O todo nunca é a soma das partes no filme “The Square: A Arte da Discórdia”, Wilson Roberto Vieira Ferreira

Película do diretor sueco Ruben Östlund denuncia a alienação da arte em relação à realidade, enquanto esta acreditar que a soma de boas intenções individuais poderá mudar o mundo

Filme "The Square: A Arte da Discórdia"

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Distraído por uma afluente vida pós-moderna, cercado por mantenedores de arte milionários e artistas e instalações conceituais, um bem-sucedido curador de um museu de Estocolmo vive em uma bolha social. Lá fora, o crescente problema dos refugiados e sem-tetos deitados nas limpas calçadas suecas. Até que o roubo da sua carteira e celular e a chegada de uma enigmática exposição chamada “O Quadrado” fazem o caos invadir a vida do protagonista:  um incidente catastrófico de relações públicas para o museu somado ao inferno pessoal o fazem descer à realidade. Esse é o novo filme do diretor sueco Ruben Östlund “The Square: A Arte da Discórdia” (2017), no qual a arte continuará alienada da realidade enquanto acreditar que a soma de boas intenções individuais poderá mudar o mundo. Porque o todo é muito maior do que a soma das partes.  

O todo é sempre maior do que a soma das partes que o constituem. Esse é o axioma fundamental da psicologia Gestalt – ela sustenta que antes de compreender as partes, é preciso compreender o todo: sua configuração, uma entidade concreta que existe como algo destacado que é muito mais do que a soma dos seus atributos.

Da psicologia da percepção Gestalt, passando pela teoria do caos na física e a fenomenologia na filosofia, esse axioma chega à própria descoberta da dinâmica das sociedades: as mudanças sociais não ocorrem com ações aditivas, mas por quebras da ordem e paradigmas. 

Porém, a consciência minimalista que passou a dominar todos os aspectos da cultura no pós-guerra foi numa direção contrária, criando a mentalidade e atitudes complacentes que ajudam a criar a boa consciência mesmo diante de atrocidades, a miséria e a violência: se cada um fizer a sua parte, isso mudará o mundo para melhor. É a boa consciência complacente, que expia a culpa com muita auto-indulgência: “eu fiz minha parte”, pensa a boa consciência feliz, evitando ter que pensar nas estruturas perversas que reproduzem o todo social.

 

Se ando de bicicleta, fiz minha parte para evitar a emissão de gases… se contribuo mensalmente com a ONG Médicos Sem Fronteira, fiz minha parte para combater a pobreza nos recônditos do planeta… e assim por diante. Mas a dinâmica do todo permanece intacta – políticas públicas e a dinâmica impessoal da própria reprodução do capitalismo: leis de mercado, lucro e exploração.

Este minimalismo invade todos os setores: ecologia, política, ativismo social e a arte.

 

 

The Square: A Arte da Discórdia (2017), do diretor Sueco Ruben Östlund (Involuntary, Play Force Majeure) e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, faz uma sátira cáustica desse tipo de boa consciência dos curadores e milionários mantenedores no mundo da arte e suas galerias e museus. O pano de fundo é a relação da Suécia com os refugiados: enquanto para os outros países europeus isso é um problema político, na Suécia é apenas uma questão logística: onde abriga-los? 

É claro que essa política pública leva à crescente tensão social, com o crescimento do preconceito e xenofobia. Que oportunisticamente a extrema-direita no país atualmente tenta capitalizar.

Em The Square, as cenas são pontuadas pela presença de imigrantes muçulmanos e sem-tetos suecos ou imigrantes esmolando nas ruas e estações de metrô. E, complacente e fleumático, atravessa esse cenário o protagonista, um sofisticado e descolado curador do X-Royal Museum de Estocolmo, dedicado a arte contemporânea e seus valores correspondentes.

Anteriormente chamado de Museu Real, agora deve se render às modernas gestões de marketing e publicidade para sobreviver à concorrência. 

A mudança para os novos tempos é representada em uma cena inicial em que trabalhadores estão removendo a estátua de um cavaleiro da praça em frente ao museu (é inevitável à icônica remoção da estátua de Lênin pós queda do Muro). A estátua é içada pelo pescoço do cavaleiro, que quebra, decapitando a figura e destruindo o pedestal.

No lugar, é colocada a instalação artística que dá nome ao filme: “O Quadrado”, um pequeno espaço delimitado por uma luz branca – parte de uma exposição maior de uma ausente artista e socióloga, que assim define o manifesto: “O Quadrado é um santuário de confiança e carinho. Nele compartilhamos igualmente diretos e obrigações”.

Uma mensagem vaga, mas cheia de boas intenções e politicamente correta. Mas, como vender essa mensagem na mídia de maneira incisiva para atrair o público? Então começa o estouro da bolha da complacência do nosso sofisticado protagonista, descendo para o inferno da realidade… ou do Todo.

 

 

O Filme

Christian (Claes Bang) é um profissional elegante, bem-sucedido, bonito e descolado. Ele vive constantemente distraído com a vida pós-moderna, imerso nos compromissos como curador do X-Museum. Desfila por elegantes salas cleans das galerias de arte, habitadas pela fauna de burgueses mantenedores e artistas elegantes e blasés.

A síntese do perfil de Christian é colocado pelas duas cenas iniciais: a entrevista dada a jornalista norte-americana Anne (Elizabeth Moss), na qual tenta explicar a exposição “The Square”, e a sequência de um mendigo deitado em uma limpa calcada de Estocolmo por onde passam inúmeros transeuntes. “Quer salvar uma vida humana hoje?”, brada uma ativista de alguma ONG entregando panfletos.

Indiferente, Christian passa pela ativista para depois ser vítima de um golpe no qual acabam levando sua carteira, celular e abotoaduras bem no meio da multidão. 

Através de um aplicativo, localiza o celular em um condomínio de apartamentos habitado por imigrantes. Com a ajuda de um subordinado do museu, Christian coloca na porta de cada apartamento cópias de uma carta ameaçadora, pedindo de volta os pertences roubados.

Paralelo a isso, os gestores do museu recebem a visita de dois jovens millennials especialistas em mídias sociais com ideias ousadas para tornar a exposição viral. Tudo muito irônico: as barreiras entre o artístico e o comercial são apagadas em nome de produzir algo “culturalmente significativo” – uma mensagem que seja solidária, humanista ao estilo “fazer cada um a sua parte por um mundo melhor”, mas ao mesmo tempo agressiva e polêmica para viralizar nas redes sociais.

 Tanto a ideia de recuperar os objetos roubados como o vídeo postado no YouTube pelos publicitários resultam em catástrofes tanto pessoal para Christian como de relações públicas para o museu – um garoto muçulmano, ofendido pela carta, promete levar o caos à vida de Christian e o vídeo resulta em algo inevitavelmente politicamente incorreto para criar polêmica e visibilidade nas redes sociais, envolvendo crianças sem-teto que explodem…

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