O Professor ou O Refinamento da Arte de Tomar Pancada, por Jean Pierre Chauvin

Quase todos respeitam o que diagnostica a médica, corrige o mecânico, sentencia a juíza, sugere a manicure, capricha o cabeleireiro, recomenda o gerente de banco; quase ninguém admite a fala, compreende o lugar ou respeita o papel dos professores.

O Professor ou O Refinamento da Arte de Tomar Pancada

 por Jean Pierre Chauvin

O comandante com dois filhos. Dois moleques mimados,

manias de mandar na gente (João Antônio)

Imagino que a leitora, o leitor, tenham se consultado com médicas(os). Possivelmente, levaram o veículo à mecânica ou retífica, para reparos uma vez na vida. Eventualmente, escutaram, com máxima atenção, a sentença decretada por uma juíza, durante audiência no fórum. No primeiro caso, suponho que acataram as recomendações do médico e não duvidaram do diagnóstico. No segundo, lamentaram a necessidade de trocar peças do carro, mas deram crédito ao profissional. No terceiro, mantiveram o decoro e não ousaram questionar o juízo emitido.

Agora, se você não é bombeiro, juíza, dentista, médico, mecânico, tabelião de cartório, barista, marceneiro ou agente dos correios, pode ser que tenha calhado de se tornar professor(a). Se este é o seu caso, conte com a solidariedade deste pseudocronista, que persiste em lecionar há mais de vinte anos. Quantas vezes você disse ou ouviu alguém desabar que escolheu a profissão errada? Muitas, imagino. Mas, anime-se: talvez a responsabilidade não seja nossa.

Caso permitam o desplante, aludo ao primeiro livro da Divina Comédia, de Dante, para assegurar dignidade. O primeiro círculo do professor, pasmem, é constituído por nossos colegas de ofício. Precarizados, ao longo de décadas, ao sabor do discurso tecnocrático, a própria categoria internalizou a lição: “é melhor pingar (salário) que faltar”. De gota em gota, o professor passou de cidadão respeitado, referência dos saberes, a profissional remediado, refém de discursos patronais que reproduzem o pior do senso comum: “o professor trabalha por vocação”.

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O segundo círculo do inferno é constituído pelo alunado. Não me refiro a todas(os) as(os) estudantes: estatisticamente, contamos com o respeito, ainda que relativo ou fingido, da maioria – o que não impede escutarmos afirmações deste quilate: “Por que o senhor carrega livros?” (para um professor de Química); “Você sabe que não pode me pedir esse tipo de avaliação” (para uma professora de Avaliação Educacional, em uma Faculdade); “Gostei deste livro (Retórica a Herênio); vou utilizá-lo na empresa” (adivinhem para quem?).

No terceiro círculo, reside parte dos jornalistas corporativos, que passaram a dizer o que o professor “pode” ou não dizer, em acordo com a perspectiva da empresa – em especial a apuração daquelas evidências convenientes aos interesses dos proprietários e anunciantes “isentos” do veículo.  São os mesmos a defender a liberdade de expressão, quando assinam editoriais ou assinam artigos de opinião. No quarto, estão os sujeitos sem qualquer vivência na carreira docente, que apreciam bordões imprecisos como “ele não sabe ‘passar’ a matéria”. No quinto, encontram-se as criaturas que se dizem neutras, avessas à “doutrinação” – coisa de “esquerdista”: aquelas que vociferam em nome do “bem (que não praticam), da moral (que superestimam), da pátria (sediada em Miami), da religião (que não seguem) e da família (que não respeitam)”.

No sexto, estão os prestadores de serviço ou profissionais que recebem menos que o já minguado salário dos educadores. Para eles, pouco importa que o professor passe a maior parte dos finais de semana a corrigir provas ou a preparar aulas: do alto de sua arrogância, sugerem que os professores “reclamam de barriga cheia, pois tiram duas férias por ano”. No sétimo círculo, estão aqueles com maior poder aquisitivo que os mestres, que enxergam, neles “fracassados que não tiveram sucesso no mercado”. No oitavo círculo estão os ideólogos que mais reproduzem ideologias, dentre elas a falácia de que há discurso isento, desinteressado e neutro.

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O último círculo do inferno, vivenciado pelo professor, reúne o que há de mais grotesco na neocolônia. Ministros da Educação que deseducam e atiçam alunos contra seus mestres. Agências de Fomento que tudo cobram e nada fomentam. Gestores especializados em privatizar os bens do Município, do Estado ou do País, e a inviabilizar a criação e manutenção de creches, escolas e universidades, em nome da administração mais eficaz e eficiente (para eles).

Recapitulando: desunião da categoria; clientelismo de pais e alunos; interdição da fala; desvalorização do trabalho docente; falta de liberdade de cátedra; perda de seu lugar como referência da sociedade; acusação de sermos fraudes; suspeitos de doutrinação (somente aqueles alinhados com o pensamento crítico, bem entendido); gasto “sem retorno”, custeados por clientes-mirins ou graças à tributação de cidadãos de bem, tão habilidosos em sonegar imposto com notas frias.

Quase todos respeitam o que diagnostica a médica, corrige o mecânico, sentencia a juíza, sugere a manicure, capricha o cabeleireiro, recomenda o gerente de banco; quase ninguém admite a fala, compreende o lugar ou respeita o papel dos professores. Talvez isso se explique pelo fato de os educadores serem confundidos com profissionais confundidos com “tias” ou “pais” de empréstimo, essencialmente destinados a servir jovens cada vez mais imediatistas, arrogantes e exigentes.

E, convenhamos, pessoas que admitem ou reproduzem esse modo de conceber costumam se mostrar incapazes de estender a visão do professor para além de um sujeito injustamente precarizado, cujos talentos e saberes – ainda que reconhecidos – competem com a opinião aligeirada e superficial de youtubers, o oportunismo de jornalistas que disseminam tragédias, o discurso regulador de gestores ou economistas e a “genialidade” autodiagnosticada por uma parcela crescente de estudantes. Felizmente, nem todas(os) nos veem como sacos de pancada.

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2 comentários

  1. 90 anos de MEC. Obra inaugural de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. Até 1980, a Sociedade ainda tinha enorme respeito pelos Professores. Quando Escolas se tornaram extensões do Monopólio e Doutrinação Cultural Ideológica e Professores começaram a apanhar, serem ameaçados e assassinados. Sabe o que aconteceu em 1978/79? O Brasil de muito fácil explicação. 40 anos de pseudo Redemocracia. Mais 40 anos de NecroPolítica prolongando 90 anos deste Estado. Mas de muito fácil explicação. DORIVA

  2. Mãe e professor só têm direito a um dia de reconhecimento no ano. Os demais dias são para o “exercício da vocação ou do sacerdócio” desses “heróis abnegados”.
    Há, entretanto, aqueles que se arrogam sábios, mentores e mestres que, sem qualquer qualificação, arrebanham miríades, tanto de seguidores quanto de encantados adeptos, cuja admiração estimula ao orgasmo os seus egos defeituosos. De tão rasos, professores dessa estirpe e alunos da facilidade, conseguem uma simbiose sobremaneira satisfatória e de tal monta, que confere a ambos (professor e aluno) a consciência do “saber notável”.
    Daí os currículos falsos, os títulos imaginários e outras “modernidades”, além dos, é claro, Olavos de Carvalho da vida.

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