Recessão e austeridade, por Rodrigo Medeiros

Recessão e austeridade, por Rodrigo Medeiros

Após a grande crise financeira de 1929, a década que se seguiu foi de preciosas lições para muitos estudiosos de diversos campos. De certa maneira, revivemos certos aspectos daqueles dilemas com o estouro da crise global de 2008, após a queda do Lehman Brothers. A resposta inicial conjunta de muitos países à crise foi no sentido de manter o nível da demanda agregada e evitar os efeitos adversos nos empregos e na produção.

Pouco tempo depois, iniciou-se um processo de forte “marcação” dos agentes financeiros sobre o avanço das dívidas públicas dos países e vivenciamos, desde então, o mantra da austeridade fiscal. Estamos repetindo o debate econômico da década de 1930 e ainda presenciando a emergência de extremistas e populismos. O desemprego elevado e persistente, a desesperança coletiva no futuro, as elevadas desigualdades e a irresponsabilidade social dos governos conspiram contra a democracia. Devemos, portanto, nos preocupar no Brasil. 

Em relação à interpretação da Grande Depressão, o conhecido economista ortodoxo Lionel Robbins romperia com a visão de Hayek, que havia adotado na crise, e o acusaria de interpretar equivocadamente o fenômeno. Mostrara-se enganosa a fórmula de que o mercado deveria, por si só, encontrar o seu nível a partir da depreciação dos investimentos “equivocados”, contendo o consumo e elevando taxas de juros para estimular a poupança. Segundo Robbins, aquela receita era “tão inapropriada quanto negar cobertores e estimulantes a um bêbado que caiu em um tanque gelado, com base em que seu problema original era superaquecimento”. Essa discussão pode ser encontrada no livro “Keynes x Hayek – as origens e a herança do maior duelo econômico da história”, editado pela Record.

Afinal, o Brasil abraçou a austeridade fiscal, com profundos cortes nos investimentos públicos, em decorrência da grave recessão iniciada em 2014. As reformas institucionais propostas no tempo presente sinalizam para a cristalização de históricas desigualdades sociais. De acordo com a Oxfam, os seis homens mais ricos do Brasil concentram a mesma riqueza que toda a metade mais pobre da população do país. 

No Brasil, as renúncias fiscais viraram lucros ou poupança na recessão, sendo que as firmas reduziram investimentos e custeio, algo que teve efeitos multiplicadores negativos na economia. A forte queda dos preços internacionais das commodities e a notoriedade da operação Lava Jato coincidem com o início da recessão brasileira. A sobrevalorização cambial crônica do real, inclusive nas perspectivas no horizonte, impede a necessária retomada de importantes setores comercializáveis. Nesse sentido, flexibilizar o mercado de trabalho, precarizando-o, e dificultar o acesso a aposentadorias e benefícios sociais não irão ajudar o Brasil a sair da crise.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) 

 

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