“Heil Hitler”. Algoritmo analógico e controle oculto do voto
por Armando Coelho Neto
— É verdade que o Flávio caiu nas pesquisas? — perguntou José a João, que respondeu que sim. José quis saber a razão e a resposta foi: “Por causa do áudio e do filme sobre o pai dele”. José, mais curioso ainda, leva João a discorrer, precariamente, sobre a roubalheira do Master, Vorcaro e Karina Ferreira da Gama — a empresária multimídia e faz-tudo, dona da produtora do filme Dark Horse e…
O fato é real, mas os nomes são fictícios. José faz parte daquele contingente de eleitores voláteis, incluído em algumas pesquisas na categoria “pode mudar de voto”. Ele disse a João que, no seu local de trabalho, só existe um aparelho de TV sem controle remoto, sintonizado em um canal evangélico. Em qualquer intervalo, por lei ou não, é o que tem para assistir, e a única exceção é para jogos de futebol.
O que está em cena é o processo de manipulação muito além das redes sociais, no qual o patronato assume o papel de “algoritmo analógico”. É ele que impõe ao trabalhador o que ele pode ou deve assistir. Do mesmo modo que ocorre nos feeds de notícias cujos “carretéis da vida” empurram goela abaixo nas pessoas sedutores gatinhos, cães, crianças. Coitado de José, uma vítima a mais da rádio patrão.
Quando se pensa em algoritmo, de pronto vem à mente o Vale do Silício, inteligência artificial, códigos invisíveis de última geração. Entretanto, a lógica de dominação se faz presente na versão analógica bruta. Trata-se de manobra de cunho político voltada à alienação. O trabalhador, ao voltar para casa cansado, sai do algoritmo patronal e mergulha na alienação incutida pelos filmetes das redes.
A conversa entre José e João reporta o leitor a uma prática corporativa já consagrada, mais comum na construção civil. Sob o manto das ações de responsabilidade social e bem-estar, surgem momentos de orações antes do trabalho, palestras de autoajuda sobre alcoolismo, fortalecimento dos laços familiares e até mesmo cultos. O trabalhador sai de uma presa e cai em outra.
Seja na tela do celular ou na tela da parede do ambiente comum de trabalho, o operário surge como receptor passivo de uma agenda programada por terceiros, que podem ser um bilionário da tecnologia, pastor, político. Trata-se, na prática, de uma versão light do “Receptor do Povo” (Volksempfänger), uma espécie de rádio utilizado pela Alemanha nazista como hábil ferramenta de propaganda ideológica.
O rádio de Hitler cumpria, de forma direta, o mesmo papel que as redes sociais exercem hoje de forma indireta ou subliminar, mas com igual efeito. Idealizado por Goebbels, ministro da propaganda do Führer, o aparelho foi massificado, pois os fabricantes de eletrônicos foram obrigados a produzi-lo a baixo custo. O povo não era obrigado a possuí-lo, mas a pressão social, econômica e psicológica o impunha.
Os comitês nazistas sediados em fábricas e escritórios qualificavam como suspeito, antipatriótico ou comunista qualquer trabalhador que se recusasse a comprar o rádio, já que havia facilidades de parcelamento. Ganhar tais rótulos era risco certo de perder o emprego. Guardadas as proporções, os rótulos sobrevivem e colocam em risco o emprego do João lá de cima, caso trabalhasse na rede varejista Havan.
Cabe lembrar que, durante a campanha presidencial de 2022, o Ministério Público do Trabalho recebeu mais de 3.500 denúncias de assédio eleitoral. Para ficar em apenas um registro, cabe dizer que a Havan foi condenada não só por realizar transmissões ao vivo de propaganda eleitoral, mas também por fazer comunicações internas vinculando a manutenção dos empregos à vitória do ex-capitão.
O mapeamento de denúncias feitas pelo MPT e centrais sindicais contemplava discursos alarmistas tipo perda do emprego por conta do fechamento de empresas, em caso de vitória de Lula. De outro giro, benesses tais como bônus financeiro, 14º salário ou folgas se o ex-capitão vencesse. No mais, ai de quem se recusasse a usar o verde e amarelo, cores apropriadas pelos bolsopatas.
Muito além das redes sociais, o processo de alienação estende-se de forma velada noutros gargalos sociais, inclusive o local de trabalho. Um simples aparelho de TV num canal único imposto pelo patrão é capaz de travar outras informações. No mais, os casos de assédio eleitoral objeto de condenação são meras partes visíveis de atuação de força bruta do que se pode chamar de “algoritmo analógico”.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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