4 de junho de 2026

O golpe de 2016 e a atualidade do Padre Vieira, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Quando cá chegaram os holandeses encontraram quem lhes deu guarida. Não foram poucos os traidores da Coroa portuguesa que ajudaram o invasor batavo, mediante paga, a controlar as coisas e as gentes da Colônia. Sobre estes disse o Padre Vieira:

“Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!” http://www.bocc.ubi.pt/pag/vieira-antonio-contra-armas-holanda.pdf

Um pouco adiante diz ele:

“Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: “Oh! Nunca nós passáramos tal rio!”. Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa Divina Majestade que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas! Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi e não ventura; possuí-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê, nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores; para lhe lavrarmos as terras, para lhe edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da Fé, dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros! “Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos!” http://www.bocc.ubi.pt/pag/vieira-antonio-contra-armas-holanda.pdf

O Brasil está sendo tirado das mãos dos brasileiros. Uma presidenta eleita de forma legítima foi deposta por defender a brasilidade do nosso petróleo. Em troca de prestígio e de propinas, aqueles que chegam ao poder tudo querem entregar à ganância do invasor financeiro norte-americano e europeu. As semelhanças entre o passado e o presente são evidentes.

A espada e a cruz forjaram em Pindorama um país sem igual. A espada que servia para subjugar os índios foi por eles também empunhada contra o invasor holandês. A cruz que destruiu as culturas dos nativos também lutou para abrandar os espíritos dos colonos possibilitando o convívio na diferença. Até a língua portuguesa cá se tornou mestiça. Na encruzilhada do mundo, assim nasceu um Brasil cristão e pagão, português e indígena, branco e moreno, que em nada se parecia com a Europa.

Entre os europeus, o contrato entre Deus e os homens submetia os povos à vontade imperiosa e misteriosa da divindade. Cá, até mesmo Deus podia ser repreendido quando abandonava a terra e as gentes nas mãos dos hereges:

“Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entrega ilhes as Espanhas (que não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido); entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.”  http://www.bocc.ubi.pt/pag/vieira-antonio-contra-armas-holanda.pdf

Na fase atual estas palavras do Padre Vieira não poderiam ser dirigidas a Deus, pois o criador morreu no século XIX. A certidão de óbito dele foi assinada por Friedrich Wilhelm Nietzsche, não por acaso o filósofo preferido nos círculos infernais dos jornalistas que defendem o golpe de estado em curso. A religião que predomina no Brasil não é mais a católica. O dinheiro é o verdadeiro Deus cultuado nos templos dos evangélicos e nas agências bancários daqueles que detestam a soberania popular. A fé que construiu a nação foi substituída pelo Estado que se quer desnacionalizado e controlado mais pela maçonaria internacional do que pelo povo brasileiro.

Michel Temer, José Serra, Aloysio Nunes, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Romero Jucá, Anastásia, Gilmar Mendes, Marta Suplicy, Sérgio Moro e centenas de outros tiranetes que emporcalham o Congresso Nacional e o Poder Judiciário é que merecem receber a reprovação à divindade contida no sermão do eloqüente jesuíta. Foram eles que, ousando se considerar divindades acima dos brasileiros e do Brasil, resolveram romper a legalidade para entregar o país e tudo que nele há de valor aos estrangeiros. Ao contrário de Deus, porém, eles são feitos de carne, veias e sangue correm o risco de sangrar na nova guerra civil.

A guerra contra os holandeses foi também uma guerra civil, pois aqueles que se aliaram ao invasor tiveram que ajustar as contas com os brasileiros antes e depois deles serem expulsos do país. O mesmo irá ocorrer em relação àqueles que entregam o nosso petróleo como se pudessem dispor daquilo que privativamente não lhes pertence. E como bem disse o Padre Vieira:

“Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa.” http://www.bocc.ubi.pt/pag/vieira-antonio-contra-armas-holanda.pdf

Não sou cristão, mas não tenho vergonha de invocar a religião neste momento. De fato seria capaz até mesmo de invocar os demônios da Colônia se eles nos ajudassem a derrotar o golpe e aqueles que o arquitetaram fora do país. 

A Bahia salvou o Brasil dos holandeses e conservou o país nas mãos dos nossos antepassados. Somente aquele Estado poderá nos livrar da traição e do mesmo mal que se renova se apossando da nação. 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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8 Comentários
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  1. mcn

    16 de agosto de 2016 12:24 pm

    Disse tudo, Fábio!

    Disse tudo, Fábio!

  2. ze sergio

    16 de agosto de 2016 1:45 pm

    o golpe…

    O Brasil é uma conversa de surdos ou uma conversa de doidos? Impedir a entrega de nossa soberania aos interesses estrangeiros? Não era este o discurso deste povo progressista de centro esquerda que haviam sido cassados e caçados pela ditadura militar? A teoria de uma vida inteira produzida por ensinamentos na fonte do saber dos próprios professores Sartre, Simone, das discussões aprimoradoras dentro da UNE, da nova politica aprendida nas salas da USP, da UNB nas décadas de 1960, se transformaram nesta realidade dos anos de 1990 a 2020, implantadas por petistas mas principalmente por FHC, Serra, Covas, Aloisio Nunes e toda sorte de socialistas brasleros? Quem então devemos culpar por nossa tragédia e nosso destino? 

    1. mcn

      16 de agosto de 2016 3:01 pm

      Conta outra

      Os governos trabalhistas de Lula e Dilma NUNCA atentaram contra a Constituição Federal. Nunca foram entreguistas.

      Se consolidado o impedimento de Dilma SEM crime de responsabilidade, o atual governo interino se tornará inconstitucional. E golpista. E entreguista.

      1. Fábio de Oliveira Ribeiro

        16 de agosto de 2016 3:13 pm

        Excelente resposta. Faço
        Excelente resposta. Faço minhas suas palavras.

  3. mcn

    16 de agosto de 2016 3:55 pm

    TRAIÇÃO

    Relendo este post, me ocorreu que o impedimento de Dilma sem crime de responsabilidade, além de configurar um Golpe de Estado, traz a vergonhosa marca da traição à Pátria.

    O Golpe de 64, e a ditadura cruel que o sucedeu, nunca foi marcado pelo entreguismo, como o atual Golpe de 16. Os militares golpistas, desenvolvimentistas por formação, não expuseram o país à tamanha vulnerabilidade. A ditadura getulista também não foi entreguista.

    O atual governo interino, que poderia ser apenas um governo de transição, é de natureza essencialmente entreguista, porque é essencialmente corrupto. O governo de traidores, portanto.

    Os governos trabalhistas de Lula e Dilma honraram o projeto de nação exposto nos artigos de 1º a 5º da Constituição Federal. Diferente do atual governo interino, Lula e Dilma não tentaram impor ao país outra ideologia a não ser a que tem por fundamentos:

    I – a soberania;
    II – a cidadania;
    III – a dignidade da pessoa humana;
    IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
    V – o pluralismo político.

    Além do que está exposto no parágrafo único do artigo 1º: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      16 de agosto de 2016 3:58 pm

      Bem lembrado. 

      Bem lembrado. 

  4. L. Inacio K. Naia

    16 de agosto de 2016 6:23 pm

    Desespero vermelho usa até religião!!!

    1 – Portugueses como o padre-poeta (ou poeta-padre) Vieira eram CRISTÃO católicos, assim como os holandeses eram CRISTÃOS Protestantes. Neste seu ensaio tendencioso parece até que é CRISTÃO X MUÇULMANO…

    2-  “O dinheiro é o verdadeiro Deus cultuado nos templos dos evangélicos e nas agências bancários daqueles que detestam a soberania popular.” – Faltou assinalar que o Deus dinheiro tem muitos seguidores vermelhos (inclusive tesoureiros) no grande projeto de poder a qualquer custo. Felizmente, a maioria destes “religiosos” estão hoje na cadeia.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      17 de agosto de 2016 12:33 am

      Está é a sua maneira de dizer
      Está é a sua maneira de dizer que escolheu o lado dos mafiosos golpistas. Não reclame quando sua casinha for bombardeada.

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