Lô Borges, a Nuvem Cigana que paira na Música Brasileira
“Uma canção tem cheiro e pode transportar
Uma fração de um tempo qualquer
Que a gente viveu num outro lugar…”
Quando ouvi esses versos de “Uma Canção”, parceria de Lô Borges e Ronaldo Bastos no disco “Nuvem Cigana”, eu tinha apenas 19 anos. A mesma idade de Lô quando trabalhava ao lado de Milton Nascimento e companhia na criação do álbum Clube da Esquina, um dos maiores discos de todos os tempos, não só da música brasileira, mas também da música universal.
Lô e Ronaldo Bastos foram proféticos nesse poema (recuso-me a denominá-la de letra de música), isto porque, ainda hoje aos 60 anos de idade consigo me transportar para o meu quarto na casa da minha família em Jataí, ao lado do Totonho e Manoel, ouvindo o disco que eu acabara de comprar em Goiânia e levara comigo para ouvir na companhia dos amigos queridos.
Estávamos encantados com todas as faixas do LP, mas quando a última música do lado B começou entrei numa espécie de êxtase na medida que ouvia cada verso seu. A música em questão era “Uma Canção”, para mim até hoje uma espécie de mantra.
Ali eu definitivamente era apresentado a Lô Borges. Reparem bem que até aquele momento eu ainda não havia adquirido o antológico disco “Clube da Esquina”, isto porque não existiam as facilidades que hoje o universo virtual nos proporciona.
Experimentei com Lô Borges e seu “Nuvem Cigana”, lançado em 1982, a mesma emoção que um anos antes eu senti quando, novamente ele, meu amigo Tupi, levou dez discos para ouvirmos naquele mesmo quarto porque o seu toca-discos estava quebrado.
Pra minha sorte Tupi acabou deixando seus discos comigo e dentre eles estava “Amor de Índio”, de Beto Guedes, lançado em 1979. Um detalhe relevante, a música que mais me tocou e me encantou naquele LP foi “Feira Moderna”, uma das raras parcerias entre Beto Guedes e Lô Borges, com uma letra/poema sensacional do Márcio Borges. Até hoje “Feira Moderna” é para mim uma das maiores composições da música brasileira.
“Nuvem Cigana” foi amor e encantamento à primeira audição.
Pela segunda vez na vida eu gostava de todas as músicas de um disco, o que só havia acontecido ao escutar “Amor de Índio”.
Além das músicas maravilhosas no LP, também me causou encantamento a pintura que vinha no seu encarte, criada pelo artista plástico mineiro Gilberto de Abreu, responsável por capas icônicas de álbuns da música brasileira, como a de “Sol de Primavera” do Beto Guedes.
E como é curiosa a vida. Cerca de 30 anos após este evento que mudaria minha relação com a música e a poesia, tive o prazer de entrevistar o próprio Gilberto em meu programa “Almanaque do Vinil”, ocasião em que pude escutar histórias deliciosas sobre sua trajetória e sobre esse encarte em especial, algo impensável para aquele garoto que se encantou com a música mineira lá em 1980.
Após ser arrebatado por “Nuvem Cigana”, passei a sonhar com os outros discos que Lô havia lançado. O mitológico “Disco do Tênis” era um sonho quase impossível, mas quem sabe o Via Láctea pudesse cair nas minhas mãos…
E foi num cair de tarde do início de janeiro de 1985, quando estava na loja Rei Discos na Rua 4, centro de Goiânia, garimpando vinis em busca de novidades que o imponderável aconteceu.
Ao meu lado havia um jovem “pilhado” e muito ágil na busca dos LPs. Não deu outra. De início ele retirou do lote o LP “Engenho Trapizonga”, do fabuloso Tavinho Moura. Quase tive um “troço” ali mesmo, ao ver o sujeito comemorar e separar o disco pra si.
-“Caramba, essas pérolas nunca chegam aqui em Goiânia e quando isso acontece dou o azar de ter ao meu lado alguém com o mesmo gosto musical que eu”, pensei. Em seguida ele retirou do lote o LP “A Via-Láctea”, de Lô Borges. Fiquei pálido, surpreso e certo de que ele também levaria o disco. Enfim, uma tragédia completa.
Já quase indo às lágrimas, escutei dele: “Esse eu já tenho. Você quer?” Creio que não preciso escrever a minha resposta.
Comprei o disco e fui correndo para o meu pequeno barraco no Setor Universitário ouvir aquele tesouro que eu havia encontrado. Foi uma loucura.

Em “A Via Láctea”, lançado em 1979, estão reunidos todos os aspectos que aficionados por discos de vinil mais apreciam, como a experiência auditiva e gráfica únicas que só este formato proporciona: o prazer de ouvir a agulha passar sobre o disco e ao mesmo tempo usufruir de uma obra de arte em mãos. Totalmente arrebatado por cada canção sua, havia ainda a arte da capa, contra-capa e o encarte únicos para apreciar. E eu nunca havia visto nada igual.
Trata-se de um disco belíssimo. Mencionarei aqui apenas duas músicas que, para mim, sintetizam a beleza e a riqueza da música de Lô Borges. Uma delas é “Equatorial”, outra rara parceria do Lô Borges e Beto Guedes com letra/poema de Márcio Borges. Toda vez que a ouço é como se estivesse ouvindo pela primeira vez tamanha a força dessa composição.
E imagino que o leitor que chegou até aqui e conheça o disco já saiba a que música irei me referir. Trata-se de “Clube da Esquina Nº 2”, claro, que me deixou entorpecido de tanta emoção. Esta sim uma composição a qual me concedo o direito de afirmar, sem medo de errar, que se trata de uma das dez maiores composições da música brasileira, com harmonia, melodia e letra/poema perfeitas.
Mas ainda há a belíssima interpretação de Lô que confere a essa versão algo mágico, sublime, divino. Definitivo.
E aqui vale uma outra curiosidade sobre ela.
A música que deu nome ao disco Clube da Esquina lançado em 1972 recebeu o título de “Clube da Esquina Nº 2, gravada originalmente apenas em uma versão instrumental. Já no LP “A Via-Láctea” a canção foi interpretada na sua versão com o belíssimo poema (recuso-me novamente a chamá-la de letra) escrita por Márcio Borges, numa espécie de yin e yang de uma música dos deuses.
A essa altura eu já havia completado 20 anos de idade e “Nada ‘seria’ como antes”.
Lô Borges e Beto Guedes estavam dando “régua e compasso” para formar “O Homem Velho” que hoje me tonei.
Lô, Beto e toda turma do Clube da Esquina: eu os amo profundamente!
E posso afirmar que Lô Borges viverá eternamente no meu coração, “posto que é carne”, então, “enquanto dure”.

Citações:
Entrevista com Gilberto de Abreu – Programa “Almanaque do Vinil” – Gilberto de Abreu, o artista plástico do Clube da Esquina – Edição 23.
“A Bahia já me deu régua e compasso…” – Aquele abraço – Gilberto Gil – LP Gilberto Gil (1969)
“Nada ‘seria’ como antes” – Nada Será Como Antes – Milton Nascimento/Ronaldo Bastos – Clube da Esquina (1972)
“O Homem Velho” – Caetano Veloso – Velô (1984)
“…Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure” – Soneto da Felicidade – Vinícius de Moraes – Publicado no livro “Poemas, Sonetos e Baladas”, editado em 1946.
Marquinho Carvalho (Marco Antônio Gomes de Carvalho) é formado em História pela Universidade Federal de Goiás, professor do Instituto Federal de Goiás, desde 1994, e militante na área cultural e ambiental. Foi secretário de cultura da cidade de Jataí-Goiás por dois mandatos, no período de 2009 a 2016. Criador da Rádio Web Boca Livre que está na rede desde 2005. Produtor e apresentador de 34 episódios do programa Almanaque do Vinil, dedicado à música brasileira lançada nos LPs, exibido na TV GGN. É pesquisador de música brasileira e “curador” de um acervo de discos de vinil também voltado para a música produzida no Brasil. Na área ambiental, foi o idealizador e mobilizador de um grupo de amigos que, no ano 2000, adquiriu uma área de 171 hectares de cerrado no sudoeste do Estado de Goiás para a criação da Reserva Ecológica Porto das Antas.
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