23 de junho de 2026

Táxi para a Estação Lunar, por Rui Daher

Fernando Haddad

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Táxi para a Estação Lunar, por Rui Daher

Com a morte de Serafim, o dono do boteco onde se passaram os fatos descritos no livro “Dominó de Botequim”, o estabelecimento mudou a razão social e o endereço, só permanecendo o nome fantasia. Foi parar no céu.

Esperem, parar não. Lá, misto de bar e padaria, ainda sob o comando do finado Serafa, bomba ininterruptamente (não existe relógio) com o mesmo layout de mesinhas de metal, cadeiras brancas de plástico, balcão, café de coador, freezer com uma só marca de cerveja (CÉULAR) e prateleiras com diversas marcas de cachaça.

Joga-se o dominó. Apenas foi criada regra nova: as pedras só podem ser colocadas no tabuleiro usando a mão esquerda, mesmo que o atleta seja destro. Com laboratório tecnológico milhões de anos-luz à frente do que a mixaria que temos na Terra, o bem-quisto português conseguiu do Todo Poderoso um detector de lapsos da direita, imediatamente apontados por intensa luz e um indicador enorme sobre a cabeça do desregrado não-ser.

O mesmo está sendo usado para degustação de acepipes e beberagens. Quem desprovido desse membro, para frequentar o boteco, precisa crachá, expedido pela Zeladoria do Céu, que antes consulta o currículo político do requerente quando em vida e pede resposta a pergunta específica. A de ontem era: “Que arma você usaria para mandar o Capitão Coiso visitar o Capetão?”  

Tal ideia veio do Conselho Consultivo do boteco – Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Luiz Melodia e Walther Salles, pai, – e levada por Serafim ao Criador que se convenceu de que paz, harmonia e igualdade na Terra só podem ser obtidas pela esquerda. Simbologia aceita, nunca mais houve conflito no boteco.

Como todos no país sabem e discutem, sempre que Nestor & Pestana estão ausentes faço da Redação meu refúgio para receber os membros do Conselho Consultivo do “Dominó de Botequim”, acima nominados. Não sei o porquê da deferência, mas são os eflúvios de suas sabedorias que vêm preencher minhas perceptíveis lacunas intelectuais. Como ontem.

A garrafa à minha frente era daquelas de leite que nos anos 1950 homens-vacas, na minha acepção de criança, costumavam deixar na porta de casa. Vazia, enfeite das recordações em feitas para pouco voltarem. A voz:

– Macbeth, Macbeth, ô Macbeth … Lady ou General e futuro Rei?

– Ainda não conseguiu tirar o ovo da boca, mestre? Tão próximo e íntimo por que não pede a Ele? O sotaque paraibano, pernambucano, tanto faz, pode deixar, Ariano.

– Vixe, aperreado, é?

– Só estando aí no bem-bom e não no Brasil para não estar aperreado. Não ficaria?

– Estou! Sinto você, nosso escolhido, perdendo a perspicácia.

– Como?

– Não sacou o Macbeth?

– Ainda não peguei.

– Se eu contar, o Darcy e o Melô não irão se conformar. Repito: a Lady e o General. Dou uma pista, a beleza e a truculência. Quer que eu escreva uma peça de teatro adaptando Shakespeare às eleições no Brasil?

– Seria maravilhoso, mas acho que começo a entender.

– Você mesmo, citando Vinícius, com quem tomei um uísque hoje no café-da-manhã, disse que beleza é fundamental. Já reparou no par 13?

– Porra, Ariano. Gênio é gênio. Já viu como o brasileiro é suscetível à beleza? Lembra do sucesso do Collor? Dos colarinhos impecáveis de Doriana para ganhar no 1º turno a prefeitura de São Paulo? Do alinho de FHC? Das irradiações que saem do 1% até as antenas globais populares? Da inveja de Neymar por ter uma Bruna?

– Pois é.

– Mas o que faço para evitar a teratologia chegando?

– Pera aí. Aqui, ao meu lado, o Dr. Walther tem uma ideia que pode salvar o Brasil e ainda render-lhe uma grana.

– Boa noite, Dr. Walther. Todo ouvidos.

– Boa noite, filho.

– Antes fosse.

– Inove para ganhar em tudo. No lugar de entrevistas, sabatinas, debates, mesas-redondas, pronunciamentos, horripilantes horários eleitorais, repito, inove!

– Como, doutor?

– Chegue ao seu sponsor, Dr. Mark da Zuck Tools & Co. Ltd., e proponha um desfile de moda e beleza. Ponha na passarela os candidatos e seus vices. Cobre alto. Fatura certa!

Ligo o celular e teclo: “Mark? Can you hear me for a minute”?

https://www.youtube.com/watch?v=a48CcLb_aIE]

[video:https://www.youtube.com/watch?v=aA6ome0TWd4

 

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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2 Comentários
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  1. emerson57

    13 de setembro de 2018 12:53 pm

    non sense

    Las derecha tem um antidoto eficaz que funciona maravilhosamente na mente coxa.

    Eles pegam os seus próprios defeitos e pecados e apelidam as esquerdas.

    Tudo tem o sinal trocado. O sujeito é corno manso, mas se julga superior quando chama o vizinho de chifrudo.

    Se perguntam: – Sabe a última do Bolsomito? respondo com perguntas – Ué, não era Boçalnaro? Desde quando virou Bolsomico?

    1. Rui Daher

      14 de setembro de 2018 1:19 pm

      Emerson,

      Ótimo! Galhofa da boa e ainda profunda reflexão é aqui mesmo.

      Abraços.

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