10 de junho de 2026

Nas mãos dos professores, a alma brasileira

Terezinha convocou assembleia de pais para discutir: que filhos queremos. A proposta vencedora foi da escola: queremos formar boas pessoas.
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Minha mãe formou-se na Escola Normal de Casa Branca. Era para ter sido professora. O casamento impediu e ela exerceu sua vocação preparando filhos para a vida.

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Das minhas 8 tias maternas, Clélia, Miriam, Marissa e Jane escolheram o magistério. Minhas primas-irmãs Rosa, Cristina e Terezinha também, assim como as primas de São Sebastião da Grama.

A lembrança de minhas primeiras professoras me acompanharam a vida toda, a começar por dona Nicolina, a severa proprietária da Escola 7 de Setembro. Muitos anos depois, dona Nicolina acompanhava meus pais para assistir os festivais de música que eu participava em São João da Boa Vista.

Minha primeira professora foi dona Suzel, que casou-se com um da família Reis. Namorados, eles iam ver a lua das escadarias da Igreja do São Benedito, em frente a minha casa. Nós, moleques de futebol de rua, nos encantávamos assistindo os pombinhos. Depois, veio dona Renilda Furquim, cuja família trabalhava nos Correios. No terceiro ano, dona Mara Fraga de Oliveira. No quarto, dona Neuzinha, filha da dona Encarnação, dona de pensão em Poços. 

Acompanhei, recentemente, as professoras mineiras de Guaranésia, no pior período obscurantista do país. Em pleno governo Bolsonaro, com o ódio e a revanche invadindo todos os lares, todas as praças, as professoras de Guaranésia, lideradas pela minha cunhada Ivone, saíam depois das aulas, de casa em casa, pregando a tolerância, condenando o ódio. Pelo menos lá o bolsonarismo perdeu.

Minhas duas tias, Miriam e Clélia, que se casaram com Bizons, de São Sebastião da Grama, permaneceram no magistério a vida toda, bem como tia Marissa. Tia Clélia, depois, mudou-se para São Paulo, mas fez uma escolinha na Vila Maria, que formou centenas de alunos, dentre os quais Celso Fernandes Campilongo, diretor da Faculdade de Direito da USP. Ela e a mãe de Campilongo se divertiam vendo como parecíamos, em um período em que eu também deixava barba.

Em Poços, a vocação familiar ficou com a tia Jane e, depois, com a prima Cecília, que também montou uma escola. E, pela mestra das mestras da família, a prima Terezinha Mesquita, que montou a Escola Criativa  Idade.

A escola foi um experimento tão interessante que mereceu teses na Pedagogia da UFMG. E encantou até o mestre Paulo Freire, frequentador de Poços.

Na partida, Terezinha convocou uma assembleia de pais para discutir: que filhos queremos. A proposta vencedora foi da escola: queremos formar boas pessoas.

A escola aceita crianças com deficiência. Quando uma delas é matriculada, Terezinha faz uma reunião com todos os coleguinhas, para que eles ajudem a definir quais brinquedos e brincadeiras são acessíveis ao coleguinha.

As aulas de Educação Física são ministradas por um congo de São Benedito. E, nas festas de São Benedito, a escola monta seu grupo para desfilar.

Todas elas ensinam as crianças a amar o país, suas cores, suas raças, suas festas. Ainda são símbolo maior de uma nacionalidade que a financeirização teima em destruir.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. Rosania Maria de Carvalho Abrantes

    15 de outubro de 2025 10:21 am

    Eu amo esses seus artigos, Nassif. Parece outro país esse de Guaranesia, da profesdora Terezinha. Queremos ressucitar esse país tao lindo narrado.

  2. Luiz Fernando Juncal Gomes

    15 de outubro de 2025 7:23 pm

    Minha professora do primeiro ano primário
    Dona Juracy Aparecida Juncal Gomes foi minha primeira professora, do primeiro ano primário (alfabetização), na Escola Isolada do Bairro Jardim Jussara, em Araçatuba (SP). Sim, minha mãe.
    Meu irmão mais velho, 1 ano exato de diferença (dia e mês), quando deu a idade minha mãe achou que não seria ético dar aula para o próprio filho. No final de 1960, vendo o que “tinham feito com o filho dela”, mandou às favas e falou que o erro não iria se repetir comigo.
    Assim, em fevereiro de 1961, com 6 anos e 3 meses, passei a ir à escola junto com a professora, de charrete que estacionava na porta de casa todo dia, parte do trajeto em ruas de terra. O charreteiro estacionava na porta da escola no “distante” bairro Jussara e esperava a aula terminar para a volta. Não raro, ficava além do horário dando aula de reforço aos alunos com dificuldades. Minha mãe queria que eu fosse o exemplo da classe, mas nisso ela falhou miseravelmente.
    Foram 32 anos de magistério sempre no primeiro ano primário, dizia que não queria alunos de “segunda mão”. Na única vez em que deu aulas para o segundo ano primário, arrependeu-se amargamente, e voltou para a missão de alfabetizar. Tinha isso no sangue.
    Com o terceiro filho foi o mesmo, primeiro pela mão dela. Exigentíssima e e severa, mas respeitada e querida por todos.
    Após 32 anos, os colegas prepararam uma festinha de despedida, e no seu discurso de despedida arrematou evocando o Vandré: “Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”.

  3. Marcos Alonso

    15 de outubro de 2025 10:31 pm

    Que bom que não tinha celular

  4. José de Almeida Bispo

    17 de outubro de 2025 7:25 am

    Maldita financeirização!
    De fato dinheiro de carteira de cigarro.
    Na infância, a criatividade vadeava à solta. Incluindo a de atribuir valores a notas formadas pelo papel das carteiras de cigarros. Salvo engano, na minha turma, a mais valiosa era o do Continental “com filtro”; a mais baixa, do cigarro Gaivota.
    De certo modo assisto preocupado a essa espiral de usura, eufemisticamente chamada financeirização. Qualquer tudo se revelará o que de fato é: RIQUEZA DE FUMAÇA.

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