A presença dos ausentes, por Mariana Nassif

A presença dos ausentes, por Mariana Nassif

Meu pai vai casar, em Minas Gerais, enquanto eu me preparo para a iniciação no candomblé, processo com data de início prevista para amanhã, em Ubatuba.

É humana e financeiramente impossível estar lá ao vivo, compartilhando com a família, a nova família que se forma, a festa, a música, as alegrias – da mesma forma que é pra eles, inviável, estar aqui comigo neste também especial momento. Mas isso significa que estamos ausentes uns dos outros?

De forma alguma. Meu pai e minhas irmãs estão presentes em mim, no meu pensamento, na minha história, na trajetória toda que me trouxe até aqui. Minha filha, amor maior dessa vida e de tantas outras, só pode ser, pulsa nos meus mais profundos desejos de amadurecer, crescer, florescer neste período reclusa e, enfim, renascida, no Orixá. Minha mãe está aqui fisicamente e, acompanhando meus passos rumo a esta viagem incrível, ajuda a recordar o histórico de vida que culminou nesta escolha tão profunda.

Lá em Poços de Caldas, no casamento, estarei presente nas palavras que a Clara vai ler durante a cerimônia e, sei, tenho certeza, no coração de cada um. Minhas meninas, os amigos, a música… é fechar os olhos e perceber-me lá, partilhando as alegrias que eles escolheram partilhar, enquanto corro pra dar conta do que o tempo, o daqui da terra mesmo, insiste em atrasar: é saia pra ser engomada, caixas de comida e produtos de limpeza pra ser levada, posts a serem agendados e, se o Tempo, o do orixá permitir, encontrar amores e abraçar, abraçar, abraçar… tem, ainda, o Baile de Fandango que, se o sono permitir, vai me fazer amanhecer pela última vez como me conheço de frente pro mar, cercada de uma turma que é a minha, em casa.

Olha… a gente tem mesmo muitos problemas, nossa, quantas e quantas vezes não reclamamos, desejamos outras coisas, clamamos por novas oportunidades… Este momento aqui, agora, entretanto, já tem me ensinado algo que sempre escutei de gente querida em São Paulo e hoje, véspera de renascer, atesto: longe é um lugar que não existe, especialmente quando a gente faz e tem morada no coração de alguém.

Que Oxum, aquela que é bela e encantadora, derrame suas águas doces sobre minha nova família e que Iansã, a mãe para a qual me encaminho, sopre ventos de alegria e amor em você, pai, e na Eugênia. 

Axé!

(aqui, o texto que a Clara vai ler no casamento, daqui a pouquinho, antecipado com autorização da noiva!)

“Eugênia e meu avô, Luis, elegeram minha mãe, Mariana, para escrever estas palavras, alegando que ela é, no momento, uma das pessoas mais espiritualizadas da família. Minha mãe prefere pensar nisso tudo, inclusive na religiosidade, como um entusiasmo enorme ao amor. 

Segundo consta no imaginário coletivo, o amor é a força mais poderosa que existe. 

Estamos aqui – eu, Clara, Dora, Beatriz, Luiza e bebezinha na barriga dela, netas e filhas do Luis; Vinicius e Gabriela, filhos da Eugênia; todos e cada um de vocês, para celebrar o amor. 

Nesta teia permeada por laços e nós – por que o que seria da existência sem os desafios? Na insistência rotineira pela harmonia, desenvolvendo-nos um a um para, então, colaborar com o todo, nos reunimos em torno do propósito do amor, que também é respirar e encontrar motivos para celebrar. 

A comida, a bebida, a dança e música, os acordes da alegria. E os sonhos, claro, afinal o que seríamos sem eles? Apesar dos pés no chão, fincados em raizes questionavelmente seguras, uma nova família vem rodeada de sonhos. 

Que sejamos nós, os que partilham este momento, e os ausentes, aqueles que não estão fisicamente aqui, como nossos antepassados e minha mãe, presentes em amor, testemunhas e teias destes laços que nos transformam em nos – todos nós, a comemorar está união da melhor forma que pudermos, desejando que a realização dos sonhos da Eugênia e do Luis façam pulsar a força do que vale nessa vida, que há de ser a união de pessoas em torno do que traz felicidade genuína. 

É disso que este dia se trata e aqui firmamos nossa alegria por compartilhar com vocês nossa nova família: um conceito amplo, repleto de pessoas, nuances e dúvidas, mas certamente embasada na reunião do amor, esse curativo para todo e qualquer mal que apareça por ali e acolá. 

Que a gente dance, coma, beba e viva de acordo com este sentimento, de descobrir o amor para compartilhar o amor – isso já garante combustível suficiente para que os sonhos aqui plantados floresçam, felizes, e contaminem o dia a dia deste novo casal. 

E, finalizando, como diz a canção “o amor é a vontade de comer quando a fome passa”. Forte, firme e presente, saciado pela união.”

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