Sobre o sacrifício no Brasil da extrema-direita, por Daniel Gorte-Dalmoro

Não, não morremos ainda - nós, brancos, classe média, que vemos com ignorância, angústia e medo o horror de tudo isso -, nós não somos as vítimas.

Sobre o sacrifício no Brasil da extrema-direita

por Daniel Gorte-Dalmoro

E será que não vivemos num território sagrado, de deuses que nos exigem sacrifícios por sua permissão para ocuparmos uma terra que não nos pertence? O fogo que aparentemente consome Amazônia, Pantanal, Cerrado, o ar puro, a biodiversidade – o corpo indígena ou indigente -, talvez seja deus nos protegendo – nós, leigos, que não o notamos. “Entre os hindus não havia templo. Cada um podia escolher o lugar que quisesse para sacrificar, mas esse lugar devia estar consagrado mediante alguns ritos, dos quais o mais essencial era aquele que consistia em dispor os fogos. O fogo é matador de demônios, mas dizer isso ainda é pouco: ele é deus; é Agni em sua forma completa”. A pergunta que talvez devêssemos nos pôr: quem são os demônios que esse fogo tenta expurgar? “Do mesmo modo, segundo certas lendas bíblicas o fogo do sacrifício não é outra coisa senão a própria divindade que devora a vítima ou, para dizer mais exatamente, o sinal da consagração que a inflama”. Será a nossa consagração, nessa terra que alguém tornou santa antes que percebêssemos? E inebriados pelos deuses – nos sentindo o próprio deus na Terra -, nos perdemos em rituais que nem nós percebemos – talvez o tilintar de cobres santificados nos cegue para a crua realidade? “No México e em Rodes embriagava-se a vítima. Essa embriaguez era um sinal de possessão, o espírito divino invadindo já a vítima”. Nos embrigamos para esquecer os demônios que nos habitam e atormentam, mesmo quando deveríamos estar alegres. Há ainda espaço para possessões? Somos os sacerdotes, a vítima ou o demônio? Seríamos os três e ainda o leigo que assiste a tudo sem entender? “A morte deixava atrás de si uma matéria sagrada, a qual servia para desdobrar os efeitos úteis do sacrifício”. Não, não morremos ainda – nós, brancos, classe média, que vemos com ignorância, angústia e medo o horror de tudo isso -, nós não somos as vítimas. Nossa participação nesse sacrifício se dá de outra forma – ao menos por enquanto. “Em Atenas, o sacerdote do sacrifício das Bouphonia fugia jogando fora seu machado, todos os que haviam participado do sacrifício eram citados no Pritaneu e lançavam a culpa uns sobre os outros; por fim condenava-se o cutelo, que era lançado ao mar”. Mas em Terras Brasilis, ocupada por europeus errantes ignorantes de sua origem, seu destino e seus pecados irremissíveis, diante da sacralidade bovina, optamos por carne preta, mais abundante e mais barata no mercado – alguns dizem ser humana, como se fosse da mesma matéria da de uma pessoa branca. Porém nessa performance tropical não há troca de acusações, não há exílio para os sacerdotes do sacrifício, pelo contrário: o louvor ao cutelo que transforma imediatamente em bandido todo preto que atinge, num ritual que Marcel Mauss e Henri Hubert não imaginavam. Mas algo estamos fazendo errado nesse sacrifício, que semana passada foi de 28: “essas precauções, propiciações e honorificações têm uma dupla finalidade. Primeiro, indicam o caráter sagrado da vítima; ao qualificá-la como coisa excelente, como propriedade dos deuses, faz-se que ela o seja”. Não somos sequer bárbaros: em que momento teríamos perdido nossa humanidade? Somos incapazes do mais elementar um ritual de sacrifício, apenas o sangue pelo sangue. “Mas trata-se sobretudo de induzi-la a se deixar sacrificar pacificamente para o bem dos homens, a não se vingar depois de ter morrido”. Nossos sacerdotes e seus cutelos de pólvora parecem ter se confundido com o próprio deus – um gênio maligno a lhes insuflar o erro, falsos profetas a espalhar a mentira como se fosse boa nova. “É que com a morte do animal liberava-se uma força ambígua, ou melhor, cega, perigosa pela simples razão de ser uma força. Era preciso pois limitá-la, dirigi-la e domá-la. Para isso é que serviam os ritos”. Esquecemos os ritos que controlam as forças cegas que nos dominam enquanto cremos estar a dominá-las, dessacralizamos a morte e não reconhecemos a honorificações de quem foi sacrificado em vão. Sacerdotes do vazio (quais os efeitos úteis do nosso próprio sacrifício?), nosso devaneio de imortalidade de tempo em tempo, repentinamente, se desfaz e nos vemos banhados de sangue inocente, com nosso futuro consumido pelo fogo que nada purifica – ou será que somos nós os demônios? Nosso devir é explicitado em quatrocentas mil bocas que, como peixes tirados para fora da água, se afogaram em pleno ar.

09 de maio de 2021

* Trechos do livro Sobre o Sacrifício, de Marcel Mauss e Henri Hubert.

** Trilha sonora incidental: Arvo Pärt, Spiegel im Spiegel: 3.  (https://open.spotify.com/track/7v5raGYZhiVO90qGWj5Leo?si=d320c88f9fa4457b)

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora