Mercado de trabalho aprofunda sua crise e volta a desmentir retomada, por Lauro Veiga Filho

Com o desmonte do emprego e a debandada de trabalhadores para fora do mercado, o “desemprego oculto” pode ter saltado para uma taxa entre 21,6% e 27,0%, com mais de 31,7 milhões de desocupados

Agência Brasil

Mercado de trabalho aprofunda sua crise e volta a desmentir retomada

por Lauro Veiga Filho

Em sua medição convencional, adotada internacionalmente, o total de pessoas desempregadas no País atingiu neste começo de 2021 níveis recordes desde o começo da série histórica mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2012. Pode parecer de certa forma paradoxal, mas o número de desocupados só não é ainda maior por conta dos efeitos da pandemia e das medidas de restrição à circulação de pessoas adotadas por governos estaduais e prefeituras. Entre outros impactos, a crise causou a saída do mercado de pouco mais do que 11,0 milhões de trabalhadores desde o quarto trimestre de 2019.

Com a debandada de todo esse contingente, literalmente expulso do mercado de trabalho pela retração observada na oferta de empregos, pela falta de opções mais dignas de trabalho e por desalento em relação à possibilidade de conseguir algum tipo de ocupação, as estatísticas para o desemprego passaram a oferecer um retrato parcial da realidade nesta área. Isso não significa que os dados estejam equivocados ou venham sendo “manipulados”. Não se trata disso, não neste caso pelo menos. Pelos padrões aceitos e aplicados internacionalmente, inclusive pelo IBGE, são consideradas desempregadas aquelas pessoas que continuaram a procurar emprego na semana em que a pesquisa é realizada. Aqueles que mesmo desempregados desistiram de continuar buscando uma vaga, qualquer que tenha sido o motivo, deixam a estatística do desemprego e passam a entrar na pesquisa como pessoas fora da força de trabalho.

No quarto trimestre de 2019, perto de 65,429 milhões de trabalhadores encontravam-se fora da força de trabalho, número que subiu para 76,431 milhões no trimestre encerrado em fevereiro deste ano, numa alta de 16,8% (11,002 milhões a mais, portanto). No mesmo intervalo, o número de ocupados caiu 9,2%, saindo de 94,552 milhões para 85,899 milhões, correspondendo ao fechamento de 8,653 milhões de empregos. O número de desocupados, apesar de tudo, registrou acréscimo de 2,791 milhões (ou seja, praticamente um terço do número de ocupações fechadas). Ainda assim, o total de desempregados cresceu fortemente, saindo de 11,632 milhões para o recorde de 14,423 milhões atingido no trimestre finalizado em fevereiro deste ano – um salto de 24,0%. A taxa de desocupação subiu de 11,0% para 14,4%.

O tamanho do estrago

Como se pode perceber, o total de trabalhadores desocupados só não aumentou mais porque milhões deles desistiram de buscar uma colocação, seja por falta de vagas disponíveis, seja por conta das medidas de distanciamento social (ainda que o Brasil jamais tenha adotado um lockdown de fato). A relação entre o número de pessoas na força de trabalho (ocupados e desocupados) e o total de pessoas com mais de 14 anos de idade, que girava ao redor de 62,0% antes da crise, baixou para 56,8% em fevereiro deste ano. Supondo que essa participação retornasse aos níveis pré-pandemia, a força de trabalho teria hoje perto de 109,6 milhões de pessoas. Como o País conseguiu gerar empregos para 85,9 milhões delas, em grandes números, o total de desempregados cresceria em torno de 64,0%, chegando muito próximo de 23,7 milhões (9,3 milhões mais do que o dado atual). A taxa de desemprego, desta forma, estaria por volta de 21,6%, quer dizer, praticamente 50% a mais do que o índice registrado oficialmente.

Há outros caminhos para atestar o estrago causado pela crise e pela inoperância deliberada da equipe econômica e do ministro dos mercados, Paulo Guedes, em prover políticas e recursos necessários para assegurar a sobrevivência de empresas e a subsistência de milhões de famílias empurradas para a miséria e a fome. Além do número histórico de desempregados, como nunca antes na história recente deste País, perto de 11,327 milhões de pessoas estavam fora do mercado no trimestre encerrado em fevereiro passado, mas se dispunham a trabalhar caso conseguissem uma colocação digna. Além desses, outros 5,952 milhões de trabalhadores estavam em situação de desalento.

Somando as três categorias (desempregados, aqueles que gostariam de trabalhar e os desalentados), chega-se a um total de 31,702 milhões de pessoas, pouco mais de um quinto da população com 14 anos ou mais. A força de trabalho avançaria para 117,601 milhões de trabalhadores (17,2% a mais) e a taxa de desocupação saltaria para inacreditáveis 27,0% (diante de 21,2% em igual período do ano passado, considerando métrica idêntica).

Qualquer que seja a medida, os dados da edição mais recente da PNADC desmontam a retórica do inconsequente Guedes.  Não há retomada à vista no curto prazo. O emprego praticamente não avança, o desemprego bate recorde e o “desemprego oculto” sugere um cenário muito mais dramático para as famílias e para a economia como um todo. Mesmo a “reação” observada a partir de agosto do ano passado tem sido liberada pela informalidade, vale dizer, por ocupações que não oferecem direitos, nem garantias e nem certezas. Entre o trimestre julho-agosto de 2020, quando o total de ocupados havia desabado para 81,666 milhões, e o trimestre dezembro de 2020 a fevereiro de 2021, com 85,899 milhões de ocupados, foram abertas 4,233 milhões de vagas (alta de 5,2%). Desses, no entanto, perto de 2,971 milhões foram para a informalidade (70,2%), já que o número de pessoas em ocupações sem registro cresceu 9,6% no período, de 31,043 milhões para 34,014 milhões. Para registro, entre dezembro de 2019 e agosto de 2020, foram destruídos 12,886 milhões de empregos (dos quais, menos de um terço chegaram a ser recuperados).

Na verdade, quando se considera o total de 85,899 milhões de ocupados no trimestre dezembro-fevereiro, ainda seria necessário criar mais 8,553 milhões de ocupações apenas para retomar os níveis do final de 2019.

Perdas de renda

Para completar o cenário, em termos reais (quer dizer, atualizada com base na inflação), a massa salarial habitualmente recebida pelos trabalhadores atingiu em fevereiro o nível mais baixo desde o segundo trimestre de 2017, somando R$ 211,189 bilhões. Em 12 meses, partindo do trimestre dezembro-fevereiro de 2020 (R$ 227,993 bilhões), a soma do total de salários pagos aos trabalhadores experimentava queda de 7,4%, o que se traduzia numa perda de R$ 16,804 bilhões para o orçamento das famílias.

A massa salarial efetivamente recebida, também em termos reais, avançou 9,6% entre o trimestre finalizado em novembro de 2020 e o trimestre seguinte, saindo de 209,426 bilhões para R$ 229,555 bilhões (ou seja, R$ 20,129 bilhões a mais). Em relação a período entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, no entanto, persiste um tombo de 11,3%, numa retração de R$ 29,226 bilhões.

Para uma visão mais apurada do que vem ocorrendo com a renda familiar, a massa de rendimentos efetivamente recebidos pelos trabalhadores havia registrado seu número mais alto no trimestre finalizado em janeiro de 2020, próximo de R$ 250,106 bilhões. Até julho do ano passado, quando havia despencado para R$ 194,677 bilhões, os trabalhadores perderam um quarto de sua renda total, significando um prejuízo de R$ 64,429 bilhões. Entre os trimestres maio-julho de 2020 e dezembro-fevereiro de 2021, foi possível reaver R$ 34,878 bilhões ou 54,1% das perdas, com elevação de 17,9% na massa salarial efetiva. Mas restava a recuperar em torno de R$ 29,551 bilhões, dinheiro que deixou de irrigar o mercado no período, resultado de uma redução de 11,4% para a renda do trabalho frente ao início de 2020.

Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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