4 de junho de 2026

16 de novembro, dez horas


Foto: Reprodução

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Por Maíra Vasconcelos

O problema de sair com as malas sem deixar avisos, é que depois podem se dirigir a um quarto já vazio. E é feio deixar as pessoas falando sozinhas. É necessário dar ciao com antecedência. Mas não igual bobinho contando demais o tempo. Evite o tempo, também o tempo de chorar que é muito desgastante. Aquela coisa toda escorregadia nas vistas. Olhe ao longe longe.

Sim. Há um traço de melancolia no chão: pise e continue caminhando. Em algum momento chega-se ao respiro tranquilo-ofegante.

Em algum momento chega-se a. A ida para outra gaiola. Qual a sua gaiola preferida?

Somente as artes voam. Respirei melhor ao escutar os pianos de Monk, hoje, alguma coisa nascia enquanto eu pisava aqueles traços musicados: pise e continue caminhando.

Arrastar as malas pela sala, depois descer as escadas, preparar as pernas para que a firmeza se pareça. Tudo deve parecer, isso que é como ter um pouco de cortina,

um pouco de riso, um pouco de tudo, menos de sofridão. Uma mala já é tanto.

E fé também é outra coisa: é necessário saber-se feito de ossos
para ter fé.

A mala deve ser leve, pesar menos de 23 quilos na cinta do aeroporto, deve conter sapatos para as estações, um para cada tipo de folha, são apenas quatro sapatos,
pois.

Hora de dar ciao. Lá se vai ela, de novo, sem casa nenhuma achando que o céu,
as nuvens cobrem algo mais que o pensamento. Amanhã. Hoje continuarei
com minha paixão pelo piano. Porque o piano, para sair do lugar, é preciso
mão-de-obra especializada em complexidades fundas finas e moderais.

Não é como mala e corpo humano, isso que, se o vento se revoltar demais e soprar, voam longe. Já o piano pode sobreviver a um bombardeio,
se vê muito isso nos filmes de guerra.

 

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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