O que significa ser de esquerda?, por Vitor Fernandes

O que significa ser de esquerda?

por Vitor Fernandes

Com a polarização que vivemos, a maioria das pessoas têm se identificado cada vez mais com um dos polos da política. E tem se tornado cada vez mais confuso para as pessoas comuns definir o que é ser de “direita” e de “esquerda”.

Mas tem tantas pessoas, de matizes de pensamentos tão diferentes que se denominam como “esquerdistas”: socialdemocratas, cristãos, humanistas, marxistas ateus, socialistas religiosos, pessoas que acham que “o governo tem que fazer alguma coisa pelos pobres”, etc.

No entanto, há algumas coisas em comum nessas pessoas tão diferentes:

é a “preferência pelos pobres”, oriunda principalmente do cristianismo primitivo.

Essa “preferência pelos pobres”, pelos “pequeninos” expressa por Jesus na bíblia: “pobres sempre os tereis convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis» (Mt 26,11; cf. Mc 14, 7; Jo 12,1-8) é o que mais dá unidade, a meu ver, ao pensamento da esquerda. Não digo que seja isso exatamente ou apenas isso. De modo algum. Mas que isso é o que dá mais unidade às intenções esquerdistas.

Posteriormente, no século XIX, com a preocupação com a questão social, com a pobreza, a miséria, a desigualdade gerada pela expansão do capitalismo, surgem as ideias socialistas (“utópicas”, “científicas”, etc.), representadas por Marx, Engels e outros. Estes eram ateus (mas não todos os socialistas e nem a maioria) e tem todo um método (materialismo histórico), para analisar a sociedade capitalista e propor outra, sem classes, a comunista. Esses socialistas do século XIX tiveram essa influência dessa “preferência pelos pobres” cristã. Lembro que Nietzsche “acusava” Marx de cristão, pois seria teleológico, etc.

Mas o que une, o cristianismo primitivo, os comunistas, socialdemocratas, etc. a meu ver, é a preocupação com os pobres, com a miséria, material e espiritual (em sentido amplo da palavra).

É o descontentamento, a revolta com uma sociedade tão rica e tão miserável, como Marx falava de Londres do século XIX, que nos torna esquerdistas.

Um estudo da Oxfam, ONG inglesa, mostra que se os muito ricos do mundo fossem taxados em mais 1% daria para minimizar substancialmente os problemas de saúde e educação no mundo!

Por que isso não acontece? É apenas 1% de sua riqueza…

Quando andamos nas ruas e vemos a miséria de uma senhora de 70 anos vendendo amendoim de madrugada num bar ou uma criança de 10 anos, negra, trabalhando, vendendo qualquer coisa, nos revoltamos. Como isso pode acontecer ainda?

Não digo que esse sentimento de solidariedade seja exclusivo dos esquerdistas. Mas as propostas da direita, quando tem, são filantrópicas. Jamais a concessão de direitos. A filantropia em que você está “dando uma esmola” ao pobre, o olha de cima. Não como um igual. E a ciência social mostra que a filantropia nunca foi capaz de resolver a pobreza em país nenhum. Ela ameniza, mas nunca irá resolver ou dar conta do problema.

Nos, esquerdistas, queremos uma sociedade com direitos básicos universais que garanta vida decente a todos. E para isso, tem que haver ação do Estado por meio de políticas públicas. Pra isso, os muito ricos precisam ser taxados firmemente, como ocorre nos países nórdicos, por exemplo, ou deixar de existir os ricos… Isso une quase todos os esquerdistas.

Quando citamos as pesquisas que mostram os bons resultados dos governos “do PT” na área social, como a redução da pobreza e o quase fim da miséria, a melhoria no acesso à saúde (expresso pela melhora na expectativa de vida), na educação, com o enorme crescimento de pobres, que chegaram à universidade, e outros dados de inegável sucesso na área social, os críticos de direita fogem do assunto e falam de corrupção, crise econômica, violência, corrupção de novo (como se esta tivesse sido inventada com o PT…), etc.

Tudo para não falar da melhoria da vida dos pobres. É que, na verdade, muitas dessas pessoas das classes média e alta, não ligam para os pobres ou não desejam a melhoria de vida deles. Mas eles não podem admitir isso publicamente, pois seria contraditório com o cristianismo que ostenta.

É que o cristianismo deles não é aquele de Jesus, da preferência pelos pobres. Seu cristianismo é o de Malafaia, como todo o seu ódio, com sua teologia da prosperidade, da ostentação de riquezas e defesa dos costumes tradicionais da idade média. Seu cristianismo é o dos conservadores católicos, que querem preservar as tradições e não ligam para a resolução dos problemas sociais. Ou outro cristianismo qualquer que não ligue para os pobres…

A preferência de fato, pelos pobres, une a esquerda como um todo. Por isso, católicos e evangélicos de esquerda não ligam em ter amigos ateus ou espíritas e vice-versa. Isso vira secundário, pois se considera que a “preferência pelos pobres” é o cerne da moralidade.

Os que justificam seu apoio à extrema-direita, como a maioria dos evangélicos, que apoiaram Bolsonaro, não tem como cerne de sua moralidade esse cristianismo primitivo, a preferência pelos pobres. É um cristianismo dos costumes tradicionais, da sociedade hierarquizada. É um cristianismo medieval, que não tem nada a ver com Jesus. Esse seria crucificado de novo.

Essa preferência pelos pobres, pelos pequenos, que influenciou todos os socialistas do século XIX, está na esquerda até hoje. Por isso, defendemos os pobres, os LGBTs, os negros, as mulheres, os imigrantes, etc. Esses são os “pequenos”, os oprimidos no mundo atual.

O cerne de nossa moral é a igualdade de fato entre as pessoas e a resolução dos problemas materiais e espirituais. Por isso, o papa disse que “Os comunistas pensam como os cristãos”. O papa não se importou com a base filosófica ateia do marxismo, mas com a “preferência pelos pequenos”, pois isso, seria o cerne da moralidade. E por esse e outros motivos, o papa é tão odiado pela maioria da direita o sofre feroz repressão da extrema-direita mundial.

Então, talvez você seja de esquerda e não saiba. Você talvez pense como um esquerdista e não saiba disso.

Você não precisa concordar com tudo o que os grupos de esquerda dizem. São muitos grupos e existem mil vozes diferentes e até conflitantes. Mas se a sua moralidade é de “preferência pelos pobres”, pelos pequenos do mundo, e acha que o Estado deve agir para revolver esses problemas, você é um esquerdista. Só talvez não saiba ainda.

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