Crônica de uma morte acostumbrada, por Gilberto Maringoni

Com o fechamento do ministério da Saúde - destino que já tiveram as pastas do Trabalho, da Seguridade Social e da Cultura -, o coronavírus deixa de ser a nova praga e se torna plano de governo.

Crônica de uma morte acostumbrada

por Gilberto Maringoni

NÃO ENCONTRO EM MINHAS ESTANTES uma genial tira em quadrinhos de Inodoro Pereyra, desenhada por Roberto Fontanarrosa (1944-2007). El Negro, seu apelido, era torcedor fanático do Rosario Central, cartunista, cronista, jornalista e estava para a Argentina mais ou menos como Luís Fernando Veríssimo está para o Brasil. Inodoro é um gaúcho impávido e miserável. Na imensidão do Pampa, um visitante se aproxima e o surpreende pilotando uma cuia de mate à porta de seu casebre. Tudo é meio lerdo na cena.

– ¿Como estás, Don Inodoro?

– Malo, pero acostumbrao…

CORTA PARA BRASIL, JUNHO DE 2020. É possível que estejamos nos acostumbrando ou entrando algo aparentado com a “normalidade sofrente”, de que nos falava Cristophe Dejours, em “O trabalho entre o sofrimento e o prazer”. Não se trata de passividade ou conformismo, mas de um patamar a não ser perdido diante de uma situação de incertezas. Há muito de resignação e pouco de indignação entre os de baixo, cujas maiores e justas preocupações são comer, ter teto, proteger a família, não perder o emprego e sobreviver.

A torcida não é por melhoras; é para menos pioras. Se tudo se estabilizar na situação horrível de quase 1400 óbitos por dia, alguma lógica ainda pode ser mantida. Queremos uma espécie de bolha dentro da tragédia de 34 mil cadáveres, cifra que tende a dobrar em menos de um mês. O isolamento social – que já era precário – acabou no pico do contágio.

ENTRE A FOME EM CASA e a tentativa de se ter algo para almoçar ou jantar, quem nada tem vai às ruas. Não é fatalismo ou sina. Diante da ação deliberada do governo socialmente sádico que mantém um patamar considerável de aprovação, sair de casa é algo perfeitamente racional em seu sentido privado – a sobrevivência individual – e profundamente irracional em seu viés público – o descontrole pandêmico. Sem socorro estatal, não há intersecção entre as duas condições. O desespero manda.

Com o fechamento do ministério da Saúde – destino que já tiveram as pastas do Trabalho, da Seguridade Social e da Cultura -, o coronavírus deixa de ser a nova praga e se torna plano de governo. O descontrole aparente se revela seu inverso, o controle total. Todos morreremos um dia, não é verdade. Por que não agora?, ouve-se na saída do Planalto.

NÃO SE DEBATE A VIDA, MAS SEU PRAZO DE VALIDADE. A morte tem classe, tem cor e tem gênero, mas é inevitável, fazer o quê?, ouvimos aturdidos. No Exército aprende-se a matar, dizia o fracassado ex-capitão em 2017. O general da Saúde está lá para encaminhar o que também aprendeu com afinco em seus cursos militares, pelo que fala seu comandante supremo.

Contra a execução acostumbrada, contra o novo anormal, todas as forças são poucas. Todas as Marias – e todos os Mários – têm o dever inelutável de ir com as outras e outros. A meta é clara e complexa: acabar com algo que nos confunde, que blasfema contra o aborto e pela vida, mas dá de ombros ao genocídio sanitário. São uns tipos que pregam amor a Deus e se esforçam para que mais e mais brasileiros o encontrem o quanto antes.

POUCO IMPORTA SE AS MARIAS E MÁRIOS que nos acompanham nessa jornada específica nos xingaram ontem, nos praguejaram anteontem, tiveram tal ou qual projeto na semana passada, no mês anterior ou no último ano bissexto. O passado nada vale aqui. Conta – desculpem a aspereza da frase – a análise concreta da situação concreta, como ensinava antigo sábio oriental.

Não estamos numa praia gelada disputando uma partida de xadrez com a tétrica senhora, como numa cena de Bergmann. Não há ardis ou sutilezas. Há uma câmara de gás virótica em pleno funcionamento. Ela será destino inevitável se picuinhas seguirem no posto de comando.

ESSA MORTE NÃO FAZ JOGADAS sofisticadas antes do xeque-mate. Vem aos borbotões. Contra ela tudo é soma, tudo é adição, tudo é nóis, como se fala aqui na Zona Leste paulistana. Por favor, evitem marolas, evitem exclusivismos que só nos confundem, sabotam e atrapalham. E torna o abismo algo acostrumbrável.

Morte e Bolsonaro são uma única e indivisível coisa.

Tudo o mais fica para depois. Tudo, caralho!

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