Enviado por Antonio Ateu
Por Luiz Zanin
Solo, de Ugo Giorgetti
Publicado em 31 de outubro 2009, no Estadão
Solo é o nome do novo filme de Ugo Giorgetti. Seco assim, descreve o que nele faz o grande ator Antonio Abujamra: um monólogo, encarando a câmera o tempo todo, com algumas poucas imagens de arquivo que se desenham às suas costas. É um filme da fala. E da expressão corporal, que faz parte do mundo dos sinais e da linguagem. Giorgetti, que é colunista do Estado, tem outro filme na mostra, a ficção Paredes Nuas.

O texto é do próprio Ugo e se pode dizer que gravita em torno de um motivo: o estranhamento do personagem em relação a si e ao mundo que o cerca. O início do monólogo faz o espectador entrar de chofre nesse universo. O que ele diz? Que um dia, ao vestir a meia, olha para o próprio pé e não o reconhece. O corpo envelheceu; deformou-se e, com ele, o pé.
A constatação dá início a uma rememoração, que flutua ao sabor das conexões mais inesperadas, como as associações livres que se fazem num divã de analista. Uma ideia leva a outra, inocentemente, e o todo – se é que é possível falar-se em todo – emerge de um mosaico em aparência caótico.
Esse homem, esse velho que não se reconhece e nem ao seu meio ambiente, é, de certa forma, uma memória da cidade, e do País. Deduz-se que seja filho de uma família aristocrática, ou pelo menos de classe alta, que assistiu à degradação paulistana ano após ano. Nota de passagem: é um tema caro a Giorgetti, que o desenvolveu no documentário Uma Outra Cidade, em que falava dos poetas da geração de Roberto Piva e de como o Centro já foi uma a área de respiração cultural em São Paulo. Depois, retomou o tema do estranhamento em relação à cidade na ficção de O Príncipe, o homem que volta do exterior e reencontra (ou não) suas raízes.
Solo é mais um passo nessa “pesquisa” – se assim chamarmos o trabalho do artista no aprofundamento em si mesmo. Aqui, há um concentrado desse tema pela situação proposta: personagem único, cenário praticamente imutável, a fala livre sob a forma do monólogo, que não passa de um debate interminável consigo mesmo.
É curioso como nesses filmes citados, e também em Solo, a exasperação com a vida contemporânea não conduza ao sentimento estéril da nostalgia. Não seria mesmo o caso de sentir saudades das aspirações exclusivistas do personagem, mas apenas registrar a sensação de caos que o presente desperta. Ninguém precisa ser um velho aristocrata para senti-lo.
ana s.
3 de maio de 2015 10:52 pmObrigada, Antonio Ateu
Muito bom o monólogo.
bh
4 de maio de 2015 1:16 amComo o mundo é pequeno. Ou
Como o mundo é pequeno. Ou pelo menos o é o mundo das pessoas que estudaram. Antônio Abujamra aparece aqui no blog apenas uma semana depois que seu sobrinho, Márcio (Abujamra) Aith, foi “destaque” neste espaço. Não se pode dizer que não seja uma família de gente muito letrada. E influente. Em muitos aspectos.