Estrelas do futebol são espelhos da uma sociedade que se auto-destrói em “Diamantino”, por Wilson Ferreira

Coprodução luso-franco-brasileira, algo entre um thriller policial, ficção científica e um estranho senso de humor, mostra que as estrelas alienadas do futebol não passam de espelhos da sociedade

por Wilson Ferreira

Qual a relação entre um jogador que emula o craque Cristiano Ronaldo, cientistas genéticos loucos e um movimento de extrema direita que pretende cercar o país com um muro? Portugal é um dos países que mais recebem refugiados na Europa (incluindo africanos e brasileiros), com uma seleção que, apesar de contar com uma das maiores estrelas do futebol mundial, não consegue ganhar nenhum título. Esse é o explosivo mix da coprodução luso-franco-brasileira “Diamantino” (2018) sobre um craque que vive numa bolha de dinheiro e fama. Completamente alienado mas, ao mesmo tempo, sentindo-se culpado por ser milionário em um mundo injusto, Diamantino decide adotar um “refugiadinho”. Mas ele não sabe que virou a estrela de uma campanha xenófoba e nacionalista, o “Brexit” português. Tudo num tom de conto fantástico – alguma coisa entre um thriller policial, ficção científica e um estranho senso de humor. “Diamantino” mostra que podemos até odiar as estrelas alienadas do futebol. Mas elas não passam de espelhos de uma sociedade igualmente alienada que é capaz de se voltar contra si mesma.

O tema do futebol no cinema gira sempre em torno de temas recorrentes: primeiro, o futebol com pano de fundo de dramas políticos e instrumento de alienação (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, 2006); sobre a paixão de torcedores capazes de fazer qualquer coisa para ficarem ao lado do clube de coração (Febre de Bola, 1997); o futebol como realização de sonhos impossíveis e superações através de um imaginário inspirador, como escapar de um campo de concentração nazista (Fuga para Vitória, 1982, estrelando Pelé), um jogador amador mexicano que vive o sonho de se profissionalizar num time inglês (Gol! Um Sonho Impossível, 2005), ou os “causos” da subcultura boleira (Boleiros – Era Uma Vez o Futebol, 1998).

Em todos eles, há uma transferência do espírito de um esporte coletivo para as relações de amizades, do tipo “juntos somos fortes”.

Estrelas individualistas num esporte coletivo

Escrito e dirigido pela dupla Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, o filme aborda uma questão ainda inexplorada nos filmes sobre o futebol: num esporte essencialmente coletivo, por que existe a promoção de craques individualistas cuja performance se equipara às performances solitárias do atletismo?

O que se passa na cabeça de heróis quase acidentais que, repentinamente, são elevados ao olimpo esportivo e financeiro? Até que ponto essa súbita projeção da pobreza para a riqueza transforma esses novos ricos em perfeitos alienados, quase limítrofes, sem ter a menor ideia dos interesses que giram em seu entorno?

Mas Diamantino não vai explorar essas questões de uma forma séria, como uma elaborada denúncia política ou sociológica. A narrativa vai se enveredar pelo surreal, numa mistura entre o drama do alienado protagonista de Muito Além do Jardim (Being There, 1979) com os delírios visuais dos filmes de Michel Gondry – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças ( 2004), Sonhando Acordado (2006)e A Espuma dos Dias (2013).

Aqui, o futebol não é o pano de fundo. A realidade paralela em que vive o maior craque do planeta, o jogador português Diamantino (numa explícita alusão a Cristiano Ronaldo), é o plano de destaque que tem em seu entorno os sinistros interesses de um laboratório de experiências genéticas e uma frente política de direita portuguesa que faz uma campanha pela saída do país do bloco europeu, ao estilo do Brexit.

Mais do que isso, a completa alienação do craque Diamantino vivendo no seu mundo paralelo é uma metáfora da própria inconsciência de uma sociedade, capaz de lutar por pautas que irão se voltar contra si própria – aliás, como bem nos revelaram a sequência de “incidentes” como o Brexit, Trump e Bolsonaro.

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Num mix surreal de cientistas loucos, o drama de refugiados que chegam em Portugal, movimento nacionalista português de extrema direita e epifanias místicas de Diamantino (que credita seu talento a visões de gigantescos cães felpudos correndo e pulando pelo campo de futebol), o filme aborda questões muito sérias em um tom de alguma coisa entre o thriller policial, o sci-fi e um humor estranho.

O Filme

Voltemos aos insólitos gigantes cães felpudos que, em efeitos de computação gráfica, surgem no campo de futebol quando Diamantino Matamouros (Carloto Cotta) está conduzindo a bola no ataque. Eles são manifestações da mente do jogador da seleção portuguesa, uma espécie de epifania mística em meio a intensa névoa, capaz de filtrar todas as distrações e manter a concentração do atacante nas jogadas cruciais de uma partida.

Basicamente, Diamantino é uma criança grande ingênua que vive numa realidade paralela: solitário, virgem, cercado pelo seu pai (o seu empresário) e suas irmãs gêmeas (Anabella e Margarida Moreira) ambiciosas e orgulhosas pela riqueza da família.

Alheio a tudo, Diamantino não percebe que em seus momentos de lazer, a bordo do seu iate, é monitorado pela polícia federal portuguesa através de drones – há fortes evidências de que a estrela do futebol lava dinheiro em offshores de paraísos fiscais. Mas logo entendemos que Diamantino é infantil demais para entender dessas coisas. E seu pai, mais preocupado em manter seu filho longe das más influências do futebol.

Secretamente são as gêmeas cruéis e abusivas que desviam dinheiro das contas da família para lavar o dinheiro em empresas ilegais de investimentos no Panamá.

Porém, um evento traumático parece furar a bolha em que vive o jogador: do seu iate, ele vê refugiados africanos chegando à deriva em um bote inflável. Nele, está uma mãe arrasada por ter perdido seu pequeno filho durante a viagem.

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Às vésperas da final da Copa da Rússia 2018 contra a Suécia, aquele episódio devasta sua mente com culpa e tristeza. No dia da final, Diamantino não consegue mais ver os gigantes cães felpudos no jogo: a mágica acabou, e ele acaba perdendo uma cobrança de pênalti no último minuto, tornando-se o responsável pela perda da Copa.

Em casa, diante da TV, seu pai (Chico Chapas) morre. Arrasado, Diamantino decide abandonar o futebol para se dedicar a uma causa pessoal: decide adotar um refugiado para também dar todo seu amor que o seu pai deu um dia a ele.

Mas a Polícia Federal tem um plano para arrumar provas contra o jogador: uma agente do serviço secreto se passará como refugiada para ser adotada por Diamantino, se infiltrar no palácio em que vive a família do craque e invadir os registros financeiros dos computadores.

Mas as malignas gêmeas têm um plano ainda mais mirabolante para o ingênuo Diamantino, agora aposentado e querendo ser um pai exemplar para se livrar da culpa por ser tão rico – elas se associam a um grupo de extrema direita infiltrado no governo e que pretende tornar Portugal num país xenófobo, nacionalista e fora da comunidade europeia. Tal como no Brexit.

O “Brexit” português

A bizarrice começa quando é lançada uma campanha publicitária com a mensagem “Tornar Portugal Grande Novamente!” (ecos da campanha de Trump nos EUA), tendo como estrela o ingênuo Diamantino, com uma espada matando mouros invasores da nação em um comercial. Logo ele, que adotou um “refugiado” …

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