevitável, neste momento, a pergunta: objetivamente fracassados e impedidos da construção de subjetividades concretas, para que servem os despossuídos?

A aposta na mesa dos endinheirados é que caminham céleres para a revolta, para a aglutinação de suas frustrações em alternativas bárbaras de sobrevivência, como o fascismo. Esta é a parte visível, apresentada nos palanques dos Trump’s, Bolsonaro’s e Millei’s.

Recuando nos decibéis da animosidade, verificamos o avanço silencioso do microfascismo. Solitário e ativo, privado, mas exibido a todo momento nas redes, o microfascismo corre pelos meios digitais distribuindo poderes ao eu que Jeff Bezos, Elon Musk e Zuckerberg imaginam ter criado: este eu com meios ilimitados de liberdade de escolha e que é proprietário de uma razão particular despejada em bigdatas, inteligências artificiais e redes (anti)sociais.

No interior das mídias dirigidas pelas Bigtechs, a liberdade de escolha converte-se no impulso pela necessidade de ser notado, curtido, comentado, consumido. A razão particular deste eu cada vez mais genérico é constituída pela obrigação competitiva. Não por menos, posts, likes e exposição da privacidade se multiplicam na caça permanente por qualificativos que forneçam doses recorrentes de satisfação.

Na outra ponta, onde o microfascismo debruça suas oferendas, as informações ofertadas pelo livre proprietário de si mesmo alimentam a valorização da riqueza detida pelos proprietários legais destas informações, os barões da Bigtech.

Nos mercados de riqueza, onde estes senhores e senhoras repousam suas modestas fortunas, não se vende o passado, mas o futuro, ou a capacidade de aprimoramento das formas de extração e geração de informações com a meritória recompensa de doses mais velozes de satisfação aos seus consumidores/colaboradores.

Paradoxalmente, a valorização da riqueza depende do consumo do passado, da extração de valores já existentes, assim como permitem as práticas correntes de fusões e aquisições, recompra de ações e aportes dos pesados caixas de empresas e fundos nos malfalados títulos de dívida dos Estados Nacionais.

Sob a ótica social, a sobrevivência se tornou proibitiva. Ela exige demais, desgasta demais, para doses de recompensa disputadas segundo a segundo pela multidão de egos digitais. As barreiras à saída do mercado de likes, views, posts, cresce na proporção das possibilidades recreativas ofertadas pelas Big e mini techs. O indivíduo enclausurado neste casulo feito sob medida, envia sinais de aconchego, enquanto se prepara para ser despejado.

Nathan Caixeta, pós-graduando em desenvolvimento econômico no IE/UNICAMP e pesquisador do núcleo de estudos de conjuntura da FACAMP (NEC-FACAMP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    9 de junho de 2025 3:15 pm

    O dinheiro deveria ser limado dessa equação, uma vez que é meramente um símbolo, independente da forma que já tenha tido, e que ainda tenha, enquanto tal; este símbolo já foi devidamente subsumido pelo outro fator da equação proposta pelo autor, as tais as formas digitais de socialização, trabalho e consumo. Da última vez que li algo sobre o assunto, não lembro onde, o dinheiro físico (papel ou moeda) em circulação nos Estados Unidos correspondia a cerca de 5% do total em circulação. O dinheiro só faz parte do nosso cotidiano sob forma virtual, ou seja, subordinado às formas digitais. Tomemos como exemplo um ramo da atividade comercial do homem, as agências de viagem. Quem não diria que a internet, as redes sociais, o algoritmo, enfim, e essas agências não nasceram uma para a outra? O computador, o iphone, são agências de viagem (e turismo) virtuais, a um toque do dedo e todos os destinos do mundo estão ali, a um palmo do seu nariz; e no rol dos neoinúteis desse mundo, mais uma categoria: agentes de viagem. Ora, e em relação ao dinheiro e as formas digitais de socialização? Não nasceram, igualmente, um para o outro? E nessa brincadeira, mais uma leva de neoinúteis é despejada no mundo, de cobradores de ônibus a funcionários da casa da moeda. Bom, então o efeito dos meios digitais de tudo nesse mundo é um só: eliminar o elemento humano da cadeia produtiva, primeiro, e da cadeia distributiva, do que quer que seja. Nem vou me dar o trabalho de repetir meu já manjadíssimo exemplo, o departamento pessoal de uma empresa (onde trabalhei durante anos), com seus cartões de ponto (datilografados mês a mês, depois etiquetados mês a mês), folha de pagamento e guias de recolhimento de tributos correspondentes, INSS, FGTS, o diabo, além da RAIS. Hoje, o sujeito põe o dedão na portaria, entrando ou saindo, e tudo isso já está pronto, à espera de um enter. E adivinhem? Mais alguns neoinúteis se recolhem às coxias do mundo, apatetados e desnorteados. Reinvente-se! Empreenda! Cada vez que ouço essas sandices, me dá vontade de sacar meu revólver. Não há uma só atividade laboral nesse mundo que não esteja sob a ameaça do algoritmo, amigos. O dinheiro, enquanto meio físico de troca, está em vias de extinção. Pegue uma nota de R$ 50,00, ou R$ 100,00, prezado leitor, e saia por aí tentando trocá-la para pagar em miúdos o sujeito que lavou seu carro, ou varreu sua calçada; o miserável vai ficar com fome. Quanto aos que imaginam que essa explosão de neoinúteis vai, um dia, se revoltar, não sei. A força motriz do fascismo (micro, macro, neo, qualquer um), a última linha de defesa do Capitalismo, é colocar diante do homem comum um sonho: o de ser rico. Ou, no mínimo, igual aos seus exploradores. O que, para o tal homem comum, se resume a ter um carrão, uma mansão, dinheiro para gastar em farras de fim-de-semana, e condições para humilhar os que outrora foram seus iguais. Pode parecer simplório, reducionista, pessimista e mesquinho – mas é isso que eu testemunho, todos os dias, aqui no meu microcosmo de pobreza e frustração, de humilhação engolida em seco, e de salário de fome. As formas digitais, cada vez mais, somente serão usufruídas por quem puder manter algum excedente de poder aquisitivo. Quem não terá nem emprego, estará fora dessa equação. E tome de futurologia para saber no que isso vai dar.

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