A crise climática: P & R com alunos do ensino médio, por Felipe Costa

Uma conversa com estudantes sobre 'A curva de Keeling e as mudanças climáticas'

A crise climática: P & R com alunos do ensino médio.

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

RESUMO. – Entre os efeitos da crise climática na saúde pública, eu citaria dois: (a) expansão da área de distribuição geográfica dos vetores (levando certas doenças para locais onde antes ela não ocorria); e (b) surtos epidêmicos mais frequentes e mais demorados.

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INTRODUÇÃO. – A convite de um amigo de longa data [1], eu tive a oportunidade de participar de uma ‘conversa remota’ pela primeira vez. Isso foi em abril-maio de 2021. O tema geral da conversa, que iria se estender por três encontros (29/4, 3 e 17/5; cada um com uma duração máxima de 40 minutos), foi ‘A curva de Keeling e as mudanças climáticas’ [2]. Dias depois, recebi 18 perguntas formuladas por alunos que participaram da conversa. Respondi a todas por escrito. São essas perguntas, e as respostas que dei na ocasião, que reproduzo a seguir.

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PERGUNTA 1. As mudanças climáticas podem potencializar o efeito da poluição atmosférica sobre a saúde?

RESPOSTA. Sim. Mesmo porque a própria poluição atmosférica tende a aumentar com o aumento da temperatura. Aproveito e deixo aqui uma sugestão de leitura: Biologia & mudanças climáticas no Brasil (Buckeridge 2008). Ver, por exemplo, o capítulo ‘Os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde humana’, de Paulo Saldiva. É um texto curto e algo genérico, mas pode servir como uma introdução ao assunto. Outra referência que posso indicar é Aquecimento global (Legget 1992). Ver, por exemplo, o capítulo ‘Implicações para a saúde’, de Andrew Haines. Também é um texto curto, (Em tempo: o trabalho de Haines é citado por Saldiva.)

PERGUNTA 2. As ondas de frio contradizem os indícios de um aquecimento global?

RESPOSTA. De modo algum. Em primeiro lugar, devemos observar que a afirmativa de que as mudanças climáticas estão conduzindo o planeta na direção de climas mais irregulares (incluindo climas mais quentes e mais secos) está ancorada na análise de séries históricas – i.e., séries que reúnem médias (mensais e anuais) obtidas ao longo de períodos de 30 anos ou mais. As tais ondas de frio, por sua vez, são episódios locais e esporádicos. A rigor, devo ainda acrescentar o seguinte: em passado recente, alguns estudiosos temiam que o planeta viesse a enfrentar não um aquecimento, mas sim um esfriamento global (referido então como inverno nuclear). Para detalhes, ver O inverno nuclear (Ehrlich et al. 1985).

PERGUNTA 3. Quais as evidências do aquecimento global?

RESPOSTA. Algumas das evidências mais óbvias e diretas provêm das séries históricas. Em alguns países, como Japão e Inglaterra, há séries históricas com mais de 150 anos de duração. E a tendência em todas elas é mesma: a temperatura média anual está a subir, notadamente nos anos mais recentes.

PERGUNTA 4. Como a mudança do clima vai nos afetar?

RESPOSTA. De muitas maneiras. Tanto direta (e.g., aumentando a poluição e os surtos epidêmicos) como indiretamente (e.g., reduzindo a produção de alimentos). Para detalhes, ver referências citadas na resposta à pergunta 1.

PERGUNTA 5. Como a mudança climática pode afetar a natureza daqui a alguns anos?

RESPOSTA. Elas já estão afetando. E tais efeitos têm sido detectados há vários anos – e.g., mudanças de comportamento de plantas e animais, redução na área de distribuição de muitas espécies, derretimentos de geleiras e diminuição das áreas ocupadas pelo chamado gelo eterno. Para detalhes, ver referências citadas na resposta à pergunta 1.

PERGUNTA 6. O aquecimento global pode causar eventos climáticos extremos?

RESPOSTA. Já [está] causando. Secas mais prolongadas, por exemplo, devem se tornar cada vez mais comuns. Isso porque, mesmo que a pluviosidade anual que cai em uma dada região permaneça inalterada, as chuvas devem se concentrar em intervalos de tempo ainda menores. O que também significa que as chuvas se tornarão mais intensas.

PERGUNTA 7. A tecnologia pode ser usada para reverter ou diminuir esse processo?

RESPOSTA. As artes práticas (tecnologia) estão sempre a inventar novidades. E as mudanças climáticas são uma motivação e tanto. Algumas soluções mirabolantes já foram e continuarão a ser apresentadas. Todavia, de um ponto de vista exclusivamente científico, a questão é relativamente simples: precisamos tão somente cortar os níveis de emissão dos chamados gases-estufa (e.g., CO2 e CH4). Como? Há mais de uma possibilidade. Eis dois exemplos de medidas efetivas: diminuir a queixa de combustíveis fósseis (e.g., carvão mineral e petróleo) e reduzir o tamanho dos rebanhos animais (e.g., bovinos e caprinos).

PERGUNTA 8. Há um ponto em que a situação será irreversível?

RESPOSTA. Sim. E, ao que parece, já teríamos ultrapassado um deles, de sorte que o aquecimento não é mais apenas uma possibilidade futura, mas sim uma realidade presente. (Cedo ou tarde, todos nós experimentaremos os efeitos das mudanças ora em curso.) O que se discute agora, em escala planetária, é a intensidade da freada que devemos ou poderemos aplicar, de modo a minimizar a elevação da temperatura média global. Veja: um aumento médio de 0,5 °C pode ser ruim, mas um aumento de 1 °C seria ainda pior.

PERGUNTA 9. O Brasil possui alguma política nacional em relação às mudanças climáticas?

RESPOSTA. Até uns poucos anos atrás, eu diria que a política ambiental brasileira era acanhada, mas eu diria também que havia uma boa margem para negociações e avanços – e.g., em termos de criação de novas unidades de conservação ou no controle das emissões de gases e partículas. No momento, porém, já deve ter ficado óbvio que a administração federal que tomou posse em 2019 não só não tem qualquer política ambiental positiva, como parece ter como objetivo maior a destruição por completo de toda e qualquer medida minimamente civilizatória. O comportamento do atual ministro do Meio Ambiente, por exemplo, é não só ultrajante, mas verdadeiramente criminoso – e.g., ao passar por cima da legislação vigente e forçar a liberação (tanto para fins de exportação como para fins de consumo interno) de madeira extraída de modo sabidamente ilegal. (A julgar pelas notícias divulgadas ultimamente, o ministro está sendo investigado por autoridades policiais, tanto brasileiras como do exterior.)

PERGUNTA 10.  É realmente possível que daqui a muitos anos algumas cidades litorâneas fiquem completamente submersas por conta de derretimento de geleiras?

RESPOSTA. Sim. Mas eu não diria daqui a muitos anos. É importante ressaltar o seguinte: o nível do mar, a exemplo de outros parâmetros (e.g., pH dos oceanos), é algo que pode e está a ser monitorado. Outra coisa: estamos aqui a falar no derretimento (já em curso!) das geleiras que se encontram sobre terras emersas, pois o derretimento dos blocos de gelo que já se encontram dentro do mar não provocaria qualquer elevação.

PERGUNTA 11. Quais são as maiores companhias poluidoras do mundo?

RESPOSTA. A lista não é pequena. No âmbito das mudanças climáticas, porém, eu elencaria três ramos da indústria: termoelétricas, petroleiras e fábricas de cimento, além das fazendas de gado (sobretudo o bovino).

PERGUNTA 12. Quão rápido o volume dos oceanos pode subir com o derretimento das geleiras?

RESPOSTA. Como comentei na resposta à pergunta 10, trata-se de um parâmetro que pode e está a ser monitorado. E o nível do mar já está a subir. (Isso tem a ver principalmente com o derretimento das geleiras. Mas uma parte se deve à expansão térmica do volume dos oceanos.) Eis alguns números, levando em conta os resultados acumulados entre 1993 e 2019: (a) em 2019, a média global do nível do mar estava 87,6 milímetros acima da média de 1993; e (b) só entre 2018 e 2019, o nível do mar subiu 6,1 milímetros. (Entre 1880 e 2021, a média global subiu entre 21 e 24 centímetros [3].)

PERGUNTA 13. Se a meteorologia não consegue afirmar com 100% de certeza se vai fazer sol no fim de semana, como ela pode prever o que vai acontecer daqui a cinquenta ou 100 anos?

RESPOSTA. Ótima pergunta, sobretudo porque nos dá a chance de discutir certas noções equivocadas do senso comum. Uma delas: no âmbito das ciências naturais, não se deve esperar que as afirmativas (palpites, conjecturas etc.) sejam definitivas. Trabalha-se com margens de segurança, tendo como objetivo minimizar as chances de erro. O nosso conhecimento das coisas do mundo é limitado, razão pela qual está a ser aperfeiçoado constantemente. Outra coisa: é importante distinguir entre padrões climáticos (objeto de estudo da climatologia) e as condições atmosféricas (objeto de estudo da meteorologia). É mais seguro (pois é uma média de anos anteriores e não um valor isolado, pontual) antever os padrões climáticos (e.g., a temperatura e a pluviosidade das próximas [estações]) do que antever as circunstâncias pontuais (e.g., a temperatura e a pluviosidade do próximo fim de semana). Um comentário adicional: mas a situação já foi pior. Modelos teóricos mais consistentes e equipamentos mais poderosos (capazes de processar mais dados em intervalos cada vez menores) têm melhorado bastante as margens de acerto das previsões meteorológicas.

PERGUNTA 14. Quando o aquecimento passou a acontecer com mais intensidade?

RESPOSTA. Os efeitos das mudanças climáticas estão a se tornar mais intensos e mais evidentes a cada ano. Considere as séries históricas, algumas das quais têm 100 anos de duração (ou mais). No caso da temperatura global, por exemplo, os resultados (período 1880-2020) são preocupantes: os 10 anos mais quentes da série ocorreram de 2005 para cá [4].

PERGUNTA 15. Qual é a contribuição do Brasil nas emissões de gases de efeito estufa?

RESPOSTA. Tradicionalmente, o Brasil é mais um escoadouro do que um emissor de gases-estuda. Entre os fatores que contribuem para isso estão a extensa cobertura vegetal (florestas removem CO2 da atmosfera) e o modo como o país produz eletricidade (predominam hidrelétricas). Nos últimos anos, porém, a situação está a mudar, pois tanto os índices de desflorestamento como o uso de eletricidade suja (termoelétricas) estão a subir.

PERGUNTA 16. Sabemos que a camada de ozônio está sendo deteriorada rapidamente. Além de contribuir para o aquecimento global, quais outros impactos podem ocorrer e/ou serem agravados com essa degradação constante?

RESPOSTA. O surgimento de um buraco (a rigor, um estreitamento) na camada de ozônio é particularmente preocupante porque sinalizaria para a perda de um filtro planetário contra a entrada de radiação ultravioleta, que é ionizante. A adoção de medidas simples (e.g., suspender o uso industrial dos chamados CFCs), ano atrás, teria conseguido refrear o problema. Detalhes podem ser lidos no livro Bilhões e bilhões (Sagan 1998).

PERGUNTA 17. Mudanças climáticas e ambientais já causam danos à saúde da população?

RESPOSTA. Sim. E acho que a pandemia em curso é um exemplo dramático do que isso significa.

PERGUNTA 18. Qual é a relação entre doenças transmitidas por vetores e mudanças climáticas?

RESPOSTA. Entre os efeitos conhecidos (e esperados) eu citaria dois: (a) expansão da área de distribuição geográfica dos vetores (levando certas doenças para locais onde antes ela não ocorria); e (b) surtos epidêmicos mais frequentes e mais demorados.

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Notas.

[*] Há uma campanha ainda em curso, Pacotes Mistos Completos, por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, pacotes com os quatro livros anteriores do autor – para detalhes, ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir algum volume específico ou para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui. (A figura que ilustra este artigo foi extraída e adaptada do livro O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna [2017].)

[1] ABM, dedicado e querido professor de Ciências (ensino fundamental) e Biologia (ensino médio) ainda em atividade em Juiz de Fora; nós dois nos conhecemos em 1977, em nosso primeiro ano de graduação na UFJF. As perguntas foram elaboradas por alunos do 3º ano do ensino médio do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora MG), integrante da Rede de Educação Missionária Servas do Espírito Santo. Versão algo diferente deste artigo foi publicada no sítio daquela congregação (ver aqui). O autor gostaria de registrar ainda que estudou no ‘antigo Stella’, onde fez o ‘pré-primário’ (1966). No início da década de 1980, as antigas instalações do colégio (incluindo o pátio do recreio e, logo depois, a capela anexa) foram vendidas e o CSM se mudou para o endereço atual.

[2] Sobre a vida e obra de Charles Keeling (1928-2005), ver Costa (2017).

[3] Para detalhes (em inglês), ver https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/climate-change-global-sea-level.

[4] Para detalhes (em inglês), ver https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/climate-change-global-temperature.

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Referências citadas.

+ Buckeridge, MS, org. 2008. Biologia & mudanças climáticas no Brasil. Ribeirão Preto, RiMa.

+ Costa, FAPL. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do Autor.

+ Ehrlich, PR & colaboradores. 1985. O inverno nuclear. RJ, Francisco Alves.

+ Legget, J, org. 1992. Aquecimento global. SP, FGV.

+ Sagan, C. 1998. Bilhões e bilhões. SP, Companhia das Letras.

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1 Comentário

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Francisco

- 2022-01-14 00:56:59

Precisamos fazer releituras urgentes de todos esses tópicos que envolvem a TEORIA do aquecimento global de origem humana. Há uma série de "coincidencias" cíclicas de ordem cosmológica que não são levadas em conta nessa "teoria". A principal é o Sol!!!. O Sol comanda a maior parte dos fenômenos terrestres. Para se ter uma ideia, atualmente acontece sobre o hemisfério sul uma anomalia magnética que está gerando sobre o Brasil, entre outras coisas, um enorme buraco na camada de ozônio e tem chamado a atenção dos cientistas (não sei se algum brasileiro...) pois o fenômeno pode estar ligado a uma excursão magnética, ou, inversão dos polos magnéticos da terra, que relacionado a grandes extinções. Para esses fenômenos relacionados ao Sol, a variação de CO2 é fichinha...há muito mais, bora ver?????

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