4 de junho de 2026

Olhos desumanos, por Paulo Paim

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Do Brasil 247

Olhos desumanos

Por Paulo Paim

Quem desrespeita os direitos humanos não sabe conviver com a democracia, diz Paim

Kaputt (do alemão: quebrado, acabado, destroçado), obra do italiano Curzio Malaparte, pseudônimo do jornalista Kurt Erich Suckert, lançado em 1944, faz um relato da crueldade da 2ª Guerra. Ano passado essa obra recebeu uma refinada adaptação, versão em quadrinhos, assinada pelo brasileiro Eloar Guazzeli Filho.

Há uma cena estarrecedora: um oficial nazista diz a um menino que não foi ele quem inventou a guerra. E então propõe um desafio: Escute, eu tenho um olho de vidro. É difícil distingui-lo do verdadeiro. Se você descobrir qual é, deixo você ir. O menino não hesita: O olho esquerdo. O oficial fica espantado. Pergunta como ele conseguiu diferenciar. O garoto explica: Porque, dos dois, é o único que tem algo de humano.

No mundo atual, em que existem guerras, intolerância religiosa, fanatismo ideológico, homofobia, racismo, tráfico de drogas, destruição da natureza pelo homem, mortes por fome, inquestionavelmente, Kaputt continua atualíssimo. Uma leitura obrigatória para todos nós e, principalmente, para aqueles que não respeitam os direitos humanos e não sabem conviver com a democracia e a liberdade.

Há trinta anos saímos de um regime de exceção. De uma ditadura que interrompeu sonhos e esperanças. Portanto, a democracia brasileira é recente e, por isso mesmo, temos a obrigação de regá-la todos os dias. Devemos ficar atentos aos movimentos que vão de encontro as nossas mais sagradas conquistas democráticas, constitucionais e dos direitos humanos.

A violência e a falta de segurança são ataques a tudo isso. Segundo a Unicef, mais de 40 mil jovens, de 12 a 18 anos, poderão ser vítimas de homicídios no Brasil, entre os anos 2013 e 2019. A maioria será de jovens negros. Todos os dias há notícias de pessoas que morrem por falta de atendimento. Faltam médicos, enfermeiros, leitos, medicação. Isso atinge a nossa democracia.

A professora de Relações Internacionais, Tatiane Cassimiro, lembra que as minorias étnicas, as mulheres, crianças, pessoas com deficiência e aqueles que possuem baixo nível socioeconômico são os que mais sofrem com os efeitos da corrupção, já que esses têm escassos acessos a serviços de natureza essencial e com péssima qualidade, como saúde e educação. Lembro também que tramita no Congresso o PLS 206/2015 que prevê cadeia e multa em dobro equivalente ao montante desviado indevidamente. Será que é tão difícil nós entendermos que a corrupção é uma afronta a vida das pessoas? Ela também cerceia sonhos e esperanças.

É inadmissível que direitos trabalhistas e previdenciários sejam alvo de ataques. As medidas provisórias 664 e 665 estão aí. Nesse conjunto está inserida a não menos perversa terceirização, que, como eu tenho dito, equivale à revogação da Lei Áurea. Algo desumano. Neste cenário de fragilidade para os trabalhadores, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Respeito as posições contrárias. Mas não concordo.

As manifestações são legítimas e necessárias. Agora, não podemos aceitar menções ao nazi-fascismo, intervenção militar e muito menos violência, seja de que lado for. O que ocorreu em Curitiba contra os professores, foi um atentado ao Estado Democrático de Direito, às liberdades de manifestação e expressão e também um retrocesso no processo democrático brasileiro.

Temos muito ainda a aprender com a democracia e com a liberdade. Elas, juntas, são águas da mesma vertente, da mesma pedra que, se bem lapidada, dá o suporte necessário para o universo dos direitos humanos. Se assim o fizermos, com perseverança, utilizando as nossas virtudes, podemos criar novos tempos, não só com respeito às individualidades e ao coletivo, mas, sobretudo, mediante a construção de uma nação… de uma verdadeira nação.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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3 Comentários
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  1. Free Walker

    15 de maio de 2015 5:40 pm

    Ideologicamente vamos em

    Ideologicamente vamos em direções contrárias, mas reconheço em Paulo Paim um grande senador da República. 

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    15 de maio de 2015 6:08 pm

    Mano, na boa… todo mundo

    Mano, na boa… todo mundo sabe que os nazistas trucidaram judeus, poloneses, russos, ciganos, italianos, franceses e até alemães. Alguns sabem até que eles pagaram caro pelo que fizeram. Os nazistas que não morreram uma morte horrível em Stalingrado, morreram trabalhando em campos de prisioneiros na URSS, se suicidaram em Berlim ou foram enforcados depois da guerra.

    Já estou farto desta história de um lado só. É preciso ver o outro lado. O dos bombardeios incendiários realizados por ingleses e norte-americanos na Alemanha. Dezenas de citadas alemãs foram transformadas em fornalhas onde crianças, velhos e mulheres foram sumariamente queimadas quer gostassem ou não de Hitler. Só em Dresden mais de 40 mil civis alemães foram incinerados. Nas outras cidades, posso até citar algumas (Hürtegenwald, Düren, Jülich, Essen, Duisburg, Dortmund, Colônia, Bochum, Rostock, Bremen, Hamburgo, Kiel, Nuremberg, Kassel, Würzburg, Osnabrück, Münster, Telgte, Hannover, Munique, Düsseldeorf, Trier, Koblenz, Heilbronn, Bonn, Krefeld, Hildesheim, Magdeburg, Leipzig, Darmstadt, Berlim e Stuttgart) centenas de milhares de alemães também foram assados vivos e raramente os que falam dos crimes dos nazistas lembram deste detalhe.

    Portanto, não me falem mais dos nazistas alemães. Estou mais interessado na história dos nazistas ingleses e norte-americanos: https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-incendio-resenha-do-livro-de-joerg-friedrich

  3. Andre Araujo

    16 de maio de 2015 1:51 am

    KAPUTT e  A PELE, de Curzio

    KAPUTT e  A PELE, de Curzio Malaparte, dão um pano de fundo impressionante da Italia e especialmente de Napoles durante a Guerra, um romance-historia com precisas narrativas de episodios do conflito, não é um um livro de historia.

    As tragedias pessoais, como no capitulo “As Moças de Soroca”, onde descreve um bordel nazista com moças prisioneiras, narrativa chocante e tragecia, a prostituição em Napoles depois da chegada dos americanos,

    a descrição da vida mundana no Acqua Santa Golf Club de Roma, onde a conversa era em francês ou ingles, as aventuras galantes do Ministro do Exterior, o Conde Galeazzo Ciano, que cortejava as esposas de diplomatas.

    Esoantosa a narrativa das transações com soldados negros americanos, os habitantes de Napoles compravam e vendiam, sem os proprios saberem, o o soldado pensionista que trazia junto chocalates, queijos, cereais, café, era um hospede valioso que era vendido de casa a casa porque era valioso como fonte de comida. Em um outro episodio, enquanto o soldado americano almoçava o seu tanque era desmontado por sucateiros em 30 minutos. As moças mais bonitas da familia eram anunciadas pelos parentes para programas, tudo isso está especialmente em A PELE, livro que tambem srviu de base a um filme com o mesmo titulo.

    Para ler KAPUT e A PELE tem que ter estomago forte, especialmente em descrição de banquetes em Napoles.

    Mas são obras literarias de qualidade, mostram tragedias dos bastidores da guerra perante tudo parece mais leve.

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