Dilma pede desculpa pelo que não fez, por J. Carlos de Assis

Dilma pede desculpa pelo que não fez e renega o que deveria ter feito

Por J. Carlos de Assis

A esmagadora maioria da população brasileira que nada sabe de economia não deve ter entendido patavinas do pedido de desculpa da Presidenta em relação a erros eventualmente cometidos por seu Governo, entre os quais um excesso nas políticas anticíclicas. A pequena fração dos que sabem o que é política anticíclica não deve ter entendido nada. Dilma pediu perdão por um pecado que não cometeu. E tratou como pecado a única iniciativa econômica que teria de alguma forma salvado seu Governo até aqui,  e que pode salvá-lo no futuro.

Comecemos pelas definições básicas: O que é uma política anticíclica? Tecnicamente, é uma política de expansão de gastos públicos deficitários e de moeda e crédito na recessão, e de sua contenção nos períodos de boom. Por quê? Porque na recessão o Estado deve gastar mais do que arrecada para estimular a demanda, o investimento privado e sobretudo o emprego. No boom, a manutenção do gasto público num patamar elevado e crescente provavelmente provocaria um superaquecimento da economia e inflação de preços.

O Governo petista promoveu uma política anticíclica em 2009 e 2010, sob protesto silencioso dos neoliberais e ortodoxos. Silencioso porque, embora contrariando a doutrina neoliberal, essa política tinha o respaldo das maiores economias do mundo reunidas no G-20. Nas reuniões desse Grupo em Washington, Londres e Pittsburg em 2008 e 2009,  a recomendação unânime foi a de que se adotassem políticas de expansão fiscal e monetária a fim de contrabalançar os terríveis efeitos financeiros e econômicos da crise de 2008.

O Governo Lula seguiu fielmente o consenso do G-20. Em 2009 e 2010 o Tesouro liberou para o BNDES 180 bilhões de reais com os quais o banco sustentou o financiamento dos setores privado e público, garantindo a retomada da economia num ritmo célere. Em 2010, tivemos um crescimento quase chinês: 7,5%. Só os neoliberais ficaram nervosos com isso porque não suportavam a ideia de uma economia dando certo fora de suas cartilhas ideológicas, que garantiam que nosso potencial de crescimento estava abaixo de 4%.

Em meados de 2010 houve uma quarta reunião do G-20 em Toronto, no Canadá. Alemanha de Merkel, França de Sarcozy e Grã-Bretanha de Cameron tomaram o controle da situação e impuseram ao resto da Europa e a grande parte do mundo, exceto os Estados Unidos, o que chamaram de “políticas de saída” – isto é, saída do estágio de expansão fiscal-monetária. Os Estados Unidos, diga-se de passagem, ficaram contra essa retração. E deram o exemplo: a expansão fiscal americana em 2009 atingiu 1,4 trilhão de dólares e, em 2010, 1,3 trilhão (9 a 8% do PIB).

Não por acaso a economia norte-americana foi a primeira a recuperar-se, entre os ricos, e as economias do sul da Europa foram as primeiras a afundarem porque estavam sob o garrote da moeda e do BCE únicos, que não lhes permitiam  políticas expansivas. A Alemanha sabia o que estava fazendo em seu exclusivo interesse: sendo uma economia exportadora, e favorecida pela desvalorização do euro desde a renúncia ao marco, tinha e continua tendo a imensa vantagem de uma expansão monetária “natural” decorrente de seus imensos superávits comerciais. Aí, então, deve-se perguntar: por que seguimos a Alemanha e não os Estados Unidos?

A resposta é simples: os neoliberais assumiram o comando no coração mesmo do Governo Lula e, depois, no Governo Dilma. Portanto, a Presidenta não precisa de desculpar-se de ter feito políticas anticíclicas, porque não fez. Agora, olhando para a frente, ela poderá reanimar a nação não tanto com discursos ambivalentes mas com uma virada decisiva em favor de uma política anticíclica para valer. Se quiser um modelo, posso dar imediatamente: assuma o Projeto Requião, que é um caminho para a recuperação da Petrobrás, da cadeia produtiva do petróleo e da economia como um todo. Igualzinho o que os progressistas norte-americanos recomendariam caso também eles não nos impusessem opções ideológicas.

J. Carlos de Assis –  Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo.

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16 comentários

  1. Concordo com J. Carlos de

    Concordo com J. Carlos de Assis. O Brasil precisa se mover, precisas de ações positivas, indutoras e não cortes (imagine ainda pensar na educação, saúde e programas sociais):  “na recessão o Estado deve gastar mais do que arrecada para estimular a demanda, o investimento privado e sobretudo o emprego”.

    Dilma acorda!!! (podendo iniciar lendo o post de ontem do Nassif:”Para Dilma ouvir e pensar”). 

  2. Ao invés de ver o governo tentando

    mudar de rumo econômico, o que vemos é quase que uma chantagem feita diariamente anunciando mais aumento de impostos e cortes em programas sociais para transferir recursos nossos para pagar juros da selic. Uma vergonha criminosa!!!! 

  3. Desculpe., caro Assis, pela

    Desculpe., caro Assis, pela ousadia de, como leigo, questioná-lo, sendo o senhor autoridade no assunto, e mais, progressista de carteirinha. Mas minha impressão, como leigo, repito, é que a Dilma no primeiro mandato tentou um governo ainda mais expansionista, anit-neoliberal do que o de Lula.

    Pego como exemplo a queda de braço com os bancos na questão dos spreads. A questão é que perdeu a batalha por inabilidade política, daí foi paulatinamente sendo “enquadrada” pela turma. Esperava-se que com a vitória em 2014 crescesse politicamente, mas parece que entrou num éspecie de altismo, talvez estimulado pelos péssimos assessores que a cercam, Mercadante a frente

  4. O problema da presidenta

    O problema da presidenta Dilma,hoje,é muito menos a oposição do que a situação.

    Parece que no jogo do convencimento os golpista oposicionistas estão ganahndo de 10 a zero.

    Nossa presidenta,na falta de unidade de sua base de apoio (refiro-me ao povo e não a base parlamentar,movidas por outros interesses) fica sendo obrigada a constantemente dar declarações desencontradas.

    É hora da presidenta ter tranquilidade para governar.Para isso,todos aqueles 54 milhões de votos,que foram um voto de confiança,precisam fazer valer suas vozes e,novamente,dar um voto de confiança a presidenta. Não dá para cada um ficar achando isso ou aquilo. Infelizmente,diante da situação,é hora de apoio irrestrito a presidenta,ao Brasil e a democracia.

     

  5. A grande discussão sobre o

    A grande discussão sobre o discurso atual do Governo Dilma passa pela incapacidade (pasmem, em Setembro de 2015, já faz quase 13 anos que o PT chegou ao Poder e Dilma caminha para 5 anos no cargo de Presidenta) de perceber como agem os meios de comunicação tradicionais do Brasil. 

    Eles, a velha mídia, agem de maneira binária. A presidenta Dilma faz A eles dizem que o certo é B, ficam sempre em posição contrária em tudo o que o Governo Federal faz na quadra atual. 

    Não sei a razão de se querer amoldar discursos, de tentar qualquer conciliação com esses (de)formadores da opinião pública. 

    Diga o que vai fazer e faça, sem ouvir essas vozes. Faça o que a maioria da população gostaria que se fizesse e ponto final. Deixa eles irem contra, deixa os congressistas irem contra. 

    Faça. Ficar refém dos meios de comunicação tradicionais para quê?

    Eles são as 24 horas do dia oposicionistas e não vão apoiar o Governo Dilma jamais. Nem com o Levy de Ministro da Fazenda. 

    Na hora que o Governo Federal e o PT se livrarem de dar satisfação, de amoldar o discurso pensando em um respiro diante da velha mídia, que nunca virá, o Brasil deslancha. 

    Precisa de apoio para Governar? Vá buscar nos seus eleitores! São 54 milhões de votos e não nos seus inimigos diários e que sonham em encurtar o caminho das eleições para ver se conseguem assumir o Poder do jeito que der, mesmo que destruíndo com nossa Democracia.  

  6. Cadeia de petróleo? Hã?

    Uma das razões de estarmos nessa pindaíba é exatamente o excesso de investimento na cadeia do petróleo, em um momento em que esta commodity atinge suas menores cotações em muitos anos. É lógico que o pré-sal tinha que ser e vai ser explorado, mas isso deveria ser feito em um ritmo muito mais paulatino, e sem todas as amarras que foram impostas à Petrobras quanto a conteúdo nacional, que aumentaram o custo da exploração e provocaram a alocação de recursos em setores que agora não conseguirão sobreviver devido às condições desfavoráveis do mercado. Se fossem investimentos eminentemente privados, apesar de triste sabe-se que é do jogo. No entanto, trata-se de dinheiro público que foi queimado como óleo em todo o processo, na forma de financiamentos subsidiados, mecanismos de preferência nacional (que invariavelmente provocam aumento nos custos para quem compra), entre outros.

    O fato é que o país precisa de uma queda consistente na taxa SELIC (e, para isso, na inflação). Prosseguir e ampliar financiamentos subsidiados só vai adiar a necessária correção nos juros que afetam todo mundo, não apenas um grupo de setores privilegiados.

  7. Peçam pra sair!

    Texto bem didatico, digno de um bom professor. Vamos torcer para que alguém do Planalto leia isso e indique a presidenta. Parece que la pela Fazendo e BC estão todos perdidos, sem saber se recuam, se continuam, se acodem a criança ou se pedem pra sair!

  8. Não adianta fazer esse

    Não adianta fazer esse discurso “presidencial” que não identifica com clareza os adversários. Ainda mais com esse papinho de mea culpa  quando está todo mundo esperando um sinal da “montanha”, do “oráculo”. A oposição está em campanha aberta até agora! Sequer aceitaram resultado das eleições! Como esse governo ainda insiste em não fazer a sua propria campanha, me deus?

    Não é possivel que não entendam que não vão sair do xeque se não apontarem o dedo pra oposição que quer melar o jogo e ganhar no tapetão. Foi assim que a então caandidata Dilma reverteu o jogo na campanha eleitoral. Não aprendem, não, é?

    Quem não se defende apanha. Quem não sabe bater não deve entrar em briga.

  9. Belo apanhado do que aconteceu

    Mas não resolve em nada o nosso problema, pois nem imprimimos Dólar ou temos industria de ponta com superavits monstros.

    Falar que o Plano Requião é a solução, rimou, não indica que é o certo, cadê o plano para que possamos avaliá-lo?

    Por aqui, na minha humilde opinião, o que dá para fazer e acho que é o certo, seria colocar a casa em órdem, começando com uma reforma ministerial que tivesse por escopo dotá-los de  humildade, compaixão e economia. Para isto, nada melhor do que o plano metafísico com base em um diamante que atribui univocamente obrigações, deveres e responsabilidades a cada uma das pastas, com isto, teríamos um salto quântico na operacionlidade da máquina pública com reflexos a curtíssimo prazo na sociedade brasileira.

    De quebra, com objetvos claros e temporalmente exequíveis, ganhariamos apoio da população, o que deixaria o congresso muito mais permeável e dócil.

    A Dilma não faz porque não quer. Vontade política só.

    Acorda, Dilma!

  10. Poderiamos fazer um movimento popular?

    Colocando as organizacoes e as comunidades;

    As associacoes e explicando.

    Muito bom.

    O senador Roberto Requião anunciou nesta quinta-feira (13), no plenário, que vai apresentar projetos de lei para que a Petrobrás retome os investimentos e recupere toda a extensa cadeia econômica do petróleo, hoje em crise, em função da operação Lava Jato e dos cortes no orçamento da estatal. Requião lembrou que a Petrobrás é responsável por parte substancial do PIB brasileiro e que sua paralisia afeta fortemente a economia nacional, jah em recessão.

    Requião lembrou que na crise mundial que explodiu em 2008, o Brasil amorteceu seus efeitos quando o Tesouro Nacional liberou 100 bilhões de reais, em 2009, e mais 80 bilhões de reais, em 2010 para que o banco aplicasse no setor produtivo. Graças a isso, em 2019, o Brasil cresceu mais de sete porcento, enquanto a Europa e os Estados Unidos amargavam números negativos.

    A mesma coisa pode ser feita agora, argumentou o senador. Nesse sentido, ele vai apresentar projeto de lei ao Senado.

    Requião comunicou também que vai propor a incidência de imposto de renda sobre lucros e dividendos, isentos por Fernando Henrique Cardoso, o que permite à pequena parcela de brasileiros pagar menos imposto de renda que os assalariados. Esse imposto, lembrou, existe em todos os países civilizados. E caso existisse, arrecadaria boa parte do que o chamado “ajuste Levy” pretende amealhar, sacrificando principalmente os trabalhadores.

    Veja a seguir vídeo com o discurso do senador Roberto Requião.

     [video:https://www.youtube.com/watch?v=vNlt6ivm4nM%5D

  11. Vendendo o jantar para pagar o almoço

    Ninguém precisa entender de economia para saber que quando se vende o jantar para pagar o almoço, almoça-se e fica-se sem jantar.

    Foi o que o governo fez em 2010: torrou 180 bilhões para provocar um crescimento chinês e garantir a eleição de Dilma, e agora estamos pagando a conta. Simples, não?

    Na recessão, o governo não deve gastar mais do que arrecada, e mais uma vez ninguém precisa entender de economia para saber porquê: pergunte a seu porteiro ou a sua faxineira se quando eles estão sem dinheiro, por acaso eles acham que a solução é gastar ainda mais do que quando eles estão com dinheiro.

    Quanto a Requião, está apenas jogando para a platéia. É claro que seu projeto não vai ser aprovado pelo senado, e se fosse não seria exequível, mas ele pode dizer que fez a proposta e foram os malvados neoliberais (seja lá o que isso quer dizer) que não deixaram. É assim que funciona o populismo. Depois o povo chora que foi enganado, mas é preciso convir que aos que desejam o impossível, apenas os mentirosos são capazes de satisfazer.

  12. “Se quiser um modelo, posso

    “Se quiser um modelo, posso dar imediatamente: assuma o Projeto Requião, que é um caminho para a recuperação da Petrobrás, da cadeia produtiva do petróleo e da economia como um todo.”

    Tenho uma singela pergunta: com que dinheiro??? A Petrobras está na pindaíba, o país em vias de perder o grau de investimento, com consequente aumento dos juros para captação externa. Fico imaginando quem o professor acha que o governo deve tungar desta vez.

  13. J
    Sua definição  de política

    J

    Sua definição  de política anticiclica  é   um caso  da definição  genérica. 

    Você considerou  que o ciclo natural  fosse  uma resposta  keynesiana. 

    E  governo atuando  com dose excessiva seria como se fosse uma política anticiclica. 

     

    Minha leitura foge de sua tentativa glamourosa  de anticiclismo  que você publiciza 

    A crise atual não se relaciona a doses diferentes das variáveis econômicas. 

    Maior problema  foi a  prática e não   qualquer   teoria.

    Como o governo do PT  tem a incumbência  de se manter no  poder, a execução   dessas ‘ políticas anticiclica ‘ foi influenciada por essa perspectiva.

    Os programas sociais foram executados sem nenhum   freio ou  controle.

    O que importava era gerar impactos mediático. 

      

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