Economia criativa é vital para a sociedade, mas seus profissionais estão vulneráveis, por Arnaldo Cardoso

Teatro, dança, música, moda, arquitetura, design, audiovisual são alguns dos segmentos da Economia Criativa que, para a oferta de seus serviços para a sociedade empregam uma variada gama de profissionais

Economia criativa é vital para a sociedade, mas seus profissionais estão vulneráveis

por Arnaldo Cardoso

Já em junho de 2020 a Fundação Getúlio Vargas mostrava através do “Relatório sobre os Impactos Econômicos da Covid-19 na Economia Criativa” que o setor havia sofrido com a paralisação quase total de suas atividades em função da necessidade do isolamento social para controle da pandemia. No mesmo mês uma pesquisa do SEBRAE revelava queda de 70% do faturamento desse setor no país. Em termos mundiais, marcadamente desde 2015 quando ultrapassou a marca de US$ 500 bilhões de faturamento, a Economia Criativa vinha acumulando seguidas taxas de crescimento, movimento interrompido pela pandemia.

Teatro, dança, música, moda, arquitetura, design, audiovisual são alguns dos segmentos da Economia Criativa que, para a oferta de seus serviços para a sociedade empregam uma variada gama de profissionais, constituindo extensas e complexas cadeias produtivas.

Conforme Howkins (2002) a Economia Criativa pode ser definida como “atividades nas quais a criatividade e o capital intelectual são a matéria-prima para a criação, produção e distribuição de bens e serviços”. Com a pandemia, tornou-se imperativa a combinação de doses elevadas de resiliência, criatividade e profissionalismo, apoiadas por conhecimentos atualizados de recursos tecnológicos digitais para, em caráter emergencial, realizar processos de transformação digital, como relatam profissionais do setor.

A especialista em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos pelo CELACC – ECA/USP Ligia Fernandes, que é fundadora do Kolombolo diá Piratininga e que atua desde 2013 na produtora Borandá ressalta que “a internet já se mostrava um meio importante de escoamento e comercialização da produção artística, com cada vez mais profissionais se especializando nas suas ferramentas e linguagens e buscando meios de obter retorno financeiro através dela. Mas, com o isolamento social, a internet passou a ser o principal meio da cadeia produtiva cultural continuar ativa”.

Diante da grave situação social e econômica de milhares de profissionais atuantes nos setores da cultura foi saudada a criação em junho de 2020 da Lei 14.017, batizada de Lei Aldir Blanc em homenagem ao escritor e compositor morto de Covid-19 em maio de 2020 que, segundo a Agencia Senado “destinou R$ 3 bilhões ao setor da cultura na forma de renda emergencial, subsídio mensal para manutenção de espaços e para editais e chamadas públicas, entre outros benefícios” mas, como avalia Ligia Fernandes “a Lei Aldir Blanc transferiu recursos do governo federal para os municípios – porém, com grande demora que só não foi maior devido aos esforços das secretarias municipais de cultura e coletivos independentes que se dedicaram a acompanhar o processo, cobrar agilidade dos órgãos responsáveis e auxiliar os profissionais em suas inscrições para receber os recursos -, e, hoje, a dificuldade está em conseguir a prorrogação do prazo de execução e prestação de contas pelos municípios e proponentes contemplados. A construção da Lei dá a entender que o governo federal contava com que a pandemia terminasse junto do ano calendário de 2020. Não se deixou prever que a situação de calamidade não tinha data para acabar ou, ainda, que pudesse piorar, como de fato aconteceu logo no começo de 2021”.

Mesmo antes da pandemia a cultura e as artes no Brasil vinham enfrentando um agravamento das condições gerais para a sua livre fruição e infelizmente são abundantes os exemplos disto.

Em recente entrevista do respeitado cineasta Ugo Giorgetti para Amir Labaki, jornalista, crítico de arte e fundador do É Tudo Verdade (Festival Internacional de Documentários) ele relatou as dificuldades para a realização do documentário “Paul Singer, Uma Utopia Militante” finalizado em meio à pandemia graças a um processo colaborativo e campanha de financiamento coletivo, pondo em prática ideias tão caras ao economista retratado no documentário. A campanha de crowdfunding para o documentário arrecadou R$ 130 mil que foram importantes para sua realização, ainda que o valor tenha sido muito inferior ao originalmente orçado. Giorgetti fala dos muitos editais que perdeu e levanta a hipótese de filtro ideológico na recusa de financiamento, e ressalta que foi a economia colaborativa, solidária, que permitiu colocar o filme em pé, mobilizando uma consistente equipe de profissionais dedicados ao projeto como foi ocaso da premiada editora de som Mirian Biderman.

Atualmente acompanhando a execução de dois projetos, o espetáculo “Cunhado de Lobisomem” (adaptado para o formato digital) com os experientes músicos Paulo Freire e Danilo Moraes, (realizado com apoio do ProAC) e o “1º Festival Sabor & Som” sob direção artística de Gisella Gonçalves, que propõe um exercício de reflexão estimulado pelos sentidos por meio do canal no YouTube, Ligia Fernandes avalia que “o crowdfunding (ou vaquinha) foi o principal meio de sobrevivência e auxílio direto para muitos profissionais da cultura. Uma forma de ação imediata para resolver os problemas mais urgentes: o pagamento de aluguel, contas e compra de suprimentos do mês”. Ligia cita o caso da conhecida casa de samba Ó do Borogodó, referência em São Paulo, “que conseguiu arrecadar cerca de R$ 300 mil em 10 dias e, com isso, evitou o seu despejo e conseguirá cobrir as despesas essenciais de um estabelecimento fechado por mais de um ano”. Mas Ligia lamenta que são mais numerosos os casos de “espaços que tiveram que fechar e despedir seus funcionários”.

Após meus elogios quanto a qualidade do espetáculo “Cunhado de Lobisomem” que já realizou quatro apresentações online com os músicos Paulo Freire e Danilo Moraes interagindo com o público em chat online, Ligia Fernandes que assina a produção executiva do projeto lembra que para que o público possa apreciar o talento musical dos artistas, há por trás do palco uma rede de competentes profissionais garantindo toda a qualidade e beleza do espetáculo.

Finalizando a conversa que tive com Ligia ela deixou o seguinte recado: “Serão muitos os aprendizados tirados dessa pandemia, mas imagino que está muito evidente para todos o quanto a cultura é importante para o desenvolvimento da nossa sociedade e o quanto toda a cadeia produtiva ligada a ela é vulnerável e, ao mesmo tempo, capaz de mobilizar muitos esforços. Espero que a gente não esqueça disso”.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor e pesquisador nas áreas de Economia Brasileira, Relações Internacionais e Sociologia.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora