O Estadão reedita o “boimate” para atacar o Prerrogativas

Aí o repórter pega o seu “suponhamos” e vai consultar a assessoria de Lula, que diz que ele sequer confirmou sua candidatura, muito menos iniciou a construção do governo.

A história se tornou um clássico do jornalismo. Veja acredita em um primeiro de abril de uma revista científica europeia, que anuncia o cruzamento de boi com tomate que gerou um hambúrguer suculento. Pede ao jovem repórter para repercutir com um especialista. O especialista diz que é impossível. enrolado, o repórter insiste: “mas se fosse possível?”. O especialista ironiza: “Então seria a maior revolução na história da biologia”. Na edição publicada, atribui-se a frase ao especialista, sem explicar que era ironia.

O “boimate” ressusgiu hoje, nas páginas do Estadão.

O grupo Prerrogativas é um conjunto de advogados, a maioria criminalistas, criado em reação à Lava Jato.

O Estadão é um jornal que critica a Lava Jato nos editoriais, mas é o principal instrumentalizador da operação, publicando com destaque – e acriticamente – seus releases.

Recentemente, o Prerrogativas bateu pesado em Sérgio Moro, por sua proposta de reforma do judiciário. O aquário do Estadão planejou, então, uma reportagem para atacar as propostas do Prerrogativas de reforma do Judiciário e do MInistério Público. Havia só um problema: o grupo jamais elaborou uma proposta nesse sentido. 

A maneira como o jornal resolveu o dilema será conhecido, no futuro, como um clássico desses tempos bicudos.

A ordem foi: 

  • Vamos cair matando em cima do projeto de reforma do Prerrogativa. 
  • Mas se ele não tiver? 
  • Basta supor que tenha.

E foi assim que a segunda matéria mais relevante da home do Estadão tem por título “Advogados anti-Lava Jato propõem a Lula reforma dos conselhos da Justiça e do MP”. E a adoção do juiz de garantias.

São temas caros aos advogados, sim. Mas que nunca foram transformados em propostas.

Mas, supondo que existisse a proposta, o jornal foi ouvir o ex-ministro Carlos Velloso – fonte em permanente disponibilidade, quando se necessita de alguém para defender a Lava Jato. 

Velloso disse desconhecer a proposta que não existia. Mesmo assim, 

“Não conheço os termos da proposta. Assim, não tenho o que opinar relativamente ao seu mérito. Todavia, sempre receio proposta de reforma de órgão de controle do Ministério Público, do Judiciário, dos advogados e da imprensa. Sempre há um desejo oculto por trás. E é surpreendente que uma tal proposta venha de associação de advogados”, afirmou.

Mais surpreendente foi a sequência da reportagem: 

“Após formulada, a proposta de mudanças no sistema de Justiça será sugerida e poderá integrar o plano petista para 2022”.

Como assim? Se ainda não foi formulada, significa que não existe. Mesmo assim, o repórter afirma que participarão das discussões “criminalistas sem filiação partidária ou ligação com o PT, como Alberto Toron, que defende o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), e Antônio Claudio Mariz de Oliveira, advogado do ex-presidente Michel Temer (MDB)”. E com base nesse “suponhamos”, foi pedir a confirmação de Mariz que respondeu que 

ainda não foi chamado, mas que o Prerrogativas tem “muito a colaborar para qualquer governo que entrar, quer seja do Lula, quer seja de outro candidato”.

Para engrossar o caldo, o repórter “supôs” que a base do projeto que não existe será a proposta de PEC do deputado Paulo Teixeira (PT-SP). E joga a armadilha do “suponhamos” para o pobre presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, Ubiratan Cazetta.

Sem conhecer o projeto que não existia, Cazetta diz  o debate sempre é bom, mas as premissas do projeto que não existe, mas o jornal supõe” que existe, são erradas. 

Outro entrevistado, o impetuoso procurador Bruno Calabrich – que acreditava tanto na mídia quanto a mídia na Lava Jato – aproveita o “suponhamos” levantado e bate de prima em uma narrativa com tanta credibilidade quanto uma delação premiada:

“Merece nosso repúdio, tanto como procurador como cidadão. Essa proposta não atende o interesse público, mas pode atender o interesse de réus investigados que temem um MP independente”

Pensam que parou por aí?

Segundo advogados do Prerrogativas, de acordo com a suposição do Estadão, outro ponto a ser levado adiante é a incorporação do juiz de garantias ao Código de Processo Penal.

Aí o repórter pega o seu “suponhamos” e vai consultar a assessoria de Lula, que diz que ele sequer confirmou sua candidatura, muito menos iniciou a construção do governo.

Finalmente, foi ouvir Sérgio Moro:

Sérgio Moro disse desconhecer detalhes de “qualquer proposta do PT para a reforma do Judiciário ou do Ministério Público”, mas chamou a iniciativa de “ameaça à democracia”

10 Comentários

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Aristeu Alves Lima

- 2022-01-17 21:37:16

Suponhamos que a maioria dos eleitores brasileiros lessem o Estadão...

Christian Fernandes

- 2022-01-17 21:04:50

Quem precisa de teóricos da pós-verdade quando temos o Estadão?

Carlos Suffredini

- 2022-01-17 16:50:16

Leiam os livros "O Caso Veja" e "O Quarto Poder". Entenderão porque a mídia corporativa é uma arma apontada para o povo brasileiro, e porque a sociedade é tão ignorante e apática por ser mal informada.

AMBAR

- 2022-01-17 15:26:01

Parece uma operação cupido, ou pior, a "reputação enlameada" que os homens costumam fazer contra as mulheres que os repelem nos ambientes de trabalho. Começa quando a moça diz "bom dia" e o colega aponta para o outro pelas costas dela e diz "comi ontem". No dia seguinte todo mundo canta a colega, manda bilhetinhos maldosos sem que ela sequer imagine o que possa ter acontecido.

Aracelus Garagnani

- 2022-01-17 14:55:36

Se fosse 1 enredo de chanchada não poderia ser melhor. A molecada do Estadão tem senso de humor.

José de Almeida Bispo

- 2022-01-17 14:32:03

São mentirosos. E não desistem nunca.

Edivaldo Dias de Oliveira

- 2022-01-17 14:31:13

Atentem para o sobrenome do repórter; Vassalo, Luis Vassalo. O que esperar da reporcagem?

Vladimir

- 2022-01-17 13:50:11

É sempre bom ver que a mídia golpista perde o pêlo mas não perde o vício. Assim,mas temprano que tarde,essa mídia será varrida do mapa.

Igor Gierlinger Pocchini Braga

- 2022-01-17 12:33:25

precisamos de um carimbo de verificação de fatos pra essa mídia marrom né?

Juan Petingi

- 2022-01-17 12:23:50

O Estadão um plantador de notas fake, em que saim falando contra o que não existem. É o ouvi dizer dos dedos duros.

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