6 de junho de 2026

Butantã ou Butantan?, por Rafael Rigolon

A conservação do nome remete à tradição, ao respaldo histórico de um dos centros de pesquisa biológica mais importantes do mundo

Enviado por Felipe A. P. L. Costa.

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Butantã ou Butantan?

por Rafael Rigolon [*].

Eliminando logo de cara mais uma dúvida, acho importante deixar claro que o músico e filósofo contemporâneo MC Fioti não compôs a canção Bum tam tam em homenagem ao Instituto Butantan. A peça, que foi hit no Carnaval de 2018 e logrou o êxito de ser o primeiro clipe brasileiro a alcançar um bilhão de visualizações no YouTube (acredita?), voltou aos holofotes depois que vários memes foram produzidos relacionando a canção ao Butantan, responsável pela produção da CoronaVac em terras brasileiras.

Muita gente já sabia da canção Bum bum tam tam, mas nunca tinha ouvido falar do Butantan – não antes de ser divulgada a notícia da produção local de vacina contra a covid. Quem é da cidade de São Paulo talvez já conhecesse o Butantan, se não o Instituto, ao menos o distrito, o shopping ou a estação de metrô do Butantã. O duro é que só o nome do Instituto termina com an; os demais tem no final. O que aconteceu aí?

Recuemos um pouco no tempo.

A cidade de São Paulo foi fundada por jesuítas, em 1554. Na época, estava em curso o desenvolvimento de uma língua franca entre portugueses e indígenas, a chamada língua geral paulista, um idioma derivado do tupi que abarcava elementos do português. Foi com esse idioma que os bandeirantes avançavam rumo ao interior da então colônia. O mesmo idioma que eles usaram para nomear várias localidades, como Guaratinguetá, Jundiaí, Piracicaba, Sorocaba, Tatuapé e Taubaté. Nomes indígenas eram comumente usados para nomear localidades em todo o território daquele que é hoje o Estado de São Paulo.

Perto da então vila de São Paulo, havia uma região conhecida em tupi por Ybytatá, nome criado da união de yby (terra) e ãtã ou atá (muito duro). Provavelmente, isso era alusão à presença de terra boa para se fazer casas de taipa. OK, mas como Ybytatá virou Butantan?

O Y indígena era entendido pelos portugueses ora como /i/, ora como /u/. É por isso que, mesmo tendo a terminação de mesma origem tupi, temos Curitiba (kurí-tyba) e Ubatuba (ubá-tyba). Daí, Ybytatá passou fácil a Ubutantã, mas a cidade de Ibitinga (yby-tinga: terra branca) preferiu ficar com /i/.

A oscilação entre /a/ (vogal oral) e /ã/ (vogal nasal) também era bastante comum antigamente. Falava-se tanto /tupã/ quanto /tupá/ para o deus tupi-guarani. O rio Paraná já foi Paranã. O peixe Osteoglossum bicirrhosum tem por nomes vulgares aruaná e aruanã. A ave psitacídea Primolius maracana, hoje, é chamada de maracanã, mas já foi também maracaná.

Então, não havia bem um padrão. Escrevia-se Ybytatá, Ubitatã, Ubutantan, Ybytantan, Butatã… Para privilegiar a pronúncia /ã/ em vez de /á/, uma estratégia comum era usar -an. Prova disso são os municípios de Ibiporã (PR), Tarumã (SP), Camapuã (MS) e Guarantã (SP), que antigamente eram todos grafados com an no final.

Em 1607, o bandeirante português Afonso Sardinha (ca. 1535-1616) instalou o primeiro engenho de açúcar da vila de São Paulo, lá naquele Ybytatá. As terras lhe foram cedidas e ali Sardinha formou a Fazenda Butantan.

Como não teve herdeiros, Sardinha deixou a propriedade para os jesuítas, que a perderam para a Coroa quando foram expulsos do Brasil, em 1760. Dali por diante, as terras foram passando por vários donos até que o Estado as comprou de volta, em 1898.

Naquela época, o Brasil tinha alguns focos de peste bubônica. Para combatê-la, o Governo determinou que o Instituto Bacteriológico (atual Instituto Adolfo Lutz) montasse um laboratório que viesse a desenvolver uma substância antipestosa. Claro que isso tudo tinha de acontecer longe da população – uma fazenda seria ótimo!

Foram para a Fazenda Butantan os nossos ídolos da Ciência brasileira, Oswaldo Cruz (1872-1917) e Vital Brazil (1865-1950), que trabalharam juntos para conter a epidemia bubônica. Em 1901, o laboratório virou um instituto autônomo, denominado Instituto Serumtherapico (Soroterápico, na grafia atual), desenvolvendo soros e vacinas desde então.

Só que o Instituto era mais conhecido por Butantan, e não por aquele nome difícil de escrever. Ainda mais que, na década de 1920, surgia ali perto o bairro Butantan. Aí que o nome ficou mesmo. Em 1925, a instituição foi nomeada oficialmente como Instituto Butantan.

Aí, veio o Acordo Ortográfico de 1945 (mantido pelo de 1990) e padronizou várias palavras do nosso vocabulário. Uma das normas, dizia que palavras terminadas em A nasal deveriam ser marcadas por til. Nisso, os topônimos (nomes de lugares) que ainda conservavam -an no final tiveram de atender à regra. Maracanan se tornou Maracanã e Butantan teve de ser alterado para Butantã – mas isso valeu para o bairro. Sendo o nome de uma instituição (não de um lugar), o Instituto preferiu manter a grafia original.

A conservação do nome remete à tradição, ao respaldo histórico de um dos centros de pesquisa biológica mais importantes do mundo, com mais de 100 anos de serviço à sociedade. Instituição pública, orgulho do Brasil. O nome vindo da terra dura atravessou os séculos justamente para tornar nossa vida menos dura, apesar da torcida contrária de muita gente cabeça-dura – gente que pensa com o bumbum, tantã.

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Referências: O Butantã!, por Maria Helena Guedes (2015); e A história do Butantã, no jornal O Estado de S. Paulo (nov. 2015).

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[*] Artigo extraído e adaptado de 100 Etimologias Para Curtir e Compartilhar, livro que, ao lado de 50 Pseudoetimologias Para Deixar de Compartilhar, foi recentemente lançado pelo autor. Ambos já estão disponíveis para aquisição. Para adquirir os volumes ou para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos do autor, visite @nomescientificos no Instagram.

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