X, liberdade de expressão ou golpismo: Qual é a pauta afinal?
por Frederico Firmo
A imprensa e a grande mídia se esmeram nas estratégias de pautar debates focalizando, retoricamente, conceitos abstratos cujos significados estão fincados no imaginário social. Por exemplo, liberdade de expressão. Nas manchetes dos jornais, a discussão sobre os abusos nas redes sociais: mentiras, agressões, fake-news, calúnias, deep-fakes, pornografia infantil, se transforma em um debate sobre o conceito de liberdade de expressão. Pensadores, políticos, intelectuais, jornalistas são chamados para a arena e discorrem longamente sobre o que é liberdade de expressão. Tudo se passa como se no nosso cotidiano não tenhamos leis contra agressões, calúnias, manipulação, estelionato, etc.
A sociedade sabe que tudo isto é crime, é anticivilizatório e que sequer merecia um longo debate. Mas o mundo vem sendo assolado pelos mercadores da dúvida, veja o livro de Naomi Oreskes. Profissionais do negacionismo, da manipulação usam como método a boa mentira, que vem sempre acompanhada de falsas verdades. Faz parte da formação destes profissionais não acreditar no que falam ou propagam. Eles têm plena consciência do mal a ser feito. Para agir, é necessário se ter uma avaliação clara dos pontos fracos do público-alvo. E para isto não é preciso acreditar no que se escreve, se fala ou nas imagens e vídeos. O orgulho do profissional é a confiança na avaliação que tem de seu público cativo e seu poder de ilusionista. Ele se vangloria disto.
Estamos na época do cinismo, onde figuras públicas mentem sem nenhum constrangimento. Como diz Pablo Marçal: eu falo idiotices porque é isto que o público quer. Ele confessa que acha seu público um bando de manés. Na verdade, gostam de seu público, assim como um estelionatário gosta de sua vítima. Manipular fraquezas, complexos, ressentimentos e dores neste nível necessita muita consciência e muito uso das fraquezas.
Num país onde apenas um número pequeno alcança a universidade, não é muito difícil transformar o professor universitário no outro, naquele que se pode projetar todo o mal. No mundo virtual, a manipulação racional se transforma na profissão dos sonhos, programas poderosos, usando ou não a inteligência artificial, são instrumentos de criação de grupos e bolhas que, uma vez mapeados, recebem injeções maciças do mesmo, até que acreditam que esta é a única realidade. Isto serve para as vendas, fidelizações, seitas, política, etc.
E há uma competição suja e violenta, não apenas na política, mas principalmente entre grupos econômicos, brigando pelos dados e informações de clientes, usados para os mais diferentes objetivos, nem sempre honestos e legais. O alcance das redes e o anonimato escondem interesses dos mais puros aos mais doentios.
Organizações e corporações baseadas nos cliques e likes não se importam em quebrar as mais simples normas civilizatórias, desde que as bolhas formadas se automonetizem. As redes não são instrumentos, elas são o próprio objeto da cobiça dos vários Pinks e Cérebros, que querem dominar o mundo. Este é o campo cotidiano de luta pela propriedade e controle da rede, pela liberdade em coletar, manipular e divulgar todo e qualquer dado útil a qualquer objetivo em jogo. Nestas comunidades, o termo usado é a mineração de dados, uma terra de garimpo e de cangaço.
Musk não investiu na compra do X apenas devido ao lucro. Dizem que foi um péssimo negócio, mas Musk tem grandes ambições de poder. Enquanto na mídia se focaliza o debate sobre Liberdade de Expressão, nas redes o jogo é pesado. Interesses geopolíticos envolveram a prisão do russo do Telegram, a prisão da CEO da Hwei foi uma tentativa grosseira e explícita de acabar com a competição comercial chinês, e nos sonhos mais loucos impactar o desenvolvimento da área na China. Estes fatos fazem parte do jogo, mas não significaram qualquer avanço no controle e regulamentação das redes e nem estão ligados à liberdade de expressão.
Um colunista do Estadão, se referindo ao caso X, afirma que: a Liberdade de expressão está se tornando um valor menor. Esta manchete é de fato uma cortina de fumaça, pois é, de fato, um posicionamento contra às decisões de Moraes, contra o inquérito das fake-news fantasiado de debate sobre a liberdade de expressão.
O caso X faz parte do movimento de ultradireita que coloca em marcha objetivos nada democráticos ou republicanos. O debate sobre liberdade de expressão serve apenas para esconder seu real objetivo, que é inviabilizar os julgamentos sobre 8 de janeiro e propiciar um movimento de anistia que alcance Bolsonaro. Musk é parte integrante deste movimento.
Alguns pretendiam que o caso X fosse o estopim e fundamento para o impedimento de Moraes. Num perfeito timing, escolheram a véspera da manifestação bolsonarista de 7 de setembro. Para se entender o todo, é preciso retroagir e analisar o súbito e rapidíssimo julgamento do caso do relógio de Lula, que obviamente foi criado para forjar argumentos para arquivar o processo das joias personalíssimas. Numa coincidência improvável, tivemos na mesma época a explosão das mensagens do vaza toga, e uma subsequente ação massiva de várias figuras jurídicas tentando vender a imagem de que o processo contra os atos, fake news e conspiração do golpe são fruto de abusos de Moraes.
Estas acusações ganham espaço na imprensa, e vários “moderados” aparecem dizendo que deveria haver uma “autocontenção” do Supremo. A imprensa bate na tecla de perigos e ataques à liberdade de expressão. Numa nóia coletiva, grupos de todas as matizes ideológicas entram na pilha. O debate sobre o conceito de liberdade de expressão se torna a pauta e os partidos de direita e extrema-direita se mobilizam no congresso para cercear as ações do Supremo. Aceleram o processo de aprovação de um PL para anistiar todos os envolvidos em 8 de janeiro. De maneira suja e planejada, dizem que vão se restringir apenas aos acontecimentos do dia 8 de janeiro, mas todos sabemos que o objetivo é Bolsonaro e seu gabinete.
Nos jornais e TV, o caso X só tem menos chamadas do que Pablo Marçal. Os colunistas de jornalões integram com alegria o movimento. Fabiano Lana se mostra preocupado e diz acreditar que a liberdade de expressão corre riscos e parece estar se transformando em um valor menor. Observem que o conceito de liberdade de expressão é tratado como um valor, algo aparentemente indiscutível. Lana jamais debate ou informa sobre detalhes e conteúdo dos posts bloqueados; não debate se eles violam, ou não, alguma lei ou ética civilizatória, ou se são a mais pura expressão de desejos democráticos. Isto mostra com clareza que Lana e outros não estão interessados em discutir liberdade de expressão dos posts. Ele quer manter a discussão no campo conceitual e abstrato ou no campo de valores, o que é um óbvio recurso retórico para esconder a faca escondida na mão do pastor.
Assim, o caso X, que é a desobediência a uma ordem judicial, se transforma em disputa heróica pela liberdade de expressão. Não contente com toda a criação retórica, Lana entrega seus objetivos quando termina afirmando que o PT está por trás disto e que, portanto, a esquerda é contra a liberdade de expressão, amiga de Maduro e de Ortega.
Naomi Oreskes , Erik M. Conway –Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Climate Change. ISBN-13 978-1608193943
Frederico Firmo – Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado em Pos Graduação Em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor Titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina.
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