Filme “Bacurau” perde no cabo de guerra forma versus conteúdo, por Wilson Ferreira

Este “Cinegnose” preferiu assistir ao filme com um público não-cinéfilo, que refletiu a derrota no cabo de guerra forma X conteúdo (a crise brasileira) para o maniqueísmo e soluções mágicas do gênero fílmico

Filme “Bacurau” perde no cabo de guerra forma versus conteúdo
Por Wilson Ferreira

De um lado as atrizes Sônia Braga e Bárbara Colen. E do outro Udo Kier, ator notório nos gêneros gore e nazi-exploitation. De um lado a urgência da dupla de diretores Mendonça e Dornelles em expressar a atual crise sócio-política brasileira. Do outro, as demandas dos cânones do gênero para o mercado internacional. O aclamado filme “Bacurau” (2019) já foi suficientemente analisado, dissecado e, principalmente, sobrecodificado como um libelo libertário em tempos de obscurantismo. Porém, é necessário ver “Bacurau” por ele mesmo, como narrativa fílmica. E, principalmente, como o público não-intelectualizado interpreta o filme. Por isso, este “Cinegnose” preferiu assistir ao filme no circuito Spcine em um CEU de São Paulo, com um público não-cinéfilo. E o público refletiu a tensão entre forma (os cânones do gênero) e conteúdo (a crise brasileira) – a derrota no cabo de guerra forma X conteúdo para o maniqueísmo e soluções mágicas do gênero fílmico. Catarse da punição dos “políticos corruptos”, desvalorização da política e a “pílula mágica” que faria o povo sair da letargia é o que ficou na recepção de “Bacurau” para o distinto público. Para dialogar com o filme “Bacurau” é necessário também assistir ao filme cearense “O Clube dos Canibais”, produção que venceu esse cabo de guerra: luta de classes e “capitalismo gore”.

O filósofo alemão Hegel dizia que a coruja de Minerva só levantava voo ao entardecer, numa alusão à esperança de que a Razão sempre ganha força e levanta voo em momentos de crise e obscurantismo.

E no Brasil, ao lado das corujas, quem também levanta voo é o bacurau, pássaro de hábitos noturnos. Ao contrário da coruja que possui garras e bico fortes para capturar presas como tradicional ave de rapina, o bacurau conta apenas com os seus voos acrobáticos e ágeis.

“Não é um passarinho, é um pássaro!”, reage um dos personagens ao pouco caso que uma suposta turista faz à ave que dá nome a uma pequena cidade no oeste de Pernambuco no aclamado filme Bacurau (2019).

Ao lado das lendas sertanejas e indígenas que cercam esse predador noturno, é mais um elemento de um filme que, até aqui, já foi super interpretado, analisado, dissecado etc. E não é para menos: Bacurau quer dar ao espectador um trabalho extra de descompactar seu subtexto, que parece densamente protegido por multicamadas de alusões, referências. Sejam dos cânones de gêneros cinematográficos que se misturam, sejam simbolismos ou alusões políticas do Brasil atual.

                  Alusões de um quadro político obscurantista, em crise. Mas se Hegel imaginava a coruja de Minerva como alegoria da Razão que nos salvaria, os co-diretores Kleber Mendonça e Juliano Dornelles imaginam o acrobático bacurau.

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Corujas e bacurais

Essa comparação que esse humilde blogueiro quer fazer entre corujas e bacurais, não é meramente estética. Entre as duas aves há uma distância entre dois espíritos do tempo bem diversos – lá nos séculos XVIII-XIX a crença na Razão como caminho para superarmos a barbárie. Enquanto aqui no início desse século, o niilismo pós-moderno – a descrença na política, a crise da democracia, polarização e a perda de sentido em qualquer solução política mediada.

Em cada sequência, Bacurau passa um senso de urgência pelo acúmulo de alusões e projeções futuras de um país destroçado: dentro de uma casa vazia vemos na tela da TV uma transmissão ao vivo de execuções públicas no Vale do Anhangabaú em São Paulo, num indício de que a pena de morte tornou-se constitucional e show televisivo; ruínas de uma escola municipal à beira de uma estrada de terra na qual vemos caixões espalhados; um alto-falante faz a contabilidade final dos mortos após a batalha contra os inimigos, listando os nomes das vítimas do povoado de Bacurau, entre elas “Marielle Franco” e “Maria Letícia”…

Futuro e presente se fundem, criando uma atmosfera hipo-utópica – projeta-se no futuro de forma hiperbólica as mazelas do presente. Na verdade, o futuro não existe, é apenas uma tela paródica ou cínica do presente.

É nesse ponto que o cinema de gênero no qual tenta se inscrever Bacurau vai criar uma tensão entre forma e conteúdo. Logo na primeira cena temos uma alusão de gênero: o caminhão cheio de caixões é uma referência ao Por um Punhado de Dólares (1964), clássico western espaguete de Sergio Leone – estratégia narrativa para preparar o espectador para a violência que está por vir.

Iconografias do gore (cabeças decepadas ou explodidas por tiros de bacamarte), sci-fi (um drone que pode ser um disco voador ou vice-e-versa) e realismo fantástico compõem as incursões de Bacurau no cinema de gênero.

                  Por isso, Mendonça e Dornelles inventaram uma cidade para servir de alegoria ultracínica. Uma espécie de Sucupira de “O Bem Amado” de Dias Gomes, traduzido por um meta-pastiche do gore de Tarantino ou Robert Rodriguez – não há como ao final do filme deixarmos de pensar: “aqueles gringos mexeram com os nordestinos errados. Assim como em “Machete”, o “mexicano errado” é o pesadelo dos vilões gringos que não sabem com quem se meteram.

Essa é a questão central a ser discutida em Bacurau: a urgência política que furiosamente tenta se sobressair em Bacurau, parece ser contida ou mesmo ressignificada pelos cânones de gênero – cuja origem está no maniqueísmo construído pelo conflito dos três polos: os turistas norte-americanos que pretendem se divertir num safari humano, o povo unido de Bacurau e um prefeito corrupto.

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Tensão entre forma e conteúdo. Problema da qual escapa outra produção nordestina ao mesmo tempo de gênero e com forte crítica social: O Clube dos Canibais (2018) do cearense Guto Parente – elite cearense, luta de classes e terror gore no qual o prato principal dos ricos são os subalternos das suas casas e empresas.

Para discutirmos essa questão central em Bacurau (a tensão da forma versus conteúdo), será necessário um diálogo entre esses os dois filmes.

O Filme

Estamos no “oeste de Pernambuco daqui a alguns anos”, como nos informa a narrativa. Teresa (Bárbara Colen) retorna a Bacurau para o velório de sua mãe, Carmelita (Lia de Itamaracá), uma inspiradora matriarca querida na cidade.

                  Bacurau é uma cidade que teve o seu progresso limitado por um prefeito corrupto, Tony Júnior (Thardelly Lima) que represou o suprimento de água potável. Diante da indiferença dos moradores que se trancam nas suas casas, Tony Jr. ainda tem a cara de pau de vir pedir votos para sua reeleição, em troca de um caminhão cheio de livros para a escola (livros num basculante que são despejados como lixo) e mantimentos com prazos de validade vencidos.

Os primeiros sinais de que algo de anormal está ocorrendo começam a aparecer: o professor descobre que a cidade desapareceu de todos os mapas e imagens de satélite on line. Logo depois, a médica Domingas (Sônia Braga) descobre entre os mantimentos “doados” pelo prefeito, remédios de tarja preta que parecem simples analgésicos. Mas na verdade, são ansiolíticos para deixar todos na cidade “lesados”.

Um casal de motoqueiros forasteiros (Kerine Teles e Antônio Saboia) passa pela cidade, causando desconforto em todos, porque um pouco antes os moradores descobrem que ocorreu uma inexplicável chacina que vitimou toda a família de uma fazenda nas proximidades.

Um violeiro toca um repente entre tom agressivo passivo e ironia, causando desconforto nos forasteiros que saem da cidade. O que deixa claro para o espectador que a união e resistência serão as armas daquela gente para vencer os inimigos – é o clima geral de resistência presente em produções anteriores como O Som ao Redor e, principalmente, Aquarius.

O filme torna-se cada vez mais sinistro com a chegada do caminhão pipa com água potável com furos de tiros, fazendo vazar o precioso líquido. E cadáveres em série nas sequências posteriores, (incluindo crianças) e mais dois moradores mortos por estarem no lugar errado na hora errada.

Até aqui, o filme foca principalmente nos moradores de Bacurau, suas interações e flashs da história local proporcionadas pelas fotos das épocas do cangaço, presentes no museu da história da cidadezinha. E, principalmente, no retorno de Teresa e em Domingas, mostrando seu cotidiano como médica da pequena cidade.

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                  Tudo muda quando entra em cena Michael (Udo Kier), o líder do grupo de turistas que está naquela região em busca de adrenalina e excitação: participar de um safari humano para assassinar seres humanos por puro esporte. “Tecnicamente, não estamos aqui”, afirma Michael para o grupo, garantindo que o mundo não saberá da sádica disputa que terá início. Aliás, Bacurau nem mais existe nos mapas…

A partir desse ponto, Mendonça e Dornelles optam pelo cinema de gênero: a dupla Teresa e Domingas perde a relevância na narrativa para as ações e linhas de diálogo serem monopolizadas por Michael. Udo Kier é um ator conhecido e veterano no gênero gore e nazi exploitation no mercado cinematográfico.

Na verdade, a narrativa não escolhe um personagem central ou uma heroína, como esperamos: os moradores respondem coletivamente, com a ajuda de Lunga (Silvero Pereira), uma espécie de cangaceiro/líder de milícia fora da lei. Escondido da polícia, resolve voltar à cena para enfrentar os yankees assassinos.

A tensão forma versus conteúdo – alerta de Spoilers à frente

Quanto mais a narrativa avança, mais vamos percebendo a tensão entre os cânones do gênero e a urgência do conteúdo sócio-político que a dupla quer expressar. Alguns focos dessa tensão narrativa:

(a) Há um claro maniqueísmo: o cínico Michael e o grupos de norte-americanos sedentos por tiros e adrenalina versus a comunidade unida de Bacurau – um povo simples, puro, com personagens folclóricos como o violeiro. De um lado a tradição popular (porém, mediada por celulares e tablets usados na escola pelo professor), e do outro a tecnologia militar com drones e GPS.

Não há diferenças ou estrutura de classes. Há apenas os vilões (o ex-nazista Michael, que resolveu se tornar um mercenário) e o prefeito corrupto que sufoca Bacurau. Estranho para um filme tão incensado pela esquerda: não há luta de classes ou contradições.

Diferente de Clube dos Canibais: um filme gore, mas que foge do maniqueísmo ao representar o canibalismo como a metáfora da própria luta de classes brasileira.

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