3 de junho de 2026

A TV e os políticos, a vingança…

Do Portal Luís Nassif

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Do Blog de Alberto Manoel Ruschel Filho

Tive um tio que fugiu da escola. Era compositor, músico e escultor, hoje é nome de rua e tudo.

 

Nas famílias, qualquer família, todos têm um sujeito criativo. Acho até, que todos nossos familiares são criativos mas acontece de não exercitarem sua criatividade.

 

As razões? Devem ser várias. Mas a maior delas, pode que esteja ligada ao desestímulo dos pais. Aqueles. Os que travam no discurso do sujeito que estudando fica bem sucedido e poderoso.

Meu tio fez muitas coisas, até trabalhou na televisão.

Era diretor de TV, o cara que fica escolhendo as imagens das câmeras que vão ao ar. Corta e edita o que vemos em casa.

 

Ele odiava aquilo.

 

Era trabalho de presidiário que costura bola de futebol. Todo dia a mesma coisa.

 

No tempo em que ele sentia-se como presidiário, era o tempo da TV só em estúdio, não havia o VT, e era tudo ao vivo.

 

O estúdio era o coração da emissora. Entrevistas, cantorias, humorismo e comerciais eram gerados dali.

 

Era uma TV outonal e, de vez em quando, alguém varria as folhas secas pela imensa porta forrada e almofadada.

 

Tinha um homem que, entre as atrações, ficava trocando umas cartolinas. As informações eram obra do letrista responsável.

 

Era neste ambiente que meu tio trabalhava. Tudo igual a toda hora.

 

Foi assim que ele me explicou.

 

– Aquela televisão abafada, feita daquele jeito, precisava de algum vento, ou ventania. Alguém tinha que abrir uma janela e levar alguma vida pra casa dos telespectadores.

 

Para tanto, na cozinha, ele apelidara os câmera-mans a seu jeito.

 

– Chamar os caras de câmera 1, 2 pra pedir a movimentação das câmeras pelo estúdio, se parecia à função de um carreteiro com suas juntas de bois. Como os nomes dos operadores estavam sempre mudando, dei nome de bois às câmeras. Virou uma convenção. Tinha o “maiado”, o “rosío”, “o ruano” e o “aspa curta”. Pintei nelas uns detalhes com as cores certas. Acho que humanizei as máquinas.

 

E chegou a época de eleições. Cada candidato tinha seus três minutos de exposição. Ou seja, só um terço do que o Andy Warhol preconizava para alguém ficar famoso.

 

E todos se esforçavam. Toda tarde eram filas de cartolinas, ternos e gravatas semelhantes, nomes, discursos parecidos e pasteurizados.

 

Poucos, acordavam o pessoal da técnica.

 

– Claro que me custou o emprego, mas todo mundo se divertiu, nós e o pessoal em casa. A missão foi cumprida.

 

No cafezinho, “mon oncle” havia papeado com um candidato que, com sensibilidade, percebia que estava sendo jogado num liqüidificador.

 

– A questão é aproveitar o tempo, ser profissional nos detalhes. Vou lhe dar uma mão. Faça assim, Candidato: no sinal de “já” esteja com a fisionomia séria. Comece seu discurso como se já estivesse no fim dele. E mantenha o tônus muscular de suas palavras durante todo tempo. Isto pra chegar a um final “quente”, marcante.

 

– Tônus muscular das palavras?

 

– É, a tensão no que vai dizer. A técnica que sugiro vai “marcar” sua entrada e sua saída. Será inesquecível para o eleitorado.

 

– Assim: haverá um assistente contando o tempo e ela vai sinalizar pro senhor, a cada 15 segundos. Isto ajuda muito, o tom do seu discurso será crescente. Mas tem a parte mais importante.

 

O político memorizou “Tom crescente…”

 

– Quando faltarem cinco segundos, olhe para a câmera em silêncio, como se estivesse desafiando o telespectador. Termine antes, um pouco antes dos três minutos. Aí, conte mentalmente até dez, bem lentamente, sempre olhando desafiadoramente para a câmera. Em silêncio. E saia do cenário sem fazer qualquer ruído… pé ante pé. Isso até me ajuda, pois o seu será o último discurso do dia e preciso fechar seu microfone para abrir o da garota propaganda que virá em seguida com sua mensagem comercial. Entendeu?

 

– Sim, cinco segundos antes do fim, olho sério pra dona de casa, desafiador, conto mentalmente até dez, saio pé ante pé saio do cenário sem fazer barulho nenhum… bem devagar.

 

– Perfeito! O senhor pegou o jeito da coisa.

 

Meia hora depois, assim fez o candidato.

 

Iniciou sua apresentação aos gritos. E durante dois minutos, foi gritando, gritando, até chegar ao gran finale, babando pelo canto da boca.

 

– Porque se não for assim, o Rio Grande não será mais Grande…será pequeno!!!! Seu voto na minha pessoa fará deste estado um Rio Grande imenso, maior!!!

 

O tio, deixou o estúdio a meia luz, e pediu.

 

– Maiado! Close nele… fica, fica Maiaaaado!

 

O candidato mantém o rosto carregado, ameaçador. O luz recortada dá mais dramaticidade ao quadro.

 

– Aspa curta, pra frente, boi… chega, cheeega, pezinho pra frente, pezinho! Vai boi, ôô boi!

 

O candidato relaxa, começa a contar. Sem querer, começa a contar com os dedos da mão…um, dois, três…

– Barroso, fecha na mão…feeecha! IIIIIsso Barroso.

 

O Tio corta da mão pro rosto assustado.

 

– Quatro, cinco, seis…

 

Toda a luz do estúdio volta.

 

Os olhos do homem, sempre contando, se arregalam, está atento a contagem e olhando pros próprios dedos. Está assustado, e concentrado.

 

Porto Alegre, a cidade toda, está vendo quando o político, pra não fazer ruído, se agacha ficando rente ao chão. O homem, de terno escuro, gravata, cabelos penteados, de ameaçador, sério, agora é uma criança, de cócoras.

– Barrooooso, faaaasta…faaasta…ele vai sair…abre, abre boi! Vai com ele…..fasssssssta Barroooso. Fasta, Boi!

Uma vez que está naquela posição, o homem exagera e, qual um sapo nas duas pernas, pra não fazer qualquer ruído, vai quase até a porta do estúdio saltitando e rebolando.

 

Longe das luzes, ele levantou, ergueu-se e fechou a cena com chave de ouro. Olhou pro “Ruano” e perguntou

 

– Ficou bom, diretor???? Eu caprichei, né??

 

Com ele, estavam todos os bois carreiros do meu Tio. E todos os olhos de cidade.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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