As flores do mal, por Aracy Balbani

O comportamento indigno, para dizer o mínimo, dos órgãos do Governo Federal com os povos indígenas e a proteção da Amazônia e demais biomas dispensa pormenores. Tornou-se um circo de horrores.

As flores do mal

por Aracy Balbani

A panaceia mais recente contra COVID-19, propagandeada na Internet por um motoqueiro do Palácio do Planalto, é um chá de carapanaúba, saracura e jambu que seria usado por indígenas da Amazônia.

Que baita tiro no pé. O sujeito escancarou ao mundo, numa só tacada, o desprezo do atual governo brasileiro para com o uso medicinal de plantas, a medicina tradicional, os povos indígenas e a conservação da Amazônia. Como se não bastasse, trouxe à luz os feitos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nessas questões.

A despeito da nossa biodiversidade, a oferta governamental do uso seguro e eficaz de plantas medicinais não é sistemática em todo o território nacional. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, criação da era Lula, inclui o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos desde 2008. Seu objetivo é assegurar à população o acesso ao uso seguro de plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos.

Porém, é preciso sensibilizar os gestores do SUS para conseguir implantar farmácias vivas em todos os municípios. As informações mais recentes do Programa datam de 2017. Não se sabe se houve avanço na cobertura territorial, que abrangia apenas 1145 municípios naquele ano.

Há dificuldade em treinar médicos para conhecer e receitar corretamente plantas medicinais. Boa parte deles vem das classes média e alta urbanas. Não têm familiaridade com o saber de raizeiros, indígenas e caboclos sobre as plantas. Nem possuem vivência nas questões do cultivo da terra. Educar os profissionais é tarefa exatamente da Secretária de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde do Ministério da Saúde, de codinome Capitã Cloroquina.

Se o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos não deslancha no SUS, e se a população não tem sido esclarecida do risco de intoxicação pelo uso incorreto de plantas medicinais, o Ministro da Saúde e o Presidente da República têm de cobrar a médica Mayra Pinheiro.

Também cabe pedir à Sra. Mayra Pinheiro, aos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e General Eduardo Pazuello, ao ex-chanceler Ernesto Araújo e ao Conselho Federal de Medicina explicação por que não houve tratativas com os governos chinês e indiano para cooperação científica e humanitária no enfrentamento da COVID-19 com auxílio da Medicina Tradicional Chinesa e Ayurveda respectivamente. Mais de 5.000 anos de experiência dessas medicinas tradicionais foram simplesmente desprezados. E olhem que o Ministério da Saúde da Índia para Ayurveda, Yoga, Naturopatia, Unani, Siddha e Homeopatia (sigla AYUSH) publicou uma diretriz específica para COVID-19 há muito tempo.

O comportamento indigno, para dizer o mínimo, dos órgãos do Governo Federal com os povos indígenas e a proteção da Amazônia e demais biomas dispensa pormenores. Tornou-se um circo de horrores.

Plantas, se bem usadas, são benéficas. Cuidar de um pequeno jardim vertical com plantas aromáticas e medicinais na sacada de um apartamento pode ajudar a aplacar a ansiedade na pandemia de coronavírus. Participar do cultivo de uma horta comunitária faz a diferença para famílias de baixa renda que sofrem com a insegurança alimentar. Usar a natureza como ferramenta para o controle emocional é tão importante que a polícia japonesa há décadas instituiu a prática dos arranjos florais, ikebana, como parte do treinamento dos seus agentes. Detalhe: em geral essas estratégias são eficazes e custam pouco.

Apesar das evidências científicas, o uso das plantas para a saúde e bem-estar da nossa população ainda encontra muita resistência dentro dos próprios governos. Há gestores que parecem ervas daninhas ou não oferecem ao povo mais sofrido nada além de acúleos.

Pelo lado da ciência e da vida, fica a mensagem do Professor Elisaldo Carlini, saudoso médico que se dedicou a pesquisar plantas medicinais junto aos nossos indígenas: “A gente tem de saber viver no Brasil e tem que enfrentar as dificuldades mesmo, com a sua capacidade de raciocínio, e confiar em você acima de tudo”.

Com coragem, raciocínio e autoconfiança derrotaremos a crueldade das descontroladas flores do mal que ainda empesteiam o país.

Aracy P. S. Balbani é médica.

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