Surreal, 100 anos!
por Felipe Bueno
Surreal! Você já deve ter ouvido e proferido tal expressão centenas de vezes, num contexto de surpresa, incredulidade, admiração, indignação ou algo parecido. As palavras nascem de várias maneiras e habitualmente se separam de seus pais, significado original e contexto. Algumas desaparecem cedo ou tarde; outras sobrevivem.
Cem anos atrás o escritor francês André Breton defendia a aposentadoria da razão – que havíamos conhecido fazia tão pouco tempo, em termos de idade histórica, com o Iluminismo – e o iminente domínio do maravilhoso, por meio do encantamento e do entorpecimento da sociedade via uma nova maneira de fazer arte.
Uma porta aberta para a manifestação do inconsciente, recentemente apresentado ao mundo por Sigmund Freud.
Uma subversão.
Era o início do domínio do além, supra, supernatural; a lógica e o comedimento são deixados de lado em troca da explosão expressiva e do fluxo livre de pensamento.
O surrealismo enquanto estética deu ao século XX grandes nomes: Salvador Dalí, René Magritte, Giorgio de Chirico, Luís Buñuel, Antonin Artaud.
Era a época das vanguardas, tempo que trazemos com carinho num baú de memórias que poucos vivemos, mas que hoje tem como manifestações práticas mais concretas as camisetas, agendas e capas de smartphones vendidas em museus caros e marketplaces baratos.
Não fugiu a alguns analistas a possibilidade de conectar o libertarismo estético antiburguês e anticapitalista do surrealismo ao que estava acontecendo na Rússia após a Revolução de Outubro. Há quem diga que trata-se de exagero, há quem diga que não.
Polêmica à parte, passado um século do lançamento do Manifesto do Surrealismo (Manifeste du Surréalisme), vale investigar algumas de suas expressões-chave e que uso se faz delas em 2024.
I – Liberdade, por exemplo, eterno desejo humano, hoje é uma palavra que vai perdendo o caráter universal – que, em minha opinião, deveria ser pétreo: cada vez mais torna-se nativa de um discurso antigoverno, individualista, egoísta, anarco qualquer coisa. Nada mais romântico – aliás, ironicamente um dos movimentos estéticos inspiradores do Surrealismo.
II – Imaginação, outra antiga companheira da humanidade, ferramenta das mais belas construções concretas e mentais, atualmente colabora também, dada a rapidez das redes sociais, com a criação dos mais terríveis monstros, muito mais assustadores que os de Goya ou Doré, sejam eles os kits gays (sic) brasileiros ou as pizzarias pedófilas nos Estados Unidos. Terminará a imaginação em breve capturada pela narrativa?
III – Fanatismo, inseparável companheiro da pequenez humana! Quanto já se destruiu por meio de seus obscuros caminhos. Está aí algo que não sai de moda, uma permanente ameaça à razão, como queria, aliás, André Breton, obviamente não com os resultados que vimos no século passado e ainda testemunhamos no presente. Político, religioso, étnico, nacional, comportamental ou qualquer outro, o fanatismo tem colocado gentes contra gentes, e não se enxerga no horizonte antídoto para esse veneno.
Cem anos se passaram; teria o homem, esse sonhador definitivo, cada vez mais desgostoso com seu destino, de acordo com as palavras originais de Breton, se tornado mero escravo das supostas fatalidades da vida? Uma desculpa ideal e um caminho certo para a derrota.
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