O câncer gástrico, historicamente ligado ao envelhecimento, vem mudando de perfil. Um estudo internacional divulgado em abril na revista Cancer Biology & Medicine mostrou que a doença está crescendo entre adultos jovens, justamente no período em que os casos caem nas faixas etárias mais avançadas em diversos países.
Hoje esse tipo de câncer ocupa a quinta posição entre os mais comuns no mundo, somando quase 1 milhão de diagnósticos por ano. Mesmo com avanços em diagnóstico e tratamento, ele costuma ser identificado tarde, o que reduz as chances de cura e mantém a mortalidade alta mesmo em países ricos.
A pesquisa, baseada em dados do GLOBOCAN 2022 (185 países, período de 2003 a 2017), mostrou que o Leste Asiático concentra a maior parte dos casos e mortes globais. Ao mesmo tempo, os cientistas notaram um padrão preocupante: enquanto a incidência geral caiu, ela subiu em lugares como Nova Zelândia, África do Sul e partes da Europa e das Américas, com aumento também entre mulheres.
Aumento
Segundo o oncologista Roberto Pestana, do Hospital Israelita Albert Einstein, pessoas nascidas entre os anos 1980 e 1990 têm taxas visivelmente mais altas que gerações anteriores. Condições hereditárias, como certas síndromes genéticas, respondem por apenas cerca de 3% dos casos. A maioria surge de forma espontânea, ligada a mudanças no comportamento, na alimentação, no ambiente e no metabolismo.
A bactéria H. pylori segue como o principal vilão conhecido, presente em cerca de 90% dos casos de câncer gástrico não cárdia. Tratá-la pode cortar o risco da doença pela metade. Nas últimas cinco décadas, melhorias de higiene, saneamento e hábitos alimentares, como menos sal e melhor conservação dos alimentos, ajudaram a reduzir os casos entre idosos.
Já entre os mais jovens, o cenário é oposto: obesidade, refluxo, mudanças na dieta e alterações no microbioma gástrico aparecem como possíveis explicações para o aumento, especialmente em países que antes tinham baixa incidência.
Câncer mais agressivo
Pestana destaca que os tumores de início precoce parecem ter comportamento biológico diferente, muitas vezes mais agressivo. Some-se a isso o fato de que médicos raramente suspeitam da doença em pacientes jovens, o que atrasa o diagnóstico e piora o prognóstico.
Outros fatores de risco citados incluem tabagismo, consumo excessivo de álcool, dietas cheias de ultraprocessados, obesidade, infecção pelo vírus Epstein-Barr, histórico familiar e síndromes genéticas raras.
A principal recomendação continua sendo identificar e tratar a infecção por H. pylori. Além disso, especialistas indicam reduzir o álcool, não fumar, manter o peso sob controle e adotar uma alimentação equilibrada.
*Com informações da Folha e Agência Einstein.
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