Complexidade econômica e desenvolvimento, por Rodrigo Medeiros

Complexidade econômica e desenvolvimento

por Rodrigo Medeiros

Lançado recentemente pela editora Contraponto e pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, o livro “Complexidade econômica”, de Paulo Gala (FGV-EESP), descreve, a partir de relevantes referências bibliográficas e inovação metodológica, o processo de desenvolvimento. Destaca-se o “Atlas da complexidade econômica” como valiosa ferramenta para o entendimento da riqueza das nações. 

Disponível online para consultas, o “Atlas da complexidade econômica”, de César Hidalgo (MIT) e Ricardo Hausmann (Harvard), usa o big data e a ciência das redes para mostrar como aquilo que um país efetivamente exporta é relevante na determinação da renda média e do nível de desigualdade doméstica (aqui). Em síntese, o avanço da complexidade econômica, compreendida como a diversidade exportadora ponderada pela não ubiquidade, gera desenvolvimento, alta produtividade e ainda está fortemente correlacionado com menores desigualdades sociais.

A estrutura produtiva determina as possibilidades de produtividade e desenvolvimento em um país. Segundo afirma Gala, “não há caminho possível para o desenvolvimento econômico sem que se busque sofisticar o tecido produtivo. Todos os países ricos são complexos e sofisticados e todos os países pobres são não complexos e não sofisticados”.

Entre os fatores que ajudam a construir complexidade, destaca-se o nível do câmbio real. De acordo com Gala, “o nível de câmbio real tem papel fundamental na dinâmica macroeconômica de longo prazo, pois influi na determinação da especialização setorial da economia, notadamente no que diz respeito à indústria e à produção de bens complexos”. O câmbio tem efeito na dinâmica da produtividade e na viabilização do avanço da complexidade econômica.

No que diz respeito à estagnação da produtividade no Brasil, o livro aborda o nosso processo de desindustrialização precoce a partir de meados da década de 1980 e como a nossa complexidade econômica regrediu desde 1994. O fim do ciclo expansionista baseado em commodities, crédito e consumo demanda respostas consistentes com o país melhor que um dia desejamos ser.

Paulo Gala fornece diagnóstico qualificado e propostas equilibradas para um novo ciclo de desenvolvimento. Sua perspectiva macroeconômica está inserida no novo desenvolvimentismo, que vem sendo debatido nos últimos anos. Para interessados em desenvolvimento e política industrial, o livro é leitura necessária.

Desafios contemporâneos 

Desde antes da eclosão da grave crise financeira global, a partir de setembro de 2008, é possível afirmar que o mal-estar difuso já se fazia presente em diversas sociedades. Entre os analistas desse complexo e turbulento tempo, destacam-se os sociólogos Richard Sennett e Zygmunt Bauman. Do ponto de visa das análises econômicas mais conservadoras, até o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu, bem recentemente, que há motivos objetivos para tanto.

Segundo o FMI, o 1% mais rico ganhou dos “outros 99%” em termos de crescimento da renda nos últimos trinta anos nos países desenvolvidos (aqui). O FMI afirma ainda que os salários não têm acompanhado a produtividade em muitos países nas últimas três décadas, algo que levou ao declínio relativo da participação do trabalho na renda nacional. O progresso técnico e a integração comercial global respondem por esse processo, sendo que as pressões sociais por políticas voltadas para “dentro” crescem nas economias avançadas.

No interregno da crise vigente, vem se desmanchando no ar tudo o que parecia razoavelmente sólido. A educação é questionada no presente em diversos aspectos e, entre os debates globais sobre o tema, a perspectiva da Quarta Revolução Industrial se destaca. Crescentes automações de atividades e usos da inteligência artificial desafiam os mais diversos campos da vida humana.

O Brasil está inserido na divisão internacional do trabalho. Nesse sentido, conforme pondera o economista Paulo Gala, a desindustrialização prematura brasileira e a sua inserção econômica primário-exportadora é preocupante. O emprego industrial na Grã-Bretanha atingiu um pico de 45% pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas já atingiu o pico no Brasil, Índia e China, com uma participação de não mais de 15%. Atualmente, os processos de fabricação industrial estão mais automatizados do que costumavam ser. Sem empregos na indústria de transformação para construir uma classe média, observa Tyler Cowen, da Universidade George Mason, os países não desenvolvidos “podem ter elevada desigualdade de renda em suas estruturas econômicas fundamentais” (aqui).

Segundo aponta um estudo da consultoria McKinsey, a metade dos postos de trabalho no Brasil poderia ser automatizada, 53,7 milhões de um total de 107,3 milhões (aqui). O setor mais sujeito ao processo de expansão da automação é a indústria, com 69% dos postos. Essa questão é global e o seu avanço depende de as tecnologias se tornarem relativamente mais baratas do que a mão de obra, do dinamismo do mercado e da aceitação social. Formuladores de políticas públicas nos países em desenvolvimento deveriam estar mais atentos ao assunto.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

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