
O Lantânio é Nosso
por Heraldo Campos
Será que vamos ter que ir para as ruas e gritar que “O Lantânio é Nosso”, pegando carona na campanha do “O Petróleo é Nosso” que rolou nos anos 40/50 do século passado, para fincar o pé na nossa soberania nacional e em plena guerra quente?
Segundo a “Visão geral criada por IA”, obtida em rápida pesquisa pela internet, “A campanha “O Petróleo é Nosso” foi um movimento nacionalista brasileiro que defendia o monopólio estatal da exploração, refino e transporte do petróleo. Iniciada em 1948, a campanha ganhou força com a posse de Getúlio Vargas em 1951 e culminou na criação da Petrobras em 1953, através da lei 2.004. O slogan ‘O Petróleo é Nosso’ tornou-se um símbolo da luta pela soberania nacional sobre os recursos naturais do Brasil.”
Eram tempos da chamada Guerra Fria, onde o mundo vivia assistindo uma queda de braço, num confronto indireto, entre os Estados Unidos e a então União Soviética, que permaneceu por longos 42 anos, de 1947 a 1989, com a desagregação da União Soviética e formação da Comunidade dos Estados Independentes [1]. Hoje, porém, parece que a guerra é mais quente, com o louro e tresloucado presidente dos Estados Unidos querendo meter o bedelho na terra de outros países, soberanos, como se fossem as empresas de sua propriedade, que atuam em solo americano.
Nesse contexto, é difícil uma figura desse tipo não priviligiar os seus pares e seus associados, para um progressivo e alucinante enriquecimento pessoal e familiar. Sendo assim, estaríamos diante da política pela força, e como alvos da tal da iniciativa privada (ou seria a da privada da iniciativa) e canalha [2] desses donos do mundo?
Se as “Terras raras interessam aos EUA no contexto das tarifas”, conforme chama a atenção o título da matéria do site “Brasil Mineral”, deve-se ao fato de que “O Brasil possui cerca de 10% das reservas globais de minerais críticos, incluindo a maior reserva mundial de nióbio, e a segunda maior de grafite e de terras raras. O país também dispõe de reservas significativas de lítio, cobre, níquel e cobalto, elementos fundamentais para a produção de baterias, semicondutores e tecnologias de transição energética.” [3]
O lantânio é um elemento químico que inicia a série dos lantanídeos, com 15 elementos (do lantânio ao lutécio) [4], de propriedade metálica, alvo agora dessa nova cobiça e moeda de chantagem. O lantânio pode ser encontrado em minerais como a monazita, por exemplo, que é um fosfato de terras raras [5] e na sua fórmula geral (Ce, La, Y, Th) PHO4, contém o cério (Ce) e o lantânio (La) da série dos lantanídeos ou terras raras.
Diga-se de passagem que Guarapari, um dos principais pólos turísticos do Estado do Espirito Santo, é conhecida por ter praias com areias monazíticas para as quais são atribuídas propriedades medicinais e terapêuticas. Em tempo: em 1971 esse município abrigou em Três Praias, o Festival de Verão Guarapari (Três Praias), festival de música popular brasileira pejorativamente chamado de “Woodstop” – o Woodstock brasileiro quase parando – onde pude assistir, ao vivo e a cores, Tony Tornado, Jards Macalé, Chacrinha, entre outros personagens do meio artístico da época.
“Canalhas melhoram com o passar do tempo (ficam mais canalhas)”. – Millôr Fernandes.
Fontes
[1] Adas, M. & Adas, S. Expedições Geográficas. 2ª edição. São Paulo, Editora Moderna Ltda., 2015. 288p.
[2] “Canalha” – crônica de Heraldo Campos de 25/07/2025.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/07/canalha.html
[3] “Brasil Mineral” – matéria “Terras raras interessam aos EUA no contexto das tarifas” de
27/07/2025.
https://www.brasilmineral.com.br/noticias/terras-raras-interessam-aos-eua-no-contexto-das-tarifas
[4] Feltre, R. Fundamentos da Química: volume único. 4ª edição. São Paulo, Editora Moderna Ltda., 2005. 700p.
[5] Dana, J. D. & Hurlbut Jr., C. S. Manual de Mineralogia. Ao Livro Técnico & Editotora da Universidade de São Paulo. 1969. 2v.
Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário