A força do conhecimento. III. Revolução Agrícola, a mãe de todas as revoluções, por Felipe A. P. L. Costa

Ao contrário do que alguns imaginam, a história da agricultura é ainda hoje um assunto repleto de interrogações.

A força do conhecimento. III. Revolução Agrícola, a mãe de todas as revoluções

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

  1. Do extrativismo à agricultura permanente.

Há cerca de 10 mil anos, a base material das sociedades humanas passou por um processo radical de mudança. Estou a falar de um processo que marcaria para sempre a história da nossa espécie: o advento da agricultura permanente.

Ao contrário do que alguns imaginam, a história da agricultura é ainda hoje um assunto repleto de interrogações.

Nas palavras de Bates (1967, p. 46-7) [1]:

“Nunca saberemos como e porque deram esses primeiros passos para a agricultura, o que deixa um campo esplêndido para conjeturas. O processo foi, certamente, lento e irregular. É provável que nossos ancestrais selvagens estivessem longe de considerar a agricultura como grande benção porque logo envolveu aspectos desagradáveis tais como hábitos regulares e trabalho pesado. No entanto, a agricultura é tarefa insidiosa. Uma vez desenvolvida ou adotada, permite que bem maior número de pessoas viva em certa área de terra, e, dados os hábitos de procriação do homem, surge logo o aumento da população. A tribo fica, depois, sob o jugo da agricultura para sempre, pois os processos antigos não podem fornecer alimento suficiente para o número maior. (…)

“Alguns povos caçadores recorrem à agricultura em certas emergências, quando levados a tal ação drástica pela prolongada escassez da caça. Isso mostra que tais povos poderiam ser de agricultores, se quisessem; evitam, porém, essa necessidade desistindo da agricultura logo que as condições da caça voltam ao normal e antes que a população tenha progredido. Alguns dos índios das planícies da América do Norte conseguiram, por acaso da sorte, escapar ao ramerrão da agricultura; adotaram o uso dos cavalos quando estes apareceram por ocasião da invasão espanhola, e, quando descobriram que a população podia ser mantida por esse método mais eficiente de caçar, abandonaram imediatamente a agricultura.

“Alguns povos, ao que parece, nunca adotaram esses métodos mais insidiosos de produzir alimento; encontramo-los vivendo hoje nunca cultura de juntar alimento semelhante à que, provavelmente, caracterizava toda a humanidade quinze ou vinte mil anos atrás. Chamamos tais povos de ‘atrasados’, mas talvez sejam os mais inteligentes de todos, pois conseguiram, através de milênios, evitar os primeiros passos fatais no caminho florido e forrado de ambições da civilização.”

Em vez da expressão habitual – Revolução Agrícola, com sua ênfase no cultivo de plantas alimentares, – Bronowski (1979, p. 79) prefere falar em Revolução Biológica:

“A agricultura representa uma parte da revolução biológica; a domesticação e o treino de animais, a outra. A domesticação se desenvolve em uma sequência ordenada. O cão foi o primeiro, talvez mesmo antes de 10000 aC. Depois vieram os animais de abate, começando pelas cabras e ovelhas. Seguiram-se os animais de carga, representados por espécies de jumentos selvagens. Os animais aumentam a produção muito além do que consomem. Mas isso é verdadeiro apenas na medida em que os animais permanecem modestamente nas funções produtivas a eles destinadas, isto é, como servos no trabalho agrícola.”

Deixando de lado os aspectos de terminologia, a questão de interesse aqui seria a seguinte: em decorrência da Revolução Agrícola, grupos nômades de caçadores-coletores – em números cada vez maiores – estavam a adotar um novo estilo de vida.

  1. Acampamentos semipermanentes.

Embora a adoção da agricultura permanente implique em um estilo de vida mais sedentário, este último pode ser igualmente favorecido em outras circunstâncias.

Por exemplo, muitos sítios arqueológicos, em diferentes partes do mundo, são ricos em depósitos de restos animais e vegetais [2]. O que tem sido interpretado como evidência de que os seus ocupantes eram capazes de exercer algum tipo de controle sobre as fontes de alimentação disponíveis no local. E isso estaria a ocorrer de modo independente em grupos vivendo em diferentes tipos de hábitats – e.g., grupos de caçadores-coletores vivendo em formações savânicas na região de Lagoa Santa (MG) ou grupos de pescadores vivendo no litoral do estado do Rio de Janeiro ou de Santa Catarina.

Eis o comentário de Prous (1999, p. 101-6):

“As principais pesquisas sobre os antigos caçadores-coletores de Minas Gerais concentraram-se principalmente nos abrigos calcários, os quais preservam maior variedade de vestígios do que os sítios a céu aberto. […]

“Embora tenha sido encontrado um instrumento de pedra datado de 20 mil a 15 mil anos na Lapa Vermelha (perto do aeroporto de Belo Horizonte, em Confins), este achado isolado, como todos os outros indícios datados de mais de 12 mil anos no Brasil, é de difícil interpretação. […]

“A vida dos ‘homens de Lagoa Santa’ é bem documentada entre 10 mil e 8 mil anos atrás, graças às escavações realizadas em Cerca Grande, em 1956, e em Santana do Riacho, na década de 70. […]

“Os restos alimentares encontrados durante as escavações sugerem caça limitada, não havendo vestígios de porcos-do-mato; os cervídeos são pouco representados assim como os peixes; encontramos sobretudo tatus e roedores (sendo por vezes difícil saber quais foram caçados e quais moravam no local); a alimentação vegetal parece ter sido abundante, e, por causa disto, os homens de Lagoa Santa apresentavam uma frequência de cárie raramente observada em populações de caçadores e excepcional para um período tão remoto. Verificou-se também a frequência de paradas de crescimento entre os jovens (diagnosticadas através da radiografia de ossos longos), talvez devido a problemas alimentares sazonais; algumas fraturas e problemas de saúde foram diagnosticados, como lesões inflamatórias com periostites e osteomielites graves.

“A mortalidade das crianças até quatro anos de idade era grande e a esperança de vida, bastante reduzida; de modo geral, a saúde da população parece ter sido delicada, talvez em razão do isolamento genético em que se encontrava, manifesto pela grande homogeneidade das características epigenéticas.”

  1. Os primeiros ensaios.

O cultivo de plantas alimentares e a domesticação de animais teriam sido iniciados nesses acampamentos semipermanentes.

A princípio, de modo facultativo e inspirado no que se observava ao redor – e.g., germinação e crescimento de plantas a partir de sementes caídas no entorno do acampamento. Mais adiante, além da imitação, já por meio de ensaios deliberados, frutos do conhecimento acumulado e das tradições culturais de cada grupo. (Nesses ensaios, é de se presumir que imitação e tentativa e erro tenham sido os métodos mais usados.)

Após uma fase inicial de transição, a agricultura permanente foi adotada por muitos grupos de caçadores-coletores. O fardo aumentou – a lida diária de cuidar da terra é bem diferente da lida de quem vive do extrativismo. Em compensação, aumentou o controle que os seres humanos exerciam sobre a disponibilidade de recursos alimentares.

Com acesso a um suprimento alimentar mais previsível e controlável, certas restrições foram minimizadas ou mesmo superadas. As taxas de mortalidade, por exemplo, foram refreadas. E isso teve duas implicações radicais: (1) Os grupos se tornaram maiores; e (2) O perfil demográfico dos grupos mudou.

  1. Mudanças demográficas.

O aspecto mais importante dessas mudanças foi o aumento que houve na densidade populacional. Uma área que até então suportava grupos nômades compostos por não mais do que 50 indivíduos, agora era capaz de sustentar uma população sedentária cujo tamanho era uma ou duas ordens de grandeza maior – i.e., 500 ou 5.000 indivíduos.

Nas palavras de Ponting (1996, p. 76-7):

“Durante aproximadamente dois milhões de anos, os seres humanos viveram da colheita, do pastoreio e da caça. Depois, no espaço de tempo de alguns milhares de anos, emergiram para um modo de vida radicalmente diferente, baseado em importante alteração de ecossistemas naturais, objetivando a produção de grãos e de pasto para os animais. Esse sistema de produção de alimentos mais intensiva foi desenvolvido separadamente em três regiões importantes do mundo – o sudoeste da Ásia, a China e a América Central – e marcou a transição mais importante da história humana. Como esse sistema oferecia quantidades muito maiores de alimentos, tornou possível a evolução de sociedades estabelecidas, complexas e hierarquizadas e um ritmo de crescimento muito mais acelerado da população humana. Há cerca de 10.000 anos, antes da evolução da agricultura, a população mundial era de aproximadamente quatro milhões de habitantes, aumentando muito lentamente até chegar a cinco milhões por volta de 5.000 aC.”

Outra mudança demográfica digna de nota foi o aumento que houve na expectativa de vida.

Nas palavras de Wallace (1980, p. 180-1):

“Todo mundo sabe que na maior parte de nossa história as pessoas viveram, em média, até a madura idade de 30. Por exemplo, há indícios de que o homem de Neanderthal vivia uma média de 29,4 anos; o homem Paleolítico Alto, 32,4 anos; e o homem Mesolítico, 31,5 anos. Os seres humanos da Idade do Bronze chegavam aos 38 anos e mesmo na Grécia e Roma clássicas as pessoas só viviam uma média de 35 e 32 anos, respectivamente. Nos Estados Unidos, no início do século [século 20], as pessoas viviam mais ou menos até a idade de 48 anos. Só a partir de 1950 é que aumentamos nossa duração de vida provável para cerca de 70 anos, o tempo concedido pela Bíblia.

“Então, a Bíblia estava predizendo a duração de nossa vida? Ou estava meramente registrando-a? Talvez esta última seja a verdade. Há alguns indícios de que, nestes milhares de anos, nós não aumentamos realmente nossa longevidade projetada. Nem mesmo com a medicina moderna. Aumentamos meramente nossa média de duração provável de vida. […]

“Antigamente, porém, muita gente morria quando ainda restavam numerosos bons anos em seus relógios biológicos. Acidente e doença levavam muitos dos moços. […] Como uma pessoa jovem tinha alta probabilidade de morrer a qualquer tempo, 30 anos era a média da duração de vida provável. Mas isso tudo significa simplesmente que tantas pessoas viviam até os 60 anos quantas morriam na primeira infância. Havia pessoas velhas naquelas antigas cavernas espanholas. Havia velhos imprestáveis manquitolando no Senado romano. As populações humanas sempre tiveram um grande segmento de pessoas velhas.”

  1. O advento da agricultura permanente.

Em seus primórdios, a agricultura primitiva ainda não era capaz de produzir alimentos de sobra. Os estoques reguladores – quando havia algum – eram pequenos e mal davam para alimentar o grupo até a próxima colheita [3].

Em outras palavras, não havia excedentes que pudessem ser usados para sustentar indivíduos dedicados apenas e tão somente ao trabalho intelectual. Todos ou quase todos os membros do grupo deviam se empenhar em algum tipo de trabalho manual. A única divisão significativa tinha a ver com o sexo – e.g., homens caçavam, enquanto as mulheres coletavam e processavam frutos e raízes [4].

Afinal, o que teria impulsionado a Revolução Agrícola?

Mais especificamente, que fatores teriam levado nossos ancestrais a trocar o extrativismo grátis por um sistema de cultivo trabalhoso, culminando então com a adoção de uma agricultura permanente? Diferentes respostas têm sido propostas.

Eis o comentário de Romeiro (1998, p. 24-5):

“A passagem da produção agrícola baseada em sistemas de cultura itinerante para uma produção baseada em sistemas de cultura permanente na Europa do Norte foi objeto de vivas controvérsias. Uma das mais importantes opunha, de um lado, aqueles que viam a expansão demográfica como a variável independente na evolução dos sistemas agrários; de outro lado, aqueles para os quais a força motriz principal do processo de mudança era a introdução do progresso técnico, independentemente da expansão demográfica.

“Os partidários da primeira corrente partem do que consideram um fato: a produtividade tanto da terra quanto do trabalho nos sistemas de cultura itinerante era superior àquela obtida com os sistemas de cultura permanente que lhes sucedem. Tratar-se-ia, portanto, da passagem paradoxal de um sistema superior para um sistema inferior. Efetivamente, a pressão demográfica parece ser a única força capaz de obrigar os agricultores a trabalhar mais para obter menos. Segundo Boserup (1970), a pressão demográfica obriga os agricultores a trabalhar cada vez mais porque esta é a única maneira de aumentar a produção quando não há outros recursos que aqueles disponíveis no espaço agrário. Somente a partir da revolução industrial, quando a indústria passa a fornecer à agricultura fontes exógenas de energia e outros insumos, é que se torna possível aumentar simultaneamente o rendimento da terra e a produtividade do trabalho agrícola.

“A segunda corrente abriga autores para os quais a evolução dos sistemas agrários até a revolução industrial não foi, como supõe Boserup (1970), uma sucessão de sistemas com produtividade do trabalho decrescente. Para autores neomalthusianos, como Grigg (1974), os sistemas agrários evoluem devido à introdução autônoma de inovações tecnológicas, um processo que seria inerente à curiosidade e capacidade inventiva do homem. Essas inovações, por sua vez, elevam a produção de alimentos per capita, o que tenderia a acelerar o crescimento demográfico. Assim a pressão demográfica seria o resultado e não a causa da evolução dos sistemas agrários.”

A história da agricultura, como se vê, tem facetas intrigantes, ainda que nem todas sejam igualmente controversas [5]. Para citar outro exemplo, caberia mencionar as controvérsias que existem a respeito dos conflitos envolvendo o controle social dos excedentes. Mas isso já seria assunto para outra ocasião.

*

Notas.

[*] O presente artigo (assim como outros dois publicados anteriormente – ver Livros, lentes & afins e Por que a Terra é esférica?), foi extraído e adaptado do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (em processo de conclusão; título provisório). Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os quatro livros anteriores do autor – para justificativas e detalhes, ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Apud Hardin (1967). O comentário do biólogo estadunidense Marston Bates (1906-1974) foi extraído do livro Where winter never comes (Scribner, 1952). Para exemplos de povos contemporâneos igualmente ‘atrasados’, ver Diamond (2001).

[2] Os sambaquis seriam um exemplo – ver Souza (1999). Para detalhes e discussões, ver Tenório (1999) e Silva & Rodrigues-Carvalho (2006).

[3] Como tentei mostrar anteriormente, houve um longo período de transição. Grupos de caçadores-coletores são se converteram em agricultores da noite para o dia. Ademais, os dois estilos de vida conviveram durante muito tempo.

[4] Para detalhes técnicos e um contraexemplo recente, ver Haas et al. (2020).

[5] Sobre a agricultura brasileira, especificamente, eis o comentário de Romeiro (1998, p. 101; adaptado): “As características de mais de quatro séculos de desenvolvimento agropecuário no Brasil podem ser assim resumidas: de um lado, grande sucesso comercial das culturas de exportação e, de outro, escassez relativa de gêneros alimentícios, exploração predatória da natureza, escravização da mão-de-obra seguida de precárias condições de acesso à terra e de emprego. Escassez relativa de alimentos e excedente estrutural de mão-de-obra num país com a maior área agrícola do mundo (quatro vezes a área agrícola chinesa).”

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Referências citadas.

+ Bronowski, J. 1979 [1973]. A escalada do homem. SP, Martins Fontes & Editora UnB.

+ Diamond, J. 2001 [1997]. Armas, germes e aço. RJ, Record.

+ Haas, R & mais 9. 2020. Female hunters of the early Americas. Scientific Advances 6: eabd0310.

+ Hardin, G, org. 1967 [1964]. População, evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp.

+ Ponting, C. 1995 [1991]. Uma história verde do mundo. RJ, Civilização.

+ Prous, A. 1999. As primeiras populações do estado de Minas Gerais. – In: Tenório (1999).

+ Romeiro, AR. 1998. Meio ambiente e dinâmica de inovações na agricultura. SP, Annablume & Fapesp.

+ Silva, HP & Rodrigues-Carvalho, C, orgs. 2006. Nossa origem: O povoamento das Américas. RJ, Vieira & Lent.

+ Souza, SMFM. 1999. Anemia e adaptabilidade em um grupo costeiro pré-histórico: uma hipótese patocenótica. – In: Tenório (1999).

+ Tenório, MC, org. 1999. Pré-história da Terra Brasilis. RJ, Editora UFRJ.

+ Wallace, RA. 1980. Sociobiologia: O fator genético. SP, Ibrasa.

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1 comentário

  1. Me alembrei do Rousseau:

    “O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: ‘Isto é meu’, e encontrou pessoas bastante ingênuas para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: ‘Livrai-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra, de ninguém!'”.

    “A partir do momento em que um homem precisou do auxílio de outro, a partir do momento em que se aperceberam ser útil a um só possuir provisões para dois, a igualdade desapareceu, a propriedade introduziu-se, o trabalho tornou-se necessário, e as vastas florestas transformaram-se em campos vicejantes que foi preciso regar com o suor dos homens, e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria germinar e crescer com as colheitas”.

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