4 de junho de 2026

“Operações exitosas”, disse Bolsonaro à ONU sobre atenção aos indígenas Yanomami

Enquanto indígenas Yanomami morriam de desnutrição e malária, Jair Bolsonaro dizia à ONU que estava tudo bem
Fotos: URIHI - ASSOCIAÇÃO YANOMAMI

O abandono de crianças Yanomami mortas por desnutrição grave, em miséria absoluta e vítimas de malária foi denunciado pelo Ministério dos Povos Indígenas do governo Lula nos últimos dias. Mas enquanto milhares de casos da doença e da fome atingiam o povo indígena no ano passado, Jair Bolsonaro afirmava à ONU que estava tudo bem.

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A pasta comandada por Sônia Guajajara divulgou, neste final de semana, somente um dos recortes da triste realidade que acometeu um dos povos indígenas do Brasil: pelo menos 570 crianças Yanomamis morreram por fome, desnutrição e contaminação, cerca de 100 somente no ano passado.

Também no ano passado, foram registrados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, atingindo todas as idades.

A informação motivou o governo Lula a acionar estado de calamidade pública, envolvendo ainda as pastas do Ministério da Saúde e do Meio Ambiente. O presidente Lula foi presencialmente a Boa Vista, Roraima, para acompanhar os trabalhos das pastas.

“Parte significativa do que está acontecendo com os Yanomami é em função do garimpo criminoso, que destrói os estoques naturais de alimentos para os indígenas”, explicou Marina Silva, ministra do Meio Ambiente.

“Os estoques deles são os rios, são as matas, é o modo de vida que foi se destruindo propositadamente pelo governo Bolsonaro, que praticou crime de lesa-pátria, com propósito genocida, de eliminação de determinados grupos. Essa situação é fruto de uma ação calculada, planejada e criminosa”, continuou.

Mas Jair Bolsonaro negava o abandono aos povos indígenas, em cartas enviadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da ONU, que pressionaram pelos dados ao longo dos anos. As correspondências foram divulgadas por reportagem de Jamil Chade, do Uol.

Segundo o jornalista, uma das comunicações, de março do ano passado, o governo Bolsonaro disse que estava “completamente comprometido” com o atendimento aos indígenas, após ser cobrado de questionamentos.

Sobre os Yanomami, em um outro documento, de julho de 2021, Bolsonaro listava “operações exitosas” contra garimpeiros, monitoramento das taxas de contaminação das terras, garantia ao acesso de água potável, e medidas para previnir Covid-19 e malária.

Naquele mesmo ano, reportagem do Fantástico, da TV Globo, denunciava que a Funai (Fundação Nacional do Índio), sob o comando do governo Bolsonaro, proibiu uma equipe da Fiocruz de entrar na Terra Yanomami para prestar assistência de saúde aos indígenas vítimas de malária, desnustrição, falta de medicamentos e abandono do governo.

E os números mostram que o abandono do governo Bolsonaro não atingiu somente os Yanomami.

Relatório da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) revelou, na semana passada, o número de 3.126 crianças indígenas mortas, até 5 anos de idade, entre 2018 e 2021, os anos de governo Bolsonaro. Foram informadas como causas das mortes pneumonia, diarreia, desnutrição, infecções e “morte sem assistência”. Sendo esta última a segunda maior causa registrada.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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2 Comentários
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  1. Válber Pires

    23 de janeiro de 2023 6:36 pm

    REPRIMARIZAÇÃO ECONÔMICA, NEOEXTRATIVISMO E TRAGÉDIA INDÍGENA – (Por: Válber Pires, Dr. em Sociologia)
    A tragédia indígena recente no Brasil é reflexo do modelo de desenvolvimento adotado pelo país no contexto do neoliberalismo e da globalização capitalista a partir dos anos de 1990. Este modelo é baseado num processo de reprimarização econômica, da qual faz parte o neoextrativismo madeireiro e mineral. Quando este processo se alia a um governo de mentalidade neocolonial, a tragédia é inevitável.
    O Brasil ingressou na globalização econômica e na geopolítica neoliberal com a abertura de sua economia desde o período Collor, processo que se aprofundou com Fernando Henrique Cardoso e se manteve nos governos de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro.
    Essa abertura econômica significou o desmonte de grande parte do parque industrial brasileiro. A perda da participação da indústria na formação do Produto Interno Bruto (PIB) e na oferta de empregos levou a dois movimentos para perseguir o crescimento e equilíbrio econômico: o aprofundamento da financeirização da economia e o favorecimento de atividades primárias nas quais o país possui vantagens comparativas sobre outros países, principalmente pecuária, agricultura e mineração.
    A reprimarização da economia, na qual se destacam a produção de carne bovina, soja e ferro, também foi acompanhada da expansão de inúmeras outras atividades agrícolas, pecuárias e extrativas mineral ¬–ouro, manganês, bauxita, cobre, níquel- e vegetal –madeira.
    O avanço das atividades extrativas –mineral e vegetal- e o aumento da sua importância na economia dos principais estados da Amazônia e na geração de divisas para o Brasil caracteriza o que a literatura sociológica e econômica tem chamado de neoextrativismo.
    O aumento das ameaças contra as comunidades indígenas do Brasil é proporcional ao fortalecimento da reprimarização e do neoextrativismo. Tanto o agronegócio quanto mineradoras e madeireiras tem pressionado e ameaçado as populações indígenas por seus interesses sobre as riquezas naturais dos territórios destes povos: os primeiros querem suas terras, os segundos, seus minérios e, os terceiros, suas árvores.
    Há um quarto agente que merece nota aqui: as igrejas evangélicas. Estas não disputam, simplesmente, almas para seus rebanhos, mas, principalmente, como é de praxe, riquezas. Os “missionários” não somente intermediam acordos entre essas comunidades e mercenários como, também, pressionam os indígenas para extorquir grandes empresas, tudo com o objetivo de ganhar sua propina ou seu “dízimo”. Mas, isso será tema de outro artigo.
    De volta ao tema, os riscos às populações nativas e tradicionais deste modelo primário-extrativista de desenvolvimento são muito elevados por questões óbvias: como as terras indígenas concentram grande quantidade de riquezas naturais é inevitável que a cobiça empresarial –ou de trabalhadores de baixa qualificação e desempregados- se projete sobre elas de forma selvagem.
    Na tentativa de atenuar o impacto e frear o ímpeto empresarial sobre as riquezas naturais dos territórios indígenas, os governos de FHC, Lula e Dilma investiram em estratégias de sustentabilidade que previam, dentre outras, proibição do uso predatório dos recursos naturais destes territórios, fiscalização continuada, assistência de saúde e educacional diferenciadas, fomento ao desenvolvimento local e endógeno.
    Buscava-se, com isso, conciliar economia primária e extrativista com o desenvolvimento sustentável. No entanto, mesmo nos governos destes três presidentes este jogo não era fácil de manobrar. Posteriormente, deteriora-se.
    A partir de 2016, no governo Temer, o Brasil experimenta uma radicalização do neoliberalismo, que entra numa fase ultraliberal. Uma das características do ultraliberalismo foi exatamente a precarização de todas as políticas sociais, trabalhistas e a exclusão das minorias sociais e étnicas do foco e do centro das políticas estatais.
    Com Bolsonaro houve a radicalização desta exclusão. No caso específico dos povos indígenas, estes foram abandonados pelo Estado: o presidente desmontou a FUNAI que perdeu, até mesmo, sua função de demarcar terras indígenas; recursos para operações e fiscalização deixaram de ser repassados para esta Fundação e para o IBAMA; estimulou, em discursos, o ataque de garimpeiros, mineradores, agricultores e madeireiros a estes povos e suas riquezas naturais; colocou na presidência da FUNAI um policial federal contrário aos indígenas e defensor do agronegócio; colocou na Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) um pastor que apoia e atua na catequização dos indígenas; proibiu medidas adicionais de proteção à saúde indígena durante a pandemia do Covid-19.
    Em fim, Bolsonaro retomou um modelo colonial de política indigenista, com forte propensão ao etnocídio e genocídio destas populações.
    Neste contexto, as atividades primárias e extrativas assumiram conotações selvagens, dentro de um processo típico da acumulação primitiva de capital, onde todos os tipos de violência simbólica, física, cultural e social são perpetradas contra povos originários e tradicionais.
    A tragédia que se viu, estes dias, com o povo Yanomami está acontecendo com outros povos originários na Amazônia e no Brasil. Os Munduruku também estão passando por isso agora.
    Esta, contudo, era uma tragédia anunciada em virtude do próprio modelo de desenvolvimento primário e extrativista assumido pelo Brasil ao longo das últimas décadas.
    Políticas voltadas à sustentabilidade podem ajudar a atenuar, mas ela precisa ser acompanhada de políticas econômicas que promovam a diversificação, a industrialização e a verticalização econômica para ampliar as oportunidades sociais e de investimento econômico.
    Caso contrário, se um governante louco, mentalmente perturbado, ascender, novamente, ao poder, a tragédia destes povos deverá assumir proporções maiores, ser mais desumana e desonrosa para o Brasil.

  2. Rui

    24 de janeiro de 2023 9:53 am

    “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”. – Bolsonaro
    Os Yanomamis ainda servem para procriar, Bostonaro? O Yanomami mais pesado pesa uma arroba? Quantos reais são gastos com o cartão corporativo? E quantos reais com os Yanomamis?

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