4 de junho de 2026

O Riso próximo do horror em “O Dia em que o Palhaço chorou”

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“Todo riso está próximo do horror que o prepara”, disse certa vez Theodor Adorno, destacado membro da chamada escola de Frankfurt, ao homenagear o 75° aniversário do seu amigo Charles Chaplin. Jerry Lewis, legítimo decendente da comédia “slapstick” de Chaplin e Buster Keaton, tornou explícita essa proximidade com o seu projeto de 1972 que hoje tornou-se uma lenda no meio de cinéfilos e pesquisadores: o filme “The Day The Clown Cried” (O Dia em que o Palhaço Chorou), um projeto não concluído, jamais exibido e apenas assistido por um grupo restrito de críticos e produtores hollywoodianos cuja opinião foi unânime na época – “isso é simplesmente errado!”.

 

Um filme cuja sinopse poderia ser assim resumida: um decadente palhaço de circo — interpretado pelo próprio Jerry Lewis — no começo da Segunda Guerra Mundial, é despedido e preso por zombar de Hitler. Acaba parando em um campo de concentração para presos políticos em Auschwitz. E sendo um palhaço com algum sucesso entre as crianças, ele arranja um trabalho por lá: levar as crianças quietas e comportadas enquanto se divertem com o palhaço, sem suspeitar que estão, na verdade, indo para a câmara de gás.

O roteiro de 164 páginas sobre a estória de um palhaço que leva criança para fornos em Auschwitz virou objeto de lenda, lido e partilhado através de uma rede de cinéfilos pelo mundo. Desde o filme de 1968 de Mel Brooks “Primavera para Hitler”, ninguém do mundo do cinema poderia imaginar que seria possível outra comédia envolvendo a Alemanha nazista.

A única cópia existente do filme encontra-se com o próprio Jerry Lewis, impedido de lança-lo por problemas judiciais com os autores do livro em que foi baseado o roteiro e dívidas trabalhistas (Jerry Lewis quebrou financeiramente durante as filmagens). Imagens do making-off do “The Day The Clown Cried” encontram-se no Youtube (veja ao final desse post).

Desde o filme “O Professor Aloprado” (The Nutty Professor, 1963) o humor de Jerry Lewis passa a ficar cada vez mais amargo e ácido. Das desventuras do projeto “The Day The Clown Cried” Lewis aprofundaria cada vez mais o tom amargo do seu humor até culminar no filme de Scorsese “O Rei da Comédia” (The King of Comedy, 1983) onde o comediante ri de si mesmo ao expor sua famosa arrogância e egolatria na estória de um fã (Robert De Niro) que inveja o seu estrelato e o sequestra.

História do Riso

Jerry Lewis durante as filmagens de 
“The Day The Clown Cried” em 1971

A pretensão de Jerry Lewis em representar cinematicamente a situação de crianças à beira da morte rindo das gags de um palhaço revela a conexão secreta que sempre existiu na História entre o riso e o horror – uma proximidade ambígua, pois pode significar tanto a salvação como a legitimação da crueldade.

Georges Minois no livro “A História do Riso e do Escárnio” decreve descreve as três fases do riso na História: mágica, agrícola e romana-cristã. Das origens instintivas associadas à agressividade (o esgar dos dentes diante do inimigo) o riso evolui para o ritual mágico de anulação da morte, para negá-la e invertê-la no seu contrário, pois só os mortos não conseguem rir (em muitas culturas, as cócegas são um ótimo instrumento para verificar se uma pessoa está viva ou morta).

Passando pela fase agrícola onde o riso é associado a rituais de fertilidade, a cópula em festas “pagãs” e a bem-aventurança, chega-se ao império romano onde progressivamente perde-se o humor, transformando o riso em um tabu, afinal quando se governa pelo medo, o riso é o som mais assustador. Se em Cícero o riso seria um meio para atacar, defender-se e ensinar (ganhando um status social de polidez e inventividade), mais tarde em Quintiliano o riso é destruidor, suspeito, fomentador da desordem e demoníaco. Nos século III e IV os romanos nem podiam rir das suas desgraças, até do desaparecimento do império: é a preparação do terreno para o “vale de lágrimas” da nova religião “do crucificado” que lhes espera.

Com o Cristianismo o riso é associado simultaneamente ao demoníaco e ao corporal: a irrupção de uma gargalhada proveniente das vísceras como a própria manifestação da voz do demônio. Cristo jamais sorri.

Para o italiano Massimo Canevacci, o cinema recupera em um novo e insuspeito nível a originária função social das origens mágicas do riso através da comédia “slapstick” da geração de Chaplin e Buster Keaton. (veja CANEVACCI, Massimo. Atropologia do Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1984) 

O riso como inversão mágica diante da “morte”: o “the last minute rescue” (no último minuto o herói salva a moçinha amarrada no trilho diante da locomotiva), a ridicularização do mais forte (o policial desajeitado que não consegue prender o herói, o sorvete que cai no decote da mulher rica etc.).

Buster Keaton (o palhaço que nunca ria), mas que fazia os espectadores rirem com sua face de pedra. Fazia rir fingindo-se de cadáver.

O riso pós-guerra

O pós-guerra e a consolidação de Hollywood como instrumento ideológico produz uma guinada na forma-riso, agora ainda mais estreitamente condicionada pelas leis de produção e controle social: o riso direciona-se agora para o socialmente mais fraco, riso na sua forma cruel, absorvida pelo horror e sem poder de subvertê-lo. “se ri do fato de que não há mais nada do quer rir”, como afirmam a certa altura Adorno e Horkheimer na “Dialética do Esclarecimento”.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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