Gravações inéditas encontradas nos EUA revelam a voz do escritor brasileiro.
O querido amigo Luciano Hortencio, em mais uma preciosa contribuição à memória musical brasileira, produziu dois vídeos a partir das gravações históricas da voz do escritor recém descobertas nos Estados Unidos e disponibilizadas pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Para situar essas gravações, Luciano solicitou-me compor um texto explicativo. Nada mais sedutor, quando o assunto é o fascinante Mário de Andrade, marco inesquecível do resgate da cultura brasileira.

……. Mário de Andrade em sua casa, 1938 (arquivo IEB/USP)
Sua voz grave de barítono era lembrada por Francisco Mignone, sua presença constante nas cantorias do círculo modernista era relatada por Gilda de Mello e Souza. “Mas nunca tinha ouvido falar de que houvesse algum registro gravado de sua voz. Muito menos de seu canto,” conta o musicólogo Carlos Sandroni, da Universidade Federal de Pernambuco. Nos “Archives for Traditional Music“ da Universidade de Indiana, (Bloomington, Estados Unidos), foi descoberto um disco de alumínio, guardado há 75 anos, no qual se tem o único registro em áudio do romancista e poeta modernista, mas também do folclorista, gestor público, defensor do patrimônio, crítico de arte, professor e estudioso de música Mário de Andrade.
A gravação, de 1940, onde Mário, a escritora Rachel de Queiroz e a pesquisadora Mary Pedrosa cantam seis canções, foi realizada na cidade do Rio de Janeiro pelo linguista afro-americano Lorenzo Dow Turner (1890-1972). Turner, que estudou o dialeto Gullah (Geórgia, Estados Unidos), veio ao país para registrar heranças da cultura negra na música brasileira. Recém localizada pelo musicólogo Xavier Vatin do Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a gravação foi trazida para o Brasil para análise e identificação com a colaboração de Sandroni.
As canções registradas não eram quaisquer canções. Tão importante quanto o registro da voz de Mário, é o registro de cantigas populares que ele mesmo havia recolhido durante suas viagens pelo Nordeste. “Essas gravações revelam uma coerência e uma pertinência nesse universo do Mário de Andrade que a gente só conhecia no papel”, observa Flávia Toni, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, uma das maiores especialistas em Mário de Andrade no país e uma das autoras da descoberta, ao lado de Carlos Sandroni e Xavier Vatin.
A operação para trazer a histórica gravação de volta ao país envolveu a negociação entre universidades do Brasil e dos Estados Unidos. E ficará um registro permanente: a partir do mês de maio, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP) vai tornar disponível em seu site o acesso a todas as faixas do disco. “Esse pequeno conjunto de canções amplia e coroa essa faceta do Mário de Andrade musicólogo”, acredita Flávia. “É muito bonito perceber como essas melodias de pedinte percorrem toda uma época. A anotação da canção é feita em 1928. Mais de dez anos depois, essa canção está presente na vida dele. Serve ao estudo da música e também como fonte de escrita, de poesia.”
“Mário de Andrade estudou alucinadamente a origem dessas cantigas. Vemos aí uma inversão de papéis: ele, que normalmente era o pesquisador, se tornou o pesquisado”, afirma Flávia Toni.
O disco traz cinco melodias na face A:
Aribu, cantada por Rachel de Queiroz, uma canção que ela diz ter aprendido de um palhaço no Ceará;
Zunzum, cantada por Mário de Andrade e Mary (Houston) Pedrosa, peça do final do século XVIII, usada nas rodas de bebida, originária de Minas Gerais;
Tava muito doentim, cantada por Rachel de Queiroz, colhida por Ascenso Ferreira e Mestre Rozendo, em Pernambuco;
Deus lhe Pague a Santa Esmola, cantiga de mendigos colhida por Mário de Andrade em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba. É o próprio Mário quem explica: “Os mendigos no Brasil costumam sempre pedir esmolas cantando, principalmente pelo interior.” No suplemento Rotogravura do jornal “O Estado de S.Paulo”, o escritor contava como descobriu a cantiga na longínqua cidade de Catolé do Rocha, uma cidade pequenina, “meio espandogada no jeito”, e uma cena com a qual se deparou: uma menina aleijada, que ia dentro de um carrinho de mão, e uma anciã, enrolada em xale de lã, a pedir esmolas. “A velha a repetir o bendito admiravelmente melodioso: “Deus lhe pague a santa esmola! / Deus o leve em seu andor!”, escreveu admirado com a beleza e o equilíbrio da composição.
Toca Zumba, cantada por Mário de Andrade, é identificada erroneamente por ele como uma melodia publicada por A. Friedenthal. A cantiga se chama “O Bilontra” e foi composta por Gomes Cardim, pouco após a Abolição da escravatura.
Face A do disco:
https://www.youtube.com/watch?v=BOW2TVMsAlc]
Na face B, os três cantores conversam sobre as melodias cantadas e Rachel de Queiroz canta Meu irmão me dê uma esmola. Segundo Rachel, “Essa cantiga é uma invocação a Santa Luzia, padroeira dos cegos, ou inversamente. a padroeira dos videntes.”
E Mário ainda avalia: “Eu acho que quem cantou com maior caráter foi Rachel de Queiroz, a nossa grande romancista cearense. Ela é que tem bem o timbre do Nordeste e todas as nossas canções, quase todas cantadas hoje foram do Nordeste, menos o Toca Zumba de que não sabemos bem a origem e o Zunzum que Mary Pedrosa cantou e que deve ter vindo de Minas Gerais, porque é em Minas Gerais que até hoje se conservam as canções de bebida, de depois do jantar.”
Além de se escutar as vozes de outros dois personagens, Mário Pedrosa e Pedro Nava. De fato, era muito difícil avaliar naquele momento quão célebres se tornariam aqueles informantes.
Face B do disco:
[video:https://www.youtube.com/watch?v=RqgtZMD7QGQ

Fotografias feitas por Mário de Andrade, em 1928: “Catolé do Rocha” (esq.) e ” Catolé do Rocha / Paraíba / Convento” (dir.).
(Legendas do autor). (Montagem Dif. Cultural, IEB/USP) (Arquivo IEB/USP)
Para Flávia Toni, que alerta que a obra musical do modernista – que era professor de piano e, dizem, tinha um ouvido apuradíssimo – é vasta e pouco estudada, o mais interessante da descoberta é “entender por que ele fazia tudo isso”. “Todo mundo tenta interpretar esse amor que ele tinha pelo Brasil e pela cultura popular brasileira. É generosa a pesquisa que ele fez sobre o país, dotada de uma entrega muito grande.
Nessas gravações de Turner, dá pra notar a emoção na voz dele, mesmo depois de conviver por mais de 10 anos com essas músicas”, opina. Ecos do trabalho de Mário de Andrade com as cantigas populares brasileiras podem ser encontrados no CD “Na pancada de Ganzá”, de Antonio Nóbrega. Trata-se de uma reunião de cantos tradicionais do povo brasileiro – canções de autoria de Nóbrega e de outros compositores pernambucanos –, feita com base no material de pesquisa de Mario. De cara, o título do álbum é do modernista: esse seria o nome que ele daria ao conjunto dos registros musicais que fez em suas viagens ao Norte e Nordeste do Brasil, em 1927 e 1928. Nóbrega faz uma avaliação precisa da importância de Mário de Andrade: “Estamos nos distanciando cada vez mais de um certo Brasil que, por falta de termo melhor, chamemos de ‘popular’. Faz falta o pensamento de Mário de Andrade para entender o país e – digo mais – colocá-lo num lugar melhor.”
A fama de homem de letras, às vezes, encobre o fato de que a formação primeira de Mário de Andrade, assim como parte considerável de sua produção, deu-se no campo dos estudos musicais. Antes dele, não havia crítica, não havia história da música, ou folclore musical brasileiro. Sua contribuição foi decisiva. Ele sabia disso. Seus escritos deixam evidente a consciência que tinha de que seu trabalho iria durar para além de sua existência. Mas não era homem de se deixar filmar. Ou de envaidecer-se com a própria voz. Sorte nossa é que alguns rebeldes teimaram em registrar esses vestígios do gênio.
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Fontes:
1. Instituto de Estudos Brasileiros USP, “Mário de Andrade, Rachel de Queiroz e Mary Pedrosa cantam para Lorenzo Turner”, 18/04/2015.
2. Maria Eugênia de Menezes, “Mário de Andrade canta em registros inéditos encontrados nos Estados Unidos.”, jornal “O Estado de S.Paulo”, 20/04/2015.
3. Agência de Notícias da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, “Professor da UFRB descobre gravação que reproduz a voz de Mário de Andrade”, 28/04/2015.
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4. Camila Moraes, “Canta, Mário de Andrade”, El País, 09/05/2015.
lucianohortencio
11 de maio de 2015 11:33 amRóseas Flores da Alvorada
[video:https://www.youtube.com/watch?v=eanLB9PpzzE%5D
lucianohortencio
11 de maio de 2015 11:37 amViola Quebrada
[video:https://www.youtube.com/watch?v=Cd6iDSUKpY4%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=LhJiGzes5J0%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=c52dADgtV50%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=uBd-rCnnYIM%5D
Jose de Almeida Bispo
27 de fevereiro de 2016 4:48 pmIrretocáveis!
Lindeza essa
Irretocáveis!
Lindeza essa modinha brasileira! Maravilha.