A verdadeira revolta
por Felipe Bueno
Como tanta gente nesse mundo, fui apresentado a Albert Camus nos meus anos 20, o que no caso se deu na segunda metade da década de 90, quando o otimismo pós-queda do Muro de Berlim havia arrefecido, tendo sido substituído pela desilusão trazida pelas atrocidades das guerras da Iugoslávia e outras mais.
Como tanta gente nesse mundo, o primeiro livro foi O Estrangeiro, e sua famosa abertura, Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem., iniciou em mim um caminho sem volta.
Vieram então A Peste, A Queda, Estado de Sítio, Calígula, todos os títulos que o parco dinheiro podia comprar naqueles tempos.
Vieram também filmes e montagens baseados em suas obras, além de documentários e textos sobre o pied-noir existencialista um dia rejeitado pelos próprios existencialistas, Jean-Paul Sartre à frente, por ser considerado humanista demais para aqueles anos de chumbo nos quais os meios pareciam justificar os fins, inclusive para os revolucionários de esquerda que bancavam a violência soviética sentados em seus refinados apartamentos e cafés parisienses.
Aquele que já era para mim um dos maiores escritores de ficção do planeta levava da crítica especializada a etiqueta de filósofo. Algo, portanto, me faltava. Cabia a mim investigar mais a fundo, conhecer seus escritos nos quais seu pensamento vinha desprovido das ficções.
No entanto, por ação dos editores da vida, levei vinte anos para abrir O Mito de Sísifo, onde quase tudo estava escancarado.
E mais dez para conhecer as palavras definitivas de O Homem Revoltado.
Como naqueles livros de português do colégio, nos quais a teoria vinha exemplificada em trechos de boa literatura, só que ao contrário, toda aquela reflexão (semi)escondida por trás da ficção camusiana veio a mim como se a pedra de Sísifo realmente rolasse em minha direção, dizendo, de dentro de sua alma mineral: sim, de fato, era tudo aquilo e muito mais; lamento por você ter perdido tanto tempo antes de chegar ao fim, pequeno Prometeu.
Não é um livro para gente obtusa; faz muito sentido que, em 1951, tenha sido rechaçado pelas milícias revolucionárias, então no auge da busca pelo seu deus laico. Camus morreu menos de uma década depois; o sonho soviético durou um pouco mais, mas quando chegou ao fim foi de maneira muito mais chocante, violenta e destruidora.
E os avisos estavam todos lá, no complemento, ao mesmo tempo plácido e agressivo, de seu tratado sobre o absurdo lançado nove anos antes, em 1942, num contexto em que já não se poderia errar na análise das falhas cometidas pela humanidade em busca de sua – quem sabe – salvação.
Camus realiza uma reconstrução até de certa forma ingênua mas poderosa dos passos dados pelo homem em direção ao ego, em busca do super-indivíduo ofuscado pelas próprias conquistas e pelas possibilidades materiais que se desenhavam no horizonte, especialmente a partir do romantismo europeu, tido pelo escritor como o prenúncio da tragédia que viria. O niilismo, a solidão, a vontade de poder, o fim da História, a dialética e a necessidade de reconhecimento hegelianas, a morte de deus nietzschiana e sua substituição pela liberdade e pela justiça proporcionadas pela utopia de um consentimento geral são, para Camus, elementos de uma terrível e interminável adolescência do ser humano, que não enxerga outra coisa além da realização de sua revolta.
Nossos criminosos não são mais aquelas crianças que invocaram a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.
Apesar de ter sido escrito em e para um momento muito preciso da história do século XX, as sete décadas de idade não fizeram mal a O Homem Revoltado. O texto é repleto de alertas tanto para quem vive de uma escatologia reversa, ou seja, aguardando a salvação que está perdida no passado, como para quem dispersa sua potência em revoluções equivocadas. Camus tem sua própria resposta; mesmo assim, deixo a pergunta: seria a tomada da consciência causa ou consequência da revolta? Qual é necessária para que surja a outra? Se a primeira opção é a verdadeira, a humanidade tem sido há décadas vítima de uma anestesia auto-aplicada por uma multidão de Grandes Inquisidores. Se ficamos com a segunda possibilidade, torna-se claro que toda essa energia acumulada gerou um enorme curto-circuito, e o incêndio mal começou.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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