Por que o crédito é tão caro no Brasil?
Artigo 1 — O empresário, o banco e o mistério dos juros brasileiros
por Maurício Martinelli Luperi
Imagine dois pequenos empresários.
O primeiro está nos Estados Unidos. Precisa de recursos para comprar matéria-prima, recompor estoques e atravessar os dois meses que separam a produção do recebimento das vendas. Procura seu banco, mas também pode consultar uma cooperativa de crédito, um fundo especializado, antecipar recebíveis ou recorrer a outras formas de financiamento empresarial.
O segundo está no Brasil. Sua necessidade é exatamente a mesma: pagar fornecedores, salários e despesas correntes até que o dinheiro das vendas entre no caixa.
Ele também encontra algumas portas.
Pode procurar um banco, uma cooperativa, uma fintech, uma empresa de fomento mercantil, um fundo de direitos creditórios ou uma securitizadora. Pode descontar duplicatas e antecipar recebíveis.
As alternativas existem.
A diferença é que, no Brasil, elas são mais estreitas, menos profundas e, muitas vezes, insuficientes para atender de forma estável às necessidades de financiamento das pequenas e médias empresas. O banco continua sendo a porta principal — e frequentemente a única capaz de oferecer volume, continuidade e uma relação financeira mais ampla.
Nos Estados Unidos, há um verdadeiro sistema de alternativas. No Brasil, existem diversas portas, mas a bancária ainda ocupa o centro do corredor.
É nesse ponto que começa o mistério dos juros brasileiros.
Por que um empresário brasileiro paga tanto mais para obter capital de giro do que um empresário americano?
Por que uma família brasileira encontra juros tão elevados no cartão, no cheque especial, no crédito pessoal e no financiamento de veículos?
E por que essa diferença permanece tão grande mesmo depois de décadas de modernização bancária, digitalização, aumento da concorrência e crescimento das fintechs?
É essa investigação que faremos ao longo desta série.
O crédito caro não atinge apenas o consumidor
O debate sobre juros bancários costuma ser apresentado como um problema do consumidor endividado.
Evidentemente, ele é.
Quem precisa financiar uma emergência, parcelar uma compra ou recorrer ao cartão conhece diretamente o peso dos juros.
Mas o crédito caro também é um problema da produção.
Uma empresa não recebe necessariamente no mesmo momento em que paga seus custos. Ela compra matérias-primas, forma estoques, paga salários, impostos, energia e transporte antes de receber integralmente por suas vendas.
O dinheiro que cobre esse intervalo é chamado de capital de giro.
Quando seu custo é elevado, a empresa reduz estoques, adia investimentos, corta contratações, aumenta preços ou simplesmente deixa de produzir.
O empresário brasileiro, portanto, não enfrenta apenas um banco caro. Ele enfrenta uma estrutura financeira que torna caro o próprio ato de produzir.
O que significa spread bancário?
A expressão parece técnica, mas a ideia é simples.
O spread bancário é a diferença entre quanto custa o dinheiro para a instituição financeira e quanto ela cobra para emprestá-lo.
Imagine que um banco capte recursos pagando 12% ao ano e conceda um empréstimo por 30%. A diferença entre essas taxas representa, de maneira simplificada, o spread.
Isso não significa que toda a diferença seja lucro.
Dentro do spread estão os custos administrativos, os tributos, as perdas esperadas com inadimplência, as exigências regulatórias, o custo de capital, a remuneração da instituição e outros componentes.
A controvérsia começa justamente aqui.
Qual é o peso de cada parcela?
Os juros são altos porque o brasileiro não paga suas dívidas? Porque os impostos são elevados? Porque os bancos são concentrados? Porque recuperar garantias é difícil? Porque o governo se endivida demais?
Ou todas essas explicações deixam de fora uma questão mais profunda: a forma como o sistema financeiro brasileiro foi organizado?
Crédito livre e crédito direcionado, sem economês
Para compreender essa discussão, é preciso esclarecer duas expressões muito utilizadas pelos economistas.
O chamado crédito livre é aquele em que bancos e outras instituições definem as taxas e as condições da operação de acordo com suas políticas comerciais e avaliações de risco.
O crédito livre engloba modalidades bastante diferentes entre si. Nele estão desde o cheque especial e o cartão de crédito, que possuem algumas das maiores taxas da economia, até o crédito consignado, cujo desconto em folha reduz significativamente o risco de inadimplência e, por isso, permite juros mais baixos. O elemento comum é que essas operações não pertencem ao sistema de crédito direcionado, sendo as condições de financiamento definidas pelas instituições financeiras dentro das regras gerais do mercado.
Já o crédito direcionado segue regras específicas ou utiliza fontes criadas por políticas públicas.
É o caso de parte do crédito habitacional, do crédito rural e dos financiamentos do BNDES.
Em geral, essas linhas possuem objetivos determinados, prazos mais longos ou taxas inferiores às encontradas no crédito livre.
O problema é que boa parte das necessidades cotidianas das empresas e das famílias depende justamente do crédito livre, no qual as taxas brasileiras atingem os níveis mais elevados.
Existem outras portas no Brasil
Seria errado afirmar que o financiamento empresarial brasileiro se resume aos bancos.
As empresas de fomento mercantil, conhecidas como factorings, compram recebíveis e antecipam o dinheiro que uma empresa teria a receber no futuro.
Uma indústria, por exemplo, pode vender seus produtos a prazo, receber duplicatas de seus clientes e repassá-las a uma empresa de fomento, que antecipa parte dos recursos mediante um desconto.
Também existem FIDCs, fundos que compram direitos creditórios; securitizadoras, que transformam recebíveis em títulos; cooperativas de crédito; fintechs e plataformas digitais especializadas.
Essas alternativas cumprem uma função importante, principalmente no financiamento de curto prazo.
Mas antecipar uma venda já realizada não é a mesma coisa que financiar um novo investimento, ampliar uma fábrica, adquirir máquinas ou sustentar um projeto de longo prazo.
Muitas dessas operações resolvem o caixa do mês. Não necessariamente financiam a transformação produtiva dos próximos anos.
É essa diferença que separa um sistema com instrumentos financeiros de um sistema financeiro verdadeiramente profundo.
O que significa profundidade financeira?
Profundidade financeira não significa apenas possuir uma bolsa de valores ou registrar grande número de transações.
Um mercado profundo oferece vários instrumentos, diferentes prazos, ampla base de investidores e alternativas reais para empresas de portes distintos.
Nos Estados Unidos, grandes empresas podem emitir títulos de dívida. Empresas médias encontram fundos de crédito, mercados de recebíveis, bancos regionais e outros intermediários. Há também um amplo mercado de securitização e títulos de curto e longo prazo.
Isso não significa que o sistema americano seja perfeito.
Ele é concentrado, gera crises, possui áreas pouco reguladas e exclui muitos consumidores e empresas. A crise financeira de 2008 mostrou com clareza os riscos de um sistema excessivamente baseado em securitização e inovação financeira.
Mas sua diversidade oferece aos tomadores mais opções.
No Brasil, o mercado de capitais cresceu, mas ainda é pouco acessível para a maior parte das pequenas e médias empresas. Emissões de debêntures, notas comerciais e outros títulos concentram-se nas grandes companhias, que possuem escala, reputação, garantias e estrutura jurídica para acessar investidores.
Para o empresário menor, a fonte predominante continua sendo o crédito bancário, a antecipação de recebíveis ou alguma forma de financiamento de curto prazo.
Há várias portas, portanto. Mas poucas levam ao financiamento estável e de longo prazo.
A concentração bancária é parte da explicação
O sistema bancário brasileiro é concentrado.
Poucas instituições possuem grande participação nos depósitos, no crédito, nos serviços e nos meios de pagamento.
Essa concentração pode reduzir a pressão competitiva sobre as taxas cobradas. Mas ela não explica tudo.
Os Estados Unidos também possuem grandes conglomerados financeiros e passaram por um forte processo de consolidação bancária.
A diferença está no ambiente ao redor dos bancos.
Nos Estados Unidos, uma empresa que considera caro o crédito bancário pode, dependendo de seu porte, procurar outros investidores e instrumentos.
No Brasil, as alternativas são muito mais limitadas.
A concentração bancária torna-se mais poderosa quando atua em conjunto com a baixa profundidade financeira.
O problema, portanto, não é apenas o tamanho dos bancos, mas a dificuldade de escapar deles.
E a inadimplência?
A explicação mais repetida para os juros brasileiros é a inadimplência.
Os bancos afirmam que precisam cobrar mais dos bons pagadores para compensar as perdas provocadas pelos que não pagam.
Esse raciocínio possui fundamento.
Quanto maior o risco de não receber, maior tende a ser a taxa exigida no empréstimo.
Mas existe uma pergunta que costuma ser evitada.
A inadimplência causa juros altos ou os juros altos também provocam inadimplência?
Uma empresa pode deixar de pagar porque seu negócio fracassou. Mas pode também deixar de pagar porque o custo financeiro tornou sua dívida impossível de sustentar.
Uma família pode se endividar por falta de planejamento. Mas pode igualmente se tornar inadimplente depois que juros elevados multiplicam rapidamente o valor devido.
Nesse caso, a inadimplência não seria apenas uma causa do spread. Seria também uma de suas consequências.
Esse será um dos temas do próximo artigo.
Quando a Selic entra na história
Até aqui, tratamos das relações entre bancos, empresas, consumidores e mercados.
Mas há uma personagem que organiza todo o sistema financeiro brasileiro: a taxa Selic.
A Selic é a taxa básica definida pelo Banco Central. Ela influencia a remuneração dos títulos públicos, o custo de captação das instituições financeiras e as demais taxas praticadas na economia.
Quando a Selic é elevada, os títulos públicos oferecem uma remuneração alta, líquida e relativamente segura.
Para bancos, fundos e investidores, torna-se muito atraente aplicar em papéis públicos. Para emprestar a uma empresa, assumir risco e imobilizar recursos, a remuneração exigida será ainda maior.
A Selic, portanto, não atua apenas como custo de captação. Ela funciona também como referência de rentabilidade.
Por que uma instituição emprestaria a uma pequena empresa por uma taxa baixa se pode obter retorno elevado em títulos públicos com menor risco?
Essa comparação entre o crédito produtivo e a remuneração financeira será central nos artigos seguintes.
O que dizem os economistas
A discussão sobre spreads bancários não é nova.
Na literatura internacional, Thomas Ho e Anthony Saunders mostraram como bancos estabelecem suas margens entre captação e empréstimos.
Joseph Stiglitz e Andrew Weiss demonstraram que o mercado de crédito possui uma característica peculiar: elevar a taxa de juros nem sempre resolve o problema do risco. Em certos casos, juros maiores afastam os bons tomadores e atraem projetos mais arriscados, levando os bancos a restringir o crédito.
Anthony Saunders e Liliana Schumacher estudaram as margens bancárias em diferentes países. Aslı Demirgüç-Kunt, Harry Huizinga, Thorsten Beck e Ross Levine analisaram como competição, regulação e estrutura financeira influenciam o crédito e o desenvolvimento econômico.
No Brasil, Eduardo Nakane, Rita de Cássia Afanasieff, Márcio Lhacer, Fernando Koyama e técnicos do Banco Central investigaram o papel da inadimplência, dos impostos, dos compulsórios, dos custos administrativos e da concentração bancária.
São contribuições fundamentais.
Mas há outra tradição que coloca a estrutura macroeconômica no centro da análise.
Luiz Carlos Bresser-Pereira, Yoshiaki Nakano, José Luis Oreiro, João Sicsú e economistas pós-keynesianos e desenvolvimentistas associam os juros elevados ao funcionamento mais amplo da economia brasileira, à política monetária, ao baixo investimento e à predominância dos interesses financeiros.
Keynes já havia mostrado que a taxa de juros não é apenas o preço que equilibra poupança e investimento. Ela reflete a preferência pela liquidez e as convenções construídas em ambientes de incerteza.
Hyman Minsky, por sua vez, demonstrou que o sistema financeiro não é um simples canal neutro entre poupadores e investidores. Ele altera o comportamento das empresas, dos bancos e da economia.
É nesse encontro entre as explicações bancárias e a estrutura macroeconômica que esta série pretende avançar.
Quatro peças do mesmo quebra-cabeça
O Brasil reúne quatro características que se reforçam mutuamente.
A primeira é uma taxa básica de juros historicamente elevada.
A segunda é um mercado financeiro pouco profundo para a maioria das empresas.
A terceira é a concentração do sistema bancário.
A quarta é uma dívida pública historicamente marcada pela indexação à taxa básica e pela forte influência dos juros de curto prazo.
Nenhuma dessas características explica sozinha o custo do crédito.
Juntas, porém, criam uma arquitetura na qual empresas e famílias dependem fortemente de intermediários financeiros justamente em um ambiente que oferece uma remuneração elevada para aplicações líquidas e de baixo risco.
O resultado é conhecido.
O dinheiro encontra facilidade para circular no próprio sistema financeiro, mas chega caro à produção e ao consumo.
A pergunta desta série
Ao longo dos próximos artigos, investigaremos se os spreads bancários brasileiros decorrem apenas da inadimplência, dos impostos, dos custos administrativos e da concentração bancária.
Ou se existe uma questão mais profunda: a forma como o sistema financeiro brasileiro foi organizado em torno da política monetária, da dívida pública e da remuneração da riqueza financeira.
Não partiremos da ideia de que os bancos são os únicos culpados.
Tampouco aceitaremos a conclusão de que o custo do crédito é apenas consequência inevitável do risco brasileiro.
O objetivo será compreender como cada elemento se combina.
O problema do crédito brasileiro não está apenas nos bancos.
Está na forma como organizamos todo o sistema financeiro nacional.
Nos próximos artigos
No Artigo 2, abriremos a caixa-preta do spread bancário. Veremos quanto corresponde à inadimplência, aos tributos, às despesas administrativas, aos custos regulatórios e à margem financeira. Também discutiremos se a inadimplência é apenas causa ou também resultado dos juros elevados.
No Artigo 3, analisaremos como a Selic se transmite ao crédito e aos juros de diferentes prazos. Entrará em cena o papel das LFTs, títulos públicos indexados à taxa básica, e a contribuição de Yoshiaki Nakano para mostrar como essa estrutura reduz a separação entre os juros curtos e longos. Também examinaremos a observação de José Luis Oreiro de que esse mecanismo tende a tornar a curva de juros brasileira mais “flat”, ou seja, mais achatada e dependente da taxa de curto prazo.
No Artigo 4, compararemos essa estrutura com a dos Estados Unidos. Mostraremos por que a taxa do Federal Reserve influencia, mas não determina automaticamente, os juros de longo prazo, e como a profundidade do mercado financeiro americano oferece mais alternativas de financiamento.
No Artigo 5, colocaremos em diálogo as principais interpretações nacionais e internacionais sobre os spreads bancários.
No Artigo 6, reuniremos as evidências para discutir uma hipótese mais ampla: a de que o crédito caro é também uma manifestação da dominância financeira, da autonomia capturada do Banco Central e de uma estrutura econômica que remunera melhor a liquidez do que o investimento produtivo.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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