Esboço para um conto em era de pandemia – II, por Gilberto Maringoni

O conhecimento foi perdido por volta de 2047, quando o último funcionário da Huawei foi infectado e teve de apagar as luzes e fechar as portas.

Esboço para um conto em era de pandemia – II

por Gilberto Maringoni

Casal está em quarentena. Há três gerações. Nasceram em casa, assim como seus pais. Nunca viram o mundo, a não ser pela janela. O sinal de internet pifou e ninguém mais, num raio de 40.075 quilômetros, que é a circunferência da Terra, sabe consertar ou tem a mais pálida ideia de como funciona. O conhecimento foi perdido por volta de 2047, quando o último funcionário da Huawei foi infectado e teve de apagar as luzes e fechar as portas. O vale do Silício desapareceu e com ele todas as nuvens virtuais. Dizem que cobras, jaguatiricas, ratos, pombos e baratas tomaram conta das ruas. A luz apagou. A mãe da mulher jura que ouviu dizer não sabe quando que em mais dois anos de pesquisas de um consórcio de cientistas americanos, chineses e marcianos chegará finalmente à vacina. As crianças estão entediadas. Já cavaram um buraco no chão, mas voltaram ao encontrarem as crianças do vizinho cavando em direção contrária. “Saiam daí, o isolamento tem de ser total!”, berrou o pai que há anos vaga pela casa de cuecas e meias e de vez em quando se senta diante da TV apagada e de vez em quando conversa com ela. Criaram galinhas na dispensa e ainda têm um pouco de comida cacarejando. Ninguém aguenta mais coxa, asa e ovo cru e o cheiro que vem de lá. O filho mais velho tirou há meses um tijolo da parede e começou a dar um jeito de rolá-lo pelo chão. No começo era difícil, até que os cantos foram se gastando e a rolagem ficou mais suave. Batizou o invento de “roda” e mostrou à irmã, que encontrara uma caixinha de madeira cheia de pequenas hastes também de madeira e cabeças vermelhas embaixo de um armário empoeirado e cheio de teias de aranha. “Inventei coisa melhor”, sorriu ela, enquanto atritava um objeto no outro, produzindo faíscas que logo alcançaram o armário, as cortinas, a casa, as outras casas, a vizinhança, o bairro, a cidade, o país e o mundo, que se consumiu por meses em calor, luz e gritos intensos. Depois, o nada.

O vírus se fora. Ela descobrira a vacina.

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